JT, Cidade, p. A9
14 de Abr de 2004
Água contaminada ameaça Cumbica
ARTHUR GUIMARÃES
A água usada no abastecimento do bairro de Lavras, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde está localizado o Aeroporto Internacional de Cumbica - o maior da América Latina, freqüentado por 10 mil passageiros diariamente - está ameaçada de contaminação por substâncias tóxicas. Laudos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) divulgados na semana passada mostraram que o lençol freático da região, espécie de rio subterrâneo usado para obtenção de água potável, está infectado por chumbo, bário e cromo. Mais de 50 mil pessoas podem ser contaminadas.
Por ser um local afastado e ermo, o bairro de Lavras funciona como um cemitério químico clandestino. Durante a madrugada, caminhões cruzam as ruas sem asfalto da região lançando da carroceria dejetos tóxicos e entulho, inclusive no leito de córregos. Para agravar a situação, existe no bairro um dos terrenos utilizados pelo Governo Estadual de São Paulo para depósito do lodo retirado da obra de aprofundamento da calha do Rio Tietê.
Esse material, segundo o IPT, também seria perigoso, por apresentar uma quantidade de gás Benzopireno - atualmente em estado sólido, agregado aos dejetos - superior ao permitido pela legislação brasileira. No entanto, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB), órgão responsável pela análise do material depositado no local, sustenta que o laudo do IPT está equivocado. "Preferimos seguir a norma internacional, que trata do assunto de forma mais atualizada. Pela lei estrangeira nosso material não apresenta problemas", afirma o diretor de tecnologia e qualidade ambiental da CETESB, Lineu Bassoi. Para ele a contaminação é anterior ao início do empreendimento na calha do Tietê. "Não é de hoje que aquele local é usado como lixão ilegal para produtos químicos", acusa.
Mesmo assim, a Prefeitura de Guarulhos suspendeu temporariamente a licença do aterro utilizado pelo Governo Estadual. "Não sabemos qual é o grau de contaminação do lençol freático. Precisamos de tempo para estudar melhor a situação e tomar as atitudes adequadas", explicou o secretário municipal do Meio Ambiente de Guarulhos, Valter Dantas, que já enviou os laudos do IPT para estudo do Ministério Público.
Sobre o cemitério químico clandestino, o secretário explica que a região é de difícil patrulhamento. "Os caminhões jogam os produtos ainda em movimento. Quando encontramos os barris, podemos tentar identificar o responsável. O problema é que normalmente apenas o líquido é despejado", disse. O secretário prometeu que a população será avisada sobre os procedimentos para evitar uma contaminação em massa. "Só precisamos aguardar o detalhamento dos laudos", explicou.
A Infraero confirmou que o abastecimento de água do Aeroporto Internacional de Cumbica é feito por poços artesianos perfurados em Guarulhos. No entanto, alegou que a água é retirada de grandes profundidades, além de ser testada diariamente por técnicos especializados, que nunca encontraram vestígios das substâncias tóxicas apontadas nos laudos do IPT.
'Cheiro de vinagre era forte demais'
Mesmo acostumado a passar pelo cemitério químico diariamente, o desempregado José Lopes, de 60 anos, foi surpreendido ontem por uma forte e inusual dor de cabeça. 'Passei por aqui procurando pneus, logo de manhã, e percebi que o cheiro de vinagre era forte demais", contou ele, que teve de ser atendido mais tarde pelo Corpo de Bombeiros. Lopes explicou que freqüentemente observa o movimento suspeito de caminhões despejando materiais, sólidos e líquidos, no local, que é bastante afastado das vias asfaltadas. Segundo ele, levando barris cruzam as estradas de terra do bairro diariamente. "Eles param e furam os barris, jogando tudo no chão", disse. "O problema é que dessa vez um vento bateu muito foste no meu rosto", explicou o desempregado, que também sentia ânsia de vômito e tinha tosse carregada. "Achei que fosse pressão baixa, mas depois percebi que era algo mais grave". Tudo começou a girar muito rápido", contou Lopes, pouco antes de revelar que também estava perdendo a visão.
Problema no local é histórico, diz empresa
A Claro Terraplenagem, firma proprietária do terreno usado pelo IPT para a elaboração dos laudos, afirma que o problema de contaminação no local é histórico. "Há mais de 20 anos a região é usada como lixão clandestino por empresas que trabalham com material tóxico", diz o consultor jurídico e ambiental da empresa, Horácio Peralta. Segundo ele, a Claro tem licença concedida pela Cetesb e faz inspeção em todos os caminhões que despejam materiais em seu terreno, de 500 mil m2. "0 problema é que o subsolo já está contaminado há muito mais tempo. Garanto que o tudo o que jogamos aqui é inerte, como manda a lei."
Ele também diz que não há necessidade de suspender a utilização do aterro para recebimento do lodo retirado da calha do Rio Tietê. "Aquele entulho apresenta uma quantidade insignificante de benzopireno. O mundo inteiro já trabalha com novos padrões de tolerância, apenas no Brasil o limite para a presença dessa substância ainda é baixo."
No entanto, Peralta confirmou que a região ao redor do imóvel é usada como um cemitério químico. "De madrugada, os caminhões tentam entrar no nosso aterro. Como há fiscalização intensa, eles desviam e jogam tudo na rua mesmo, sem o mínimo de cuidado." Segundo o consultor, dessa forma, as empresas que trabalham com lixo tóxico não precisam arcar com o alto custo da destinação correta para esses resíduos. "E muito mais simples e barato."
Efeitos das substâncias encontradas pelo IPT
Chumbo: pode causar dor de cabeça, insônia, insuficiência sexual, perda de memória, elevação da pressão arterial e até câncer
Bário: provoca queda da imunidade, dores abdominais, problemas cardiovasculares e enxaqueca
Cromo: pode causar alteração da quantidade de glicose no sangue. Em excesso, pode provocar diabetes
JT, 14/04/2004, Cidade, p. A9
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