OESP, Notas e Informacões, p. A3
21 de Jul de 2005
Agricultura na periferia
A maior parcela dos jovens desempregados da cidade de São Paulo se concentra nas periferias pobres das zonas leste e sul da cidade. A baixa escolaridade e a insuficiência de transporte público, capaz de levá-los para os bairros da cidade com boa oferta de empregos, impõem a esses rapazes a marginalidade.
Também nas zonas leste e sul estão as maiores áreas definidas pelo Plano Diretor da capital como Zonas Especiais de Produção Agrícola e Extração Mineral (Zepags). Na maioria, são propriedades localizadas em áreas de preservação ambiental. Sem fiscalização eficiente, muitas delas vêm sendo transformadas em loteamentos clandestinos. Outras, diante da falta de interesse dos filhos dos antigos agricultores, estão abandonadas ou, na melhor das hipóteses, se transformaram em locais de lazer.
Na tentativa de contribuir para a inclusão dos jovens no mercado de trabalho, a Prefeitura de São Paulo decidiu ampliar um projeto iniciado na administração Marta Suplicy, cujo objetivo é desenvolver a agricultura sustentável nessa periferia.
A migração do cultivo tradicional, que compromete os mananciais com o uso de agrotóxicos, para o cultivo orgânico, e a utilização de estufas e técnicas avançadas são alguns pontos que serão desenvolvidos no projeto Fábrica Verde, que a administração já começou a instalar em dois pólos: no Itaim Paulista, na zona leste, e em Parelheiros, na zona sul.
Os jovens serão ensinados a desenvolver as técnicas de cultivo por professores da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). O Sebrae manterá centros de empreendedorismo nos pólos, oferecendo orientação para que os participantes desenvolvam negócios próprios com maior chance de sucesso.
As Zepags ocupam 14,75% dos 1.509 quilômetros quadrados do território paulistano. Os dois pólos agrícolas que a Prefeitura pretende instalar servirão de laboratórios para novas iniciativas e, certamente, transferirão experiência para agricultores estabelecidos que, atualmente, abastecem restaurantes, sacolões, feiras livres e supermercados da periferia.
Não há estatísticas confiáveis sobre a produção de hortaliças e legumes em São Paulo. O último levantamento, realizado entre 1995 e 1996, pela Secretaria de Estado da Agricultura, colocou a cidade de São Paulo entre os cinco maiores produtores do Estado de alface, couve, brócolis e repolho.
No entanto, a desordem urbana da periferia e, principalmente, a expansão das invasões irregulares em áreas de mananciais têm causado a redução da atividade agrícola nas Zepags. O esgoto dos loteamentos clandestinos contamina a água usada na irrigação das hortaliças e legumes e a criminalidade afugenta os agricultores, que acabam migrando para municípios vizinhos. Pesquisa realizada nas regiões de Parelheiros e Capela do Socorro indica que as áreas de propriedade rurais caíram de 2,6 mil hectares, em 1992, para 1.217 hectares, em 2002.
Por isso, o primeiro pólo agrícola que a Prefeitura instalará no Itaim Paulista, na zona leste, será em uma área de preservação de mananciais, pertencente à Empresa Metropolitana de Águas e Energia do Estado de São Paulo (Emae). Apesar de o imóvel ser protegido por lei, parcela considerável da área já foi invadida. Ao promover, nessas áreas, o cultivo de hortaliças, ervas aromáticas e medicinais, a Prefeitura pretende frear a ocupação de propriedades e contribuir para a preservação dos mananciais.
Na zona sul, também em áreas de preservação, outros 100 jovens trabalharão no cultivo de especiarias, tomate, goiaba e maracujá.
A iniciativa da Prefeitura abre a possibilidade de empregar jovens excluídos do mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, de preservar o meio ambiente, pelo menos nessas áreas onde serão instaladas as Fábricas Verdes. As Zepags somam, no entanto, 222,6 quilômetros quadrados, grande parte não mais utilizada na atividade agrícola, o que as torna alvo de invasões. A intensificação da fiscalização e a punição rigorosa aos loteadores clandestinos são essenciais para assegurar a preservação das áreas de proteção e o próprio sucesso do projeto municipal.
OESP, 21/07/2005, Notas e Informacões, p. A3
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