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Agronegócio no norte de MG pena com 70% de rios secos

FSP, Agrofolha, p. A22-A23
29 de ago de 2018

Agronegócio no norte de MG pena com 70% de rios secos
Sem dinheiro, governo suspende obras de barragens e reduz oferta de carros-pipa

Carolina Linhares

"Hoje confesso que fico assim triste, como se eu visse um cemitério", diz Ademir Rocha, 43, desanimado com o mato que toma conta da estrutura de concreto da futura barragem de Berizal, cidade de 5.000 habitantes no norte de Minas Gerais, a 740 km de Belo Horizonte.

Havia tempo que Diguim, como é conhecido, não visitava a obra abandonada onde trabalhou há 16 anos como motorista de caminhão. O cenário era diferente, com máquinas a todo vapor e esperança de água o ano todo.

Hoje ele dirige o único caminhão-pipa do município, do qual dependem os moradores da zona rural --metade da população. Neste ano, Berizal e mais 101 cidades mineiras decretaram emergência por causa da seca.
Há pelo menos seis anos o problema se agravou no norte do estado com sucessivos índices de chuva abaixo da média --70% dos rios e córregos estão secos ou comprometidos, segundo a Emater-MG.

Barragens, poços e nascentes esgotados deixam a agropecuária sem alternativa, mostram dados da estatal.

Desde 2012, caiu 25% o número de cabeças de gado da região. A área de pasto degradada chega a 87,6%. Na última safra, a perda de grãos foi de 85,4% e a de leite, 62%.

Na maior parte das cidades, os moradores da zona rural dependem do caminhão-pipa para consumo. A cada 15 dias, Diguim leva cerca de 14 mil litros de água tratada para famílias de Berizal.

"Até emociona o carinho que a gente é recebido, como se estivesse presenteando. Vejo no olhar da pessoa aquela alegria: chegou a água", conta.

A história de Diguim é a de muitos na região. Começou a trabalhar aos 8 anos e, adolescente, foi para São Paulo tentar a vida. Voltou com a notícia de que a barragem, obra do Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca) do governo federal, garantiria a vazão do rio Pardo e a agropecuária.

A obra, no valor de R$ 347,5 milhões, foi iniciada há 20 anos. Parou por falta de licenciamento ambiental. Agora, o governo em crise não tem verba para retomar o empreendimento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Os R$ 26,5 milhões já gastos em 35% da obra se perdem na estrutura enferrujada.

O objetivo da barragem de quase 340 milhões de metros cúbicos é reter a água da cheia do rio Pardo e perenizar o curso d'água, ampliando a vazão durante a seca, beneficiando 150 mil pessoas e irrigando 10 mil hectares em cinco cidades.

"Seria a redenção da região, espero que o governo que entre agora se sensibilize", diz o prefeito João Carlos (PTB).

"Eu contava com essa barragem. Inclusive tenho planos. Eu criei um pouco de esperança de montar uma irrigação e criar umas vacas leiteiras. Você vê que a gente tem sonho e não pode realizar por conta da água", afirma Diguim.

Sem oportunidades, os jovens da região viram estatística do êxodo rural.
Os filhos de Clemente de Souza, 71, por exemplo, são padeiros em São Paulo. Sua casa, de barro e fogão a lenha, seria inundada pela barragem.

Atrás do galinheiro, corria o rio Itaberaba, afluente do Pardo. É de um buraco no leito completamente seco que Souza tira água com ferrugem para oito bois. "O bicho bebe porque tem sede, mas a água não é boa", diz.

Entre 2016 e 2017, a quantidade de água distribuída pela Defesa Civil de Minas Gerais caiu 66% enquanto o número de pessoas atendidas foi reduzido pela metade. No mesmo período, o volume distribuído pelo Exército em todo o país teve queda de 17,4%.

Neste ano, segue a tendência de baixa, verificada ainda na quantidade de cidades atendidas por caminhões-pipa emergenciais da Copasa, estatal de abastecimento.

Os recursos dos municípios também estão escassos para lidar com a seca. Em grave crise fiscal, o governo mineiro deve R$ 8,1 bilhões em repasses aos prefeitos.

A Berizal, o estado deve R$ 1,6 milhão entre verbas de saúde e educação. A cidade gasta mais de R$ 50 mil ao ano com caminhão-pipa e não pode atender o pedido de estender o serviço ao gado. A alternativa é vendê-lo, mas faltam compradores mesmo com o preço baixo.

"Diz que não pode dar água do pipa pra criação, mas não tem jeito. Eu dou água pra vaquinha, mas é pouquinha, não me xinga, não, prefeito", apela Adenildo de Oliveira, 53.

Num retrato do sertão, chega de bicicleta assobiando "Asa Branca" com facão na cintura e foice na mão. "Tem hora que eu penso em ir embora e para o comércio, mas não tenho estudo."

Beneficiária do Bolsa Família, sua mulher, Maria Ilza, 46, caminhou dois quilômetros para lavar roupa pesada no poço do cunhado naquele dia.

Há 20 anos, com rios caudalosos e peixes de sobra, ninguém imaginava que a seca castigaria dessa forma, mas o desmatamento impede a infiltração da água da chuva, necessária para recarregar lençóis freáticos e nascentes, agravando ainda o assoreamento dos leitos.

A 420 km de Berizal, também no norte de Minas, outra obra parada promete salvar o rio Jequitaí, afluente do São Francisco que míngua nesta época do ano.

A barragem de Jequitaí é uma reivindicação da década de 1950 e, numa parceria entre a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba) e o governo de Minas Gerais, foi licitada em 2013 no âmbito do PAC ao custo de R$ 400 milhões.

A construção consumiu R$ 19 milhões e foi paralisada em 2015, quando a empreiteira rescindiu o contrato com 25% da obra concluída.

Regularização fundiária, reassentamento dos atingidos e compensações socioambientais já consumiram outros R$ 165 milhões e seguem em andamento à espera de nova licitação da obra, que depende de recursos federais.

A represa de 800 milhões de metros cúbicos tem previsão de irrigar 35 mil hectares de terra, beneficiar 600 mil pessoas em 19 municípios, gerar energia, atrair turismo e ampliar em dez vezes a vazão do rio Jequitaí na seca.

Com 85% das terras adquiridas e indenizadas, o município de Jequitaí aposta na retomada. Equipamentos e materiais da obra têm vigilância 24 horas por dia no canteiro abandonado.

"A necessidade da barragem é pra ontem", diz o prefeito de Jequitaí, Joaquim Izidoro (PR), que só tem um caminhão-pipa e não consegue pagar os servidores municipais em dia.

Montes Claros, a maior cidade do norte de Minas, a 100 km de Jequitaí, também seria abastecida pela nova barragem. O município está desde 2015 em rodízio de água e a barragem de Juramento, que o abastece atualmente, chegou a 13% em 2017 e hoje tem 31% da capacidade.

Nível de renda define acesso à água no agreste de Pernambuco
Rico ganha salário mínimo e compra do cartel; pobre briga na fila da vergonha dos carros-pipa

29.ago.2018 às 2h00
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João Valadares
AGRESTE PERNAMBUCANO
Eles bebem a mesma água dos bichos. A salvação da família do agricultor Valdeci Rodrigues, 52, e das duas vacas que restaram, após sete anos seguidos de seca, é um barreiro sujo perto de casa.

Não há escolha. Em Poção, Agreste de Pernambuco, região com 65 municípios em estado de emergência, a água sumiu. Não cai do céu e nem chega uma gota sequer pelas torneiras faz quatro anos.

Esperar é o verbo mais conjugado por lá. A secura interminável é assombrosa e desafia a sobrevivência.

A barragem de Duas Serras, que abastece a cidade, secou.

O "mundão d'água" que viria com a transposição do São Francisco ficou pelo meio do caminho porque as obras de interligação de canais com adutoras estão paralisadas.

Humilhação é rotina. Valdeci não reclama. "É só esperar a água esfriar um pouco, coar, deixar assentar e beber. Não tem problema", diz o homem que vive com R$ 250 por mês, juntando com o dinheiro do Bolsa-Família.

A neta dele, 10 anos, escuta a receita da sobrevivência e concorda balançando a cabeça. Acostumou-se. Viveu quase sempre assim. "A água é boa", fala.

Bem pertinho de lá, a escola municipal Getúlio Vargas teve de fechar por três dias. A explicação em uma frase é direta. "Não tinha água para fazer a comida das crianças", diz a merendeira Sandra da Silva, 38.

Diferente de Valdeci, ela tem uma cisterna em casa. "Eu pego a água do barreiro para tomar banho e cozinhar. Bebo dela não."

O agreste pernambucano, cuja base da economia gira em torno da bacia leiteira e do polo de confecções, virou sertão.

"Esse ciclo climático no agreste é uma novidade. Não tem água mesmo. A situação é pior do que a do semiárido", afirma o gerente de meteorologia e mudanças climáticas da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Patrice Oliveira.

A barragem de Jucazinho, em Surubim, o principal reservatório da região, só está com 5,8% da sua capacidade.

A produção leiteira do agreste caiu quase pela metade. Antes do longo período de estiagem, de acordo com dados oficiais, eram produzidos 2,5 milhões de litros de leite por dia. Em algumas cidades, o rebanho teve uma redução de 65%. Em outras, foi praticamente dizimado.

Em Pernambuco, há 30 reservatórios em absoluto colapso. A capacidade de armazenamento do sertão, considerando os reservatórios oficiais, é um pouco mais do que o dobro da do agreste.

A estiagem prolongada mobiliza e transforma a vida de cidades inteiras. A água passa a apontar ricos e pobres.

Em Poção, é artigo de luxo. Rico é quem ganha um salário mínimo e consegue comprar o produto vendido por um cartel de comerciantes que viu, na catástrofe histórica, uma oportunidade de melhorar de vida.

"Compro o 'bujão' de 250 litros por R$ 3 e vendo por R$ 10, R$ 12, na cidade. Vendo uns 30 por dia", diz Givanildo Ferreira, 35, que largou o emprego de garçom e para revender água.

Quem vende o produto para Givanildo é José Paulo, 33. A Seca o expulsou da cidade. Depois de perder 30 cabeças de gado, acabou indo para São Paulo.

"Passei quatro anos lá trabalhando de pedreiro. Trabalhei na construção de um hospital", diz, cheio de orgulho. Voltou para Poção faz dois anos.

Pegou tudo o que tinha juntado na vida, R$ 19 mil, e furou dois poços artesianos no quintal de casa. "Deu água boa. É como achar petróleo. Mas tem que saber tirar para não saturar o poço. Vivo disso hoje. Vendo 70 botijões por dia aqui", conta.

Aos pobres, resta entrar na fila da vergonha. São os mendigos da água. Brigam entre eles porque não tem para todo o mundo.

Também não há emprego e só conseguem comer por causa do Bolsa Família. Tirar parte do dinheiro para comprar água é impossível.

No bairro da Cohab, na zona urbana de Poção, cada adulto só pode pegar dois baldes por vez de uma caixa de 10 mil litros abastecida semanalmente pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Há outros reservatórios espalhados pela cidade. A disputa é a mesma. Crianças pequenas enfrentam sol forte para guardar lugar na fila. "O pipa tá subindo. Vamos, vamos", grita uma moradora.

É a senha para, em poucos minutos, crianças, velhos e mulheres começarem a sair de casa carregadas de baldes. É gente para tudo que é lado.

Da primeira vez em que começou a gritaria, era alarme falso. O caminhão-pipa chegou perto, mas estava indo abastecer uma escola.

Uma hora e meia depois, o barulho forte do motor do veículo, que precisa subir uma ladeira alta para chegar ao reservatório, transformou o local novamente.

Os recipientes já estavam enfileirados e as crianças se posicionavam apressadas para não perder o lugar.

Luiz Fernando, 4, com a camisa do jogador Messi, não parava um minuto sequer. Enchia pequenos baldes rapidamente, esvaziava perto de casa e voltava para a fila. Ouvia a reclamação da mãe quando demorava um pouco, encantado com o drone que sobrevoava o local.

Joelmir da Silva, funcionário da Compesa, recebe salário para, entre outras coisas, separar brigas. É a sua principal atribuição. Acompanha todas as distribuições.

"É muita confusão. Eu preciso separar. O povo tem que entender as regras. Querem pegar mais do que o permitido", afirma.

Na mesma fila, as irmãs Maria Dejanira da Silva, 65, e Judite Maria da Silva, 64, se locomovem com dificuldade. Resmungam entre elas que tem "muito menino" pegando água.

As crianças vão e voltam numa velocidade que as duas não conseguem acompanhar. "Já encheram mais de dez baldes na nossa frente. Tem gente aqui que tem dinheiro para comprar água boa para beber. A gente bebe dessa mesmo. Tem muito cloro, mas não tem problema", diz Judite.

Na engrenagem eleitoral, água é voto.

Em Jataúba, também no agreste, vereadores que apoiam candidatos para deputados estaduais e federais mandam áudios por grupos de WhatsApp dizendo onde devem ser realizados os abastecimentos do dia.

É a indústria da seca em tempos de rede social. "Quem financia o abastecimento aqui é um empresário. São 20 caminhões por dia. Ele está apoiando uma deputada. A gente organiza tudo pelo grupo para colocar água para o povo. Não distribuímos santinhos não", conta um dos organizadores do grupo.

Em Pernambuco, a zona urbana de 45 cidades ainda depende exclusivamente de caminhões-pipa da Compesa. O governo gasta R$ 8,5 milhões por ano. A zona rural de 121 municípios é abastecida pelo Exército.

José Leite, 68, mora num sítio em Jataúba. "A água que colocam aqui é tão salgada que até os bichos fazem careta para beber. Eu tenho que separar um dinheirinho para comprar para mim", diz.

Perto de lá, os esqueletos de gado e de cavalos estão espalhados em vários pontos. Não há mais pasto para os bichos. O que mais tem é pedra e cabra.

Em Santa Cruz do Capibaribe, limite com Jataúba, há localidades que dependem de caminhões-pipas há mais de quatro anos.

"Estou levando água nesse jumentinho para a minha esposa", conta Inácio José da Silva, 63 anos, que mora numa comunidade conhecida como Prado.

Ele resolveu desafiar a seca. Plantou milho e feijão. A chuva não veio. "Perdi foi tudo. A gente tenta de novo. Um dia a água vem."

A adutora do agreste, no valor total de 1,24 bilhão, que iria se interligar com o ramal leste da transposição do São Francisco para abastecer a região, deveria ter ficado pronta em dezembro de 2015.

As obras não avançaram. O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), diz que o estado sofre retaliação política. Em ofício ao presidente Michel Temer, Câmara afirmou que o governo federal só repassou 64% do valor acordado.

"Infelizmente, neste ano de 2018, nenhum repasse foi realizado ainda, em que pese constar no orçamento federal o valor de R$ 218 milhões para dar continuidade ao andamento da obra."

Procurado, o Ministério da Integração Nacional informou que, em dezembro de 2017, repassou mais de R$ 126,3 milhões para a obra. A pasta ressaltou que o recurso federal tem sido suficiente para a execução do empreendimento hídrico.

FSP, 29/08/2018, Agrofolha, p. A22-A23

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/08/agronegocio-no-norte-de-m…

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