O Globo, Ciência e Vida, p. 46
18 de Nov de 2006
Acordo global do clima vai ser revisto em 2008
Ampliação do tratado pode obrigar países em desenvolvimento, como o Brasil, a cumprirem metas dos ricos
Após duas semanas de negociação, ministros do Meio Ambiente reunidos em Nairóbi concordaram ontem em rever o Acordo de Kioto em 2008 e em ampliar o pacto de luta contra o aquecimento global após 2012, quando o acordo firmado por 35 nações industrializadas expira.
Para alguns especialistas, a ampliação do pacto significará a inclusão na lista dos países que precisam cumprir metas de redução, a longo prazo, de nações em desenvolvimento, como China, índia e Brasil.
Os cerca de 70 ministros que participam da conferência da ONU sobre mudanças climáticas também concordaram em ajudar a África a obter fundos para financiar o desenvolvimento de fontes de energia limpa. Brasil e Papua Nova Guiné receberam apoio para uma iniciativa que visa a garantir recompensas aos países em desenvolvimento que adotarem medidas de combate ao desmatamento. Mas os participantes da reunião têm visões diferentes sobre os resultados concretos do encontro.
- Fizemos um tremendo progresso aqui em Nairóbi - afirmou o ministro do Meio Ambiente do Quênia, Kivutha Kibwana.. - Mas existem ainda muitos desafios pela frente.
Yvo de Boer, diretor da agência da ONU para mudanças climáticas, também é otimista.
- Acho que a conferência fez progressos muito significativos para países em desenvolvimento - disse De Boer, citando incentivos para as energias solar e eólica, num acordo que pode levar até US$ 100 bilhões aos países pobres até 2012 e a adoção de princípios para um fundo destinado a combater as alterações climáticas nos países em desenvolvimento.
O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Sigmar Gabriel, no entanto, afirmou que a reunião fez muito pouco para combater o aquecimento do planeta provocado pela queima de combustível fóssil.
- O que alcançamos na conferência não é suficiente - afirmou o ministro alemão.
O negociador de Uganda, Philip Gwage, fez coro: - O que realmente gostaríamos de ter visto seriam incentivos para financiar energias limpas na África.
Muitos dos defensores de Kioto são favoráveis à revisão total do acordo, sob a alegação de que suas metas não são suficientes para conter o aumento das temperaturas. Isso pode ser mais uma fonte de pressão para que as nações em desenvolvimento tenham também que reduzir suas emissões.
Os países mais pobres sustentam que as nações desenvolvidas devem continuar pagando essa conta. Mas o presidente dos EUA, George W. Bush, já disse que não pretende entrar num esquemaa que, para ele, é uma camisa-de-força econômica.
- Nossa política é trabalhar para reduzir as emissões de gases do efeito estufa - afirmou Paula Dobriansky, subsecretária de Estado para Democracia e Assuntos Globais.
O compromisso atual
O acordo de Kioto obriga as nações desenvolvidas signatárias a reduzirem suas emissões de gases que contribuem para o efeito estufa em 5% abaixo do volume emitido em 1990. Essas reduções devem estar vigorando até 2012.
Os países comprometidos com o acordo respondem por 30% de todas as emissões poluentes do mundo. Os Estados Unidos, que não assinaram o acordo, são os maiores emissores do mundo.
O acordo prevê que apenas as nações desenvolvidas sejam obrigadas a reduzir suas emissões porque entende que essas nações construíram suas riquezas por meio da queima de combustíveis fósseis durante décadas. Por isso, também os países em desenvolvimento, caso de índia, China e Brasil (de industrialização muito mais recente) ficaram de fora.
No entanto, esses países estão entre os maiores emissores da Terra e a pressão para que sejam também obrigados a entrar no pacto é cada vez maior em todo o mundo.
Elevação de temperatura destruirá caminhos dos animais migratórios
Calor elimina machos de tartaruga e deixa aves sem ter para onde ir
Algumas das mais importantes espécies de animais migratórios serão severamente afetadas pelas mudanças climáticas, segundo relatório divulgado ontem pelas Nações Unidas.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sustenta que o aumento da temperatura selará a extinção para algumas espécies migratórias. Tartarugas marinhas são particularmente afetadas pelo aquecimento global, aponta o documento, já que a elevação da temperatura altera o equilíbrio entre machos e fêmeas.
Mas, de acordo com o relatório, medidas de conservação voltadas para áreas específicas podem proteger mesmo os animais migratórios. Por definição, as espécies migratórias dependem de diversos ecossistemas diferentes. Pássaros vão de um continente a outro; baleias e tartarugas cobrem vastas áreas do oceano.
- Obviamente essas espécies desenvolveram esses padrões migratórios ao longo de milênios e, é claro, eles poderiam criar outros - afirmou o diretor da Convenção das Nações Unidas para Espécies Migratórias, Robert Hepworth.
- Mas a ênfase é em "ao longo de milênios". Estamos lidando com mudanças que devem ser drásticas nos próximos 25 a 50 anos; é bastante improvável que essas espécies possam se adaptar nesse tempo.
As tartarugas estão entre os animais mais atingidos pelo aumento das temperaturas. Cientistas descobriram que, em temperaturas mais elevadas, algumas tartarugas produzem muito mais ovos femininos do que masculinos. Em partes da península da Malásia, alguns sítios de desova estão produzindo apenas fêmeas.
Os autores citam ainda indícios de que algumas tartarugas se tornam mais vulneráveis a doenças letais à medida que as águas esquentam, provavelmente porque organismos infecciosos proliferam melhor nessas temperaturas.
Com as aves, o principal problema é relacionado aos danos aos habitais no início e no fim de suas rotas migratórias e ainda nos locais de parada ao longo do caminho. Um quinto das espécies estaria ameaçado.
O Globo, 18/11/2006, Ciência e Vida, p. 46
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.