Valor Econômico, Especial, p. F4
20 de Dez de 2016
Ações procuram minimizar impactos ambientais
Júlia Matravolgyi
Apesar de fundamentais para o desenvolvimento econômico do país, as rodovias geram mudanças no uso da terra e ameaçam a biodiversidade dos locais onde são construídas. Fatores inerentes à existência das pistas, como ruídos, atropelamentos de animais e contaminação do solo fazem as concessionárias que administram as estradas buscarem medidas para minimizar o impacto ambiental de suas atividades.
Essas iniciativas se refletem na preservação da flora e da fauna e são decisivas para a qualidade do serviço oferecido aos usuários.
Desde 2002, a Ecovias, responsável pelo sistema Anchieta-Imigrantes, que liga a capital paulista ao Porto de Santos, estuda o uso asfalto-borracha, feito da adição de pneus triturados à massa asfáltica. O material é uma solução sustentável para o descarte de pneus no meio ambiente, pois evita que a borracha, que demora 600 anos para se decompor, seja queimada e produza fumaça tóxica. Além de ecológico, o material tem bom custo-benefício: apesar de 30% mais caro, é 40% mais resistente que o tradicional, reduzindo a necessidade de manutenções.
A partir de de agosto do ano passado, todo o pavimento flexível das rodovias do sistema Anchieta-Imigrantes é de asfalto-borracha, o que significa que 660 mil pneus foram reutilizados. "O material também absorve mais água e ajuda na redução de acidentes", explica Artaet Martins, assessor de sustentabilidade da Ecorodovias. "Todas as unidades da empresa têm o prefixo Eco, pois buscamos esse direcionamento para nossos projetos".
O atropelamento de animais silvestres é o problema que mais demanda medidas efetivas por parte das concessionárias. No Brasil, 15 animais são atropelados por segundo em estradas, totalizando 475 milhões de atropelamentos anuais, de acordo com o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade Federal de Lavras. "Cerca de 90% das colisões envolvem pequenos vertebrados, como anfíbios ou aves, por isso, a maioria pode passar despercebida", diz Alex Bager, coordenador do CBEE.
"Placas que sinalizam a presença de animais são instrutivas, mas tendem a não mudar o comportamento dos motoristas", diz Bager. Estudo e investimento são necessários para implantar ações que possam proteger os ecossistemas. "Existem dois níveis de estratégias de conservação: os de pequena escala, em um trecho especifico, e maiores, como leis ambientais que mitigam o problema em sua origem". O projeto de lei PL 466/2015, de autoria do deputado Ricardo Izar (PSD), tramita com objetivo de criar parâmetros obrigatórios na construção de estradas e ferrovias para evitar atropelamentos.
Faunodutos, pequenos túneis para que animais cruzem as pistas, em geral acompanhados de cercas que ajudam a direcioná-los para as passagens, são uma das estratégias para evitar as colisões. Esse tipo de acidente gera 13 mil ocorrências com motoristas mortos ou feridos por ano, de acordo com o CBEE. Um estudo conduzido pelo projeto Saferoad, em 2013, mostrou que, para mamíferos grandes, a combinação de cercas e passagens é capaz de reduzir as mortes em 83%.
Na Rodovia do Sol, que percorre o Espírito Santo, os faunodutos implantados pela Rodosol são responsáveis, também, por gerar informações: um sistema registra as pegadas deixadas e câmeras monitoram as travessias, criando um banco de dados sobre espécies e seus comportamentos. Entre 2003 e 2015 foram contabilizadas 7.454 travessias nos sete sistemas monitorados. O projeto "É o Bicho", do qual a prática faz parte, inclui ações de resgate das espécies debilitadas por colisões para cuidados veterinários. "O programa nos permite, com o conhecimento gerado, aprimorar ferramentas para evitar os atropelamentos", explica Ricardo Braga, engenheiro agrônomo e coordenador do programa. Desde 2002, a Rodosol investe 6,32% do faturamento em ações voltadas à proteção do meio ambiente.
As concessionárias também desenvolvem projetos ambientais focados em conscientização, replantio de árvores nativas e descarte adequado de resíduos. A preocupação não existe em vão: o Guia de boas práticas para estradas ecologicamente corretas, do Conselho de Conservação para a América Latina (LACC), afirma que até o ano de 2050 serão construídos 25 milhões de quilômetros de estradas, sendo 90% em países em desenvolvimento, em áreas que abrigam locais com grande biodiversidade.
A Triunfo Concepa, que administra trechos da BR-290 e BR-116, no Rio Grande do Sul, tem entre suas prioridades mecanismos de monitoramento que vão desde o controle da emissão de gases poluentes em sua frota até a análise periódica de qualidade da água nas regiões próximas às pistas. Além disso, a concessionária replantou 15 mil mudas de árvores nativas e criou regras para evitar acidentes com cargas perigosas, que diminuíram sua periodicidade de mensal para semestral.
"Analisamos continuamente esses dados, pois temos preocupação em mensurar e mitigar qualquer impacto ambiental que nossa atuação possa causar" explica Thiago Vitorello, diretor-presidente da empresa. A Triunfo Concepa investiu R$ 2,24 milhões em cuidados com o meio ambiente em 2015, e o grupo Triunfo Participações, que administra 2140 quilômetros de rodovias no Brasil, investiu R$ 25,8 milhões em programas ambientais no mesmo período.
Valor Econômico, 20/12/2016, Especial, p. F4
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