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Agricultor orgânico já processa a produção

OESP, Agrícola, p. 10-11
24 de Out de 2007

Agricultor orgânico já processa a produção
Geléias, vinagre, molhos, frutas desidratadas e
laticínios são os itens já disponíveis no mercado interno e para exportação

Niza Souza

Há dez anos, o fruticultor paranaense Mauro Passos percebeu que precisava agregar valor à sua produção de caqui orgânico. Começou a fazer uma classificação mais rígida das frutas, para comercialização in natura. Passou a oferecer produtos com mais qualidade, principalmente no visual. Com uma seleção mais rígida, aumentou, porém, a quantidade de frutos descartados. 'Chegava a ter 40% de refugo', conta. Decidiu, então, dar mais um passo na cadeia produtiva, passando não só a produzir, como a processar o caqui.

Contando apenas com mão-de-obra familiar, o primeiro produto que saiu da cozinha montada para o processamento foi o caqui desidratado. 'Mas percebemos que a cozinha ficaria ociosa e aumentamos a variedade de produtos.'

Além dos 4 hectares de caqui, a família passou a cultivar meio hectare de uva e meio hectare de amora no sítio, em Campina Grande do Sul (PR).

Com isso, a linha de produtos, que ganhou a marca Quina Amarela, foi incrementada com geléias, hoje o principal produto da marca, e novos sabores. 'Agora estamos finalizando o processo de industrialização do vinagre de caqui', revelou Passos, durante a Biofach América Latina, que terminou na quinta-feira, em São Paulo (SP).

Os produtos orgânicos industrializados dominaram a Biofach. E chama atenção o grande números de produtores, inclusive familiares, como Passos, que processam a produção como alternativa para melhorar a renda. 'O Brasil é conhecido internacionalmente como produtor de produtos primários. Temos de mudar isso. Valorizar nossa produção', defende o gestor do projeto Organics Brasil, Ming Liu.

Para o agrônomo José Pedro Santiago, do Instituto Biodinâmico (IBD), certificadora nacional de orgânicos, a verticalização - ou seja, a produção e o processamento da matéria-prima na propriedade rural - da produção orgânica é uma tendência. 'Isso é bom e necessário. Além de agregar valor, o agricultor amplia mercados.' Outra vantagem é que o produtor pode programar as vendas.

Passos sabe bem disso. 'Colhemos as frutas, que passam por um tratamento sanitário e depois as congelamos, para ter matéria-prima o ano inteiro para produzir as geléias.' E, nos últimos quatro anos, a proporção de vendas se inverteu. Hoje, 30% da produção do caqui é vendida fresca e o restante vira geléia. 'A rentabilidade do processado é melhor. Para cada R$ 1 investido, ganhamos R$ 3 com a venda in natura e em torno de R$ 4 com as geléias.'

CONCORRÊNCIA

A agrônoma Araci Kamiyama, da Associação de Agricultura Orgânica (AAO), diz que, ao contrário dos produtos convencionais, os orgânicos já começam a agregar valor no campo. 'Mas é claro que compensa processar, principalmente pelo ganho de tempo de prateleira.' Segundo ela, há uma tendência não só dos agricultores, mas também de grandes grupos, de entrar no ramo dos orgânicos. 'O lado bom é que o consumidor terá mais opções no mercado. O lado ruim é que, talvez, a competitividade do pequeno produtor fique prejudicada.'

Por isso, ela alerta que é preciso tomar alguns cuidados antes de começar a processar. 'O produtor precisa ver se há mercado. E, se precisar comprar matéria-prima, procurar antes os fornecedores.' Vale lembrar que, para ser considerado orgânico, a legislação exige que 95% dos ingredientes que compõem o produto sejam orgânicos e certificados.

É para não depender de fornecedores que o agricultor Fulgêncio Torres, de Porto Morretes (PR), quando decidiu produzir cachaça orgânica, há quatro anos, optou por ter sua própria plantação de cana-de-açúcar. 'É uma forma de garantir o padrão de qualidade da bebida', justifica. Apesar das dificuldades na produção, Torres diz que compensa investir no produto orgânico. 'É um mercado que está crescendo e estou apostando no setor.'

Informações: AAO, tel. (0--11) 3875-2625

Safra beneficiada vale mais
Agricultor elimina o intermediário e não fica pressionado pela alta perecibilidade do produto in natura
Na região de Maciço do Baturité, no Ceará, a industrialização foi a solução que os produtores de café encontraram para melhorar a renda das famílias. Como o café é um produto que requer escala para o processamento e comercialização, os agricultores se juntaram e formaram a Cooperativa Mista dos Cafeicultores Ecológicos do Maciço do Baturité (Comcafé). Atualmente, os 60 cooperados produzem cerca de 14 mil sacas de café arábica, em sistema de sombreamento.

"Antes a gente vendia o café em grão para atravessadores. O lucro, agora que estamos processando, é quase 50% maior do que antes", calcula o agricultor Francisco Auri Alves Júnior, representante da Comcafé no estande Nordeste & Cerrado, um dos destaques da Biofach. "Isso melhorou muito a qualidade de vida dos produtores da região."

CERTIFICAÇÃO

Por enquanto, o café ainda é comercializado como ecológico, com a marca Pico Alto, mas as práticas agrícolas já atendem às normas de certificação orgânica. "Não usamos nenhum tipo de adubo e defensivo. E as mudas são feitas a partir das nossas próprias sementes", garante Alves Júnior. "Estamos em processo de negociação com uma certificadora. O custo da certificação é alto", explica o Alves Júnior. "Mas o selo agrega valor ao produto e o retorno é bom. Compensa."

Juntar a produção e ter escala para industrializar também foi a alternativa para o grupo de bananicultores orgânicos de Antonina, no Paraná. Eles formaram a Cooperativa Fruto da Terra e produzem banana-passa. A iniciativa foi do produtor Paulo Borges. "No início comercializava a fruta in natura. Mas queria uma forma de agregar valor e aumentar o período de aproveitamento do produto", conta ele. "Desenvolvi os fornos e comecei a processar."

Com o produto desenvolvido, Borges começou a incentivar outros agricultores da região que, assim como ele, tinham dificuldades, em certas épocas do ano, de escoar a produção. "Optamos pelo produto orgânico, principalmente porque estes produtos têm vantagem de comercialização ante o convencional", aposta Borges. A idéia deu tão certo que 80% da banana-passa produzida são exportados. Em 2006, foram produzidas 25 toneladas de passa. O produtor da associação recebe em torno de R$ 4 a caixa, mais um prêmio que é pago pela exportadora por quilo vendido no exterior. "O mercado paga R$ 2,50 pela caixa de banana convencional. É uma boa diferença."

800 mil hectares é a área que a agricultura orgânica ocupa no Brasil,
segundo o Ministério da Agricultura

95% de ingredientes é o mínimo exigido para que um produto processado seja considerado orgânico

90% das 150 empresas nacionais exportadoras de produtos orgânicos são micro ou pequenas

Demanda é crescente
Agricultores que processam alimentos confirmam, mas alertam que industrializar requer aptidão
Para quem acumula alguns anos de experiência na industrialização de produtos orgânicos, a tendência de verticalização não é novidade. 'Isso mostra o amadurecimento do setor', diz o produtor Ricardo Schiavinato, de Serra Negra (SP). Sua atividade principal é o leite orgânico, que ele comercializa em forma de manteiga, queijos, doce de leite, ricota, requeijão e iogurte. 'Há várias vantagens, além da financeira. Sou totalmente a favor da pequena agroindústria.'

Nos últimos anos, a demanda pelos industrializados cresceu e Schiavinato investiu na ampliação da miniusina. Incrementou também o mix de produtos, com geléia de morango e tomate seco orgânicos. 'Consegui atingir um mercado maior justamente porque tenho mais produtos para oferecer', diz.

Mas ele alerta: 'O produtor tem de encarar a produção de processados como uma nova atividade. Não é uma mina de ganhar dinheiro.'

O produtor Luciano Gambarini, da Jatobá Produtos Agroecológicos, concorda. 'Trabalhar com processamento é outro nível. A gente tem de cumprir uma gama enorme de exigências. É preciso ter uma certa aptidão', acredita. Em sua propriedade, em Inconfidentes (MG), o processamento da produção começou em 1995, quando o mercado de orgânicos ainda era restrito. 'O comércio melhorou muito nos últimos quatro anos. Talvez porque o consumidor passou a ter mais acesso à informação e a querer este tipo de produto, mais saudável', avalia.

E foi nesta época que começou a investir mais na industrialização. 'Construímos uma cozinha industrial e compramos equipamentos maiores, para ampliar a capacidade de produção.' Para garantir a qualidade, todos os ingredientes usados na fabricação dos produtos são cultivados na propriedade. Hoje, a lista de produtos da Jatobá é grande. O principal é o tomate, que é vendido em polpa, molho (clássico, tradicional, manjericão e azeitona), suco e catchup (original e picante).

OESP, 24/10/2007, Agrícola, p. 10-11

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