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'A agenda ambiental urbana não é suficiente'

O Globo, Sociedade, p.24
Autor: LUCON, Oswaldo
12 de jun de 2019

'Brasil não conseguirá atingir as metas', diz coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
Oswaldo Lucon alerta que país não está fazendo o necessário para agir contra o aquecimento global, ele defende maior envolvimento em negociações internacionais e quer reduzir tensões entre governo e cientistas

Rio - Oswaldo Lucon acompanha de perto o avanço da temperatura global há 25 anos. Desde a década de 1990, ele participa de estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão vinculado à ONU; em 2001, foi um dos fundadores do fórum brasileiro dedicado ao tema e, no mês passado, assumiu sua coordenação.

Liderar o comitê, composto por 131 membros do governo e da sociedade civil, é uma tarefa delicada. Seu antecessor, Alfredo Sirkis , denunciou a suposta falta de interesse do Ministério do Meio Ambiente em discutir os trabalhos do fórum. O titular da pasta, Ricardo Salles, cortou de seu organograma a Secretaria de Mudança do Clima e, depois, deu uma tesourada em 95% do orçamento destinado à área.

Em entrevista ao GLOBO, Lucon avalia que o governo federal deve se aproximar das negociações da Conferência do Clima e ressalta que priorizar a poluição das cidades - a agenda urbana, como define o ministério -, deixando o campo em segundo lugar, não livrará o país dos efeitos do aquecimento global.

Quais as funções do fórum?

É um espaço que fornece documentos e materiais que podem sugerir ao governo estratégias para enfrentar as mudanças climáticas. Por exemplo, ajudá-lo a estabelecer que metas o país pretende adotar para reduzir suas emissões de gases estufa, assim como propor ações para setores específicos, como o melhor uso de pastagens pela agropecuária. O fórum dá uma ideia dos custos e da eficácia de cada iniciativa.

O senhor impôs alguma condição ao ser convidado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para assumir a coordenação executiva?

Disse que continuaria reconhecendo as evidências científicas. Ciência não tem ideologia. Também pedi mais esforço para que o país execute alianças multilaterais, como o Acordo de Paris. Precisamos investir em ofensivas diplomáticas para limitar o aumento da temperatura global a até 2 graus Celsius. O planeta está indo em uma direção muito superior a esta.

O Brasil comprometeu o seu protagonismo nas negociações diplomáticas mundiais quando ameaçou sair do Acordo de Paris e, depois, se recusou a sediar a Conferência do Clima?

Tenho resistência ao termo "protagonismo", porque parece que estamos falando de uma disputa, e não de eficiência. O mais importante é destravar pontos-chave da negociação, como o mecanismo de perdas e danos (em que os países desenvolvidos se comprometem a ajudar as nações em desenvolvimento a se recuperar de catástrofes climáticas).

No mês passado, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) passou de 96 membros para 23. O senhor teme que o fórum passe pelo mesmo processo?

Pedi ao ministro (Salles) que, ao menos por enquanto, mantenha sua atual composição. Vivemos um momento de opiniões polarizadas. É importante preservar um fórum que discute as mudanças climáticas, porque este tema exige uma visão de longo prazo.

Qual é o orçamento do fórum?

Não temos orçamento. Respeito o contingenciamento do governo, mas pedi apoio ao ministério e estou entrando em contato com instituições. Preciso de pouco: só alguns assistentes, um sistema de teleconferência e um repositório de informações. O fórum não pode e não deve morrer.

O brasileiro sabe o que são as mudanças climáticas e que riscos elas apresentam?

O cidadão comum tem percepções de que estão ocorrendo mudanças climáticas quando vive eventos extremos, como a crise hídrica e desastres ambientais. Episódios como a quebra de safras tornaram-se o novo normal.

O governo extinguiu, no início do ano, a Secretaria de Mudança do Clima e Florestas. Foi uma boa estratégia?

Não cabe a mim decidir. Extinguir um braço debilita uma instituição, mas, se esse braço não estava funcionando a contento, deve-se criar uma outra estrutura. Espero que essa debilidade seja temporária, e superada o quanto antes. Trabalhando para o governo, sei que passamos por mudanças institucionais de tempos em tempos.

Nos últimos seis meses, segundo o Imazon, o desmatamento da Amazônia subiu 20%. O Brasil conseguirá atingir as metas com que se comprometeu no Acordo de Paris?

Não. O país precisa investir na economia de baixo carbono. Para obter recursos e estimular a competitividade, o ideal seria aumentar a convergência entre comércio exterior e mudanças climáticas. Por exemplo, taxar ou não comprar produtos que emitem muitos gases de efeito estufa, como os combustíveis fósseis.

Um estudo do Observatório do Clima apontou que 70% da liberação de poluentes do país está relacionada a agropecuária e desmatamento, mas o governo enfatiza a ação nas cidades. É o bastante para combater o aquecimento global?

A agenda ambiental urbana não é suficiente. Nem seria se atuássemos apenas na agropecuária. Os gases de efeito estufa vêm predominantemente do uso do solo, mas podem se reduzir, pois já existem boas práticas que podem ser disseminadas no campo.

O Brasil depende de recursos estrangeiros para combater as mudanças climáticas?

Sim. Precisamos de tecnologia para transformar a nossa indústria. Mas não devemos esperar a chegada do dinheiro.

O senhor pretende criar um diálogo entre academia e poder público? A relação entre ambos têm sido muito tensa.

Sim. Cada um expressa suas opiniões como quiser, mas pretendo encaminhar sugestões da academia ao governo. O poder público também pode dar subsídios para que as ideias saiam do papel.

O Globo, 12/06/2019. Sociedade, p.24

https://oglobo.globo.com/sociedade/brasil-nao-conseguira-atingir-as-met…

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