O Globo, Opinião, p. 16
06 de Ago de 2014
Água de ser tema de preocupação constante
Longas estiagens se juntam à crise no setor elétrico para evidenciar que o país se ressente de uma política responsável para a questão da água
Por coincidência, a seca - seja em razão dos fatores (naturais ou não) que a provocam ou pelos problemas dela decorrentes - está no centro de dois embates eleitorais. Num, o fenômeno cria estorvos para a oposição, o PSDB. Noutro, tem potencial bastante para desidratar seriamente os planos do PT no governo federal para o pleito de outubro.
No primeiro caso, está na berlinda o governador tucano Geraldo Alckmin, às voltas com um alarmante apagão de abastecimento em São Paulo, o mais grave da história do estado. Se não chegam a pôr em xeque sua reeleição, (as pesquisas lhe têm sido bem favoráveis), os mananciais em níveis críticos lhe trazem embaraçosos questionamentos.
No segundo caso, os prolongados períodos de estiagem, ainda que sejam colocados na conta do imponderável, indiretamente se refletem na campanha de Dilma Rousseff para permanecer no Planalto por mais quatro anos. A seca, um dos componentes da crise do sistema elétrico do país, agrava a desestruturação do setor, decorrente de uma política energética desastrosa, marcada pelo intervencionismo e equívocos cometidos pelas administrações lulopetistas na renovação de concessões, entre outros fatores.
Como ônus extra dessa situação, decorrente de incompetência gerencial ou de opções ditadas por uma ideologia desligada da realidade, ou mesmo pela junção desses dois aspectos, culmina-se no governo Dilma uma crise com um custo social previsivelmente grande. Isto porque, com a produção insuficiente das hidrelétricas, o governo federal se vê obrigado a manter as termelétricas ligadas permanentemente para suprir a demanda. Por mais que o Planalto, com empréstimos bancários inusitados e repasses do Tesouro, tente postergar o resgate dessa fatura, cedo ou tarde a cobrança chegará ao consumidor. Passadas as eleições, contas terão de começar a ser fechadas.
Embora com consequências distintas, os problemas decorrentes da seca parecem ter uma mesma motivação política: tanto Alckmin quanto Dilma relutam a enfrentar problema pela via da racionalização do consumo - de água e energia. Ambos insistem no equívoco de transferir para depois das eleições o inevitável realinhamento tarifário do setor ou a regulação da distribuição e do uso da água.
Parece ainda se viver a ilusão de que esse é um bem natural inesgotável. E não é. Prova disso são não apenas os problemas graves de escassez em São Paulo, mas também o leito virtualmente seco do Rio São Francisco na altura de Pirapora (MG) e hidrelétricas sem poder produzir a todo vapor.
Falta uma política de conservação efetiva para a Amazônia, região que condiciona o regime de chuvas em boa parte do país. Mesmo que o próximo verão, estação de chuvas, seja generoso com os reservatórios de hidrelétricas e de abastecimento das grandes cidades, o estrago provocado até aqui pela seca precisa despertar a sociedade e o setor público a fim de que se formule uma política séria para a água.
O Globo, 06/08/2014, Opinião, p. 16
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