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Agenda da campanha: quais temas devem dominar o debate eleitoral em Mato Grosso do Sul em 2026

ND Mais - ndmais.com.br
Autor: Renato Becker
07 de Jun de 2026

O debate eleitoral em Mato Grosso do Sul em 2026 deve ir muito além da tradicional polarização entre direita e esquerda. Em um estado que vive um ciclo de expansão econômica impulsionado pela indústria da celulose, pela Rota Bioceânica e por novos investimentos logísticos, os candidatos serão pressionados a apresentar respostas para problemas antigos e desafios que surgem com a transformação acelerada da economia regional.

Questões como a concentração dos serviços de saúde em Campo Grande, a segurança em uma das maiores fronteiras secas do país, os conflitos fundiários envolvendo povos indígenas, a alta taxa de feminicídios e os impactos das mudanças climáticas no Pantanal tendem a ocupar espaço central nas campanhas para governador, Senado e Câmara Federal.

Crescimento econômico e pressão sobre cidades

O avanço da indústria da celulose transformou Mato Grosso do Sul em uma das principais fronteiras de expansão do setor no país.

Municípios como Inocência, Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas e Água Clara vivem um ciclo acelerado de crescimento populacional e econômico, mas enfrentam dificuldades para acompanhar a demanda por moradia, saneamento, mobilidade e serviços públicos.

Em Inocência, por exemplo, a futura fábrica da Arauco deve gerar milhares de empregos e já mobiliza uma quantidade de trabalhadores superior à população do município. O alerta tem sido para o risco de colapso da infraestrutura urbana caso os investimentos públicos não acompanhem a velocidade da industrialização.

Essa transformação também deve colocar em debate a capacidade do Estado de planejar o desenvolvimento regional. Além da geração de empregos, candidatos deverão ser cobrados sobre habitação, qualificação profissional, saneamento e logística para sustentar o crescimento das chamadas cidades da celulose.

Rota Bioceânica e infraestrutura

A Rota Bioceânica aparece como uma das principais vitrines de desenvolvimento para Mato Grosso do Sul. O corredor ligará o Centro-Oeste brasileiro aos portos do norte do Chile, passando por Paraguai e Argentina, e promete reduzir custos logísticos e ampliar mercados para produtos do agronegócio e da indústria.

Para o historiador e analista político Eronildo Barbosa, a obra deve entrar fortemente na campanha porque tanto o governo estadual quanto lideranças ligadas ao governo federal possuem capital político acumulado sobre o projeto.

"O PT pode exaltar o corredor, porque o Lula foi fundamental nisso lá atrás. O Zeca do PT foi fundamental nisso lá atrás. Então o PT tem um discurso para isso", aponta Eronildo.

Segundo Eronildo, a obra também pode ser apropriada pelo grupo político que governa o Estado. "Eu acho que os dois lados podem se beneficiar. A rota começou a ganhar tração a partir de 2013. E no governo Reinaldo. Tudo o que tinha que fazer até agora para a rota eles estão fazendo", comenta o historiador.

Saúde e a dependência de Campo Grande

A saúde pública deve ser outro eixo central da disputa. O problema é histórico e afeta praticamente todos os municípios do Estado. Campo Grande continua concentrando grande parte dos atendimentos de média e alta complexidade, enquanto pacientes do interior enfrentam longas viagens e filas para conseguir consultas, exames e cirurgias.

A situação da Santa Casa de Campo Grande simboliza esse desafio. O maior hospital do SUS (Sistema Único de Saúde) em Mato Grosso do Sul registra crescimento anual da demanda, enfrenta déficit financeiro e opera frequentemente acima da capacidade. Dados divulgados pela própria instituição mostram corredores lotados, pacientes aguardando leitos por mais de 10 horas e ocupação muito superior à contratada pelo poder público.

Segundo dados apresentados pela Sesau (Secretaria Municipal de Saúde de Campo) em maio de 2026, Campo Grande possui cerca de 1,6 milhão de registros de Cartão SUS, enquanto a população da cidade é de aproximadamente 963 mil habitantes. Ou seja, o número de cadastros supera a população em cerca de 66%.

Nos últimos anos, governo estadual e gestores da saúde passaram a discutir mecanismos de regionalização para reduzir a dependência da Capital. Uma das propostas é integrar as centrais de regulação e ampliar o uso de hospitais regionais, para evitar encaminhamentos desnecessários para Campo Grande.

Para Eronildo, esse debate deve aparecer com força na campanha. "O debate que eu vejo que vai acontecer aqui é que o Fábio [Trad] vai puxar essa questão da saúde", comenta."A saúde, a regionalização, eu vejo que é uma coisa importante".

Segurança pública e fronteira

Outro tema recorrente é a segurança pública. Mato Grosso do Sul possui cerca de 1.500 quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia, condição que favorece a atuação de organizações criminosas ligadas ao tráfico internacional de drogas, armas e contrabando.

Na avaliação de Eronildo, a questão continuará sendo explorada eleitoralmente. "Aqui é um estado de fronteira. Aqui a gente convive com o crime organizado. (...) Você tem o contrabando na fronteira. Você tem a passagem de armas aqui vindo dos Estados Unidos, via Paraguai".

Além do combate ao tráfico de drogas e às facções criminosas que atuam em Mato Grosso do Sul, o debate deve envolver temas como cooperação internacional, investimentos em inteligência policial e reforço no controle das fronteiras.

A discussão ganha ainda mais relevância após a recente e polêmica decisão dos Estados Unidos de classificar as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Feminicídio e violência contra a mulher

A violência contra a mulher também deve ganhar espaço na campanha. Mato Grosso do Sul aparece entre os estados com as maiores taxas de feminicídio do país. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 181 mulheres foram assassinadas por razões de gênero entre 2021 e 2025. O ano mais violento foi 2022, com 44 casos registrados.

Dados da própria Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública) mostram que o Estado permanece entre os líderes nacionais nesse tipo de crime e acumula mais de 300 feminicídios desde 2015.

Para Eronildo, o tema dificilmente ficará fora da agenda eleitoral. Segundo ele, o assunto deve envolver o fortalecimento da rede de proteção às mulheres, expansão de delegacias especializadas, políticas de prevenção e ampliação dos serviços de acolhimento.

Questão indígena e Pantanal

Por fim, dois temas historicamente sensíveis em Mato Grosso do Sul devem voltar ao centro do debate eleitoral: os conflitos fundiários envolvendo povos indígenas e a preservação do Pantanal.

Mato Grosso do Sul possui a terceira maior população indígena do Brasil, com 116.469 indígenas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). O Estado concentra comunidades dos povos Guarani-Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Kinikinau, Guató, Ofaié e Atikum, entre outros.

Ao mesmo tempo, abriga uma das regiões de maior produção agropecuária do país. Essa combinação faz com que disputas por demarcação de terras e reintegrações de posse estejam frequentemente presentes em municípios como Dourados, Amambai, Caarapó, Antônio João, Japorã e Paranhos.

Nos últimos anos, a retomada das demarcações pelo governo federal reacendeu o debate sobre segurança jurídica no campo, direitos territoriais indígenas e indenizações a proprietários rurais.

O tema deve ganhar ainda mais destaque durante a campanha, principalmente porque envolve interesses de setores influentes do agronegócio e de organizações indígenas que reivindicam o cumprimento de decisões constitucionais. A discussão também costuma provocar repercussões nacionais e dividir posições dentro do Congresso Nacional.

Outro tema que ganhou peso político é a preservação ambiental. As queimadas recordes registradas no Pantanal nos últimos anos transformaram o bioma em uma preocupação permanente para governos e candidatos.

Em 2024, o Pantanal enfrentou uma das piores crises ambientais de sua história recente, com milhões de hectares atingidos pelo fogo e impactos sobre a biodiversidade, o turismo e a economia regional.

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