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Ações do PCC fortalecem permanência de garimpeiros na Terra Yanomami

UOL - https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/05/03
03 de Mai de 2023

Ações do PCC fortalecem permanência de garimpeiros na Terra Yanomami

Fabíola Perez Do UOL, em São Paulo 03/05/2023 04h00

Ações do Primeiro Comando da Capital, o PCC, e de outras facções criminosas têm sustentado a permanência dos garimpeiros na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A tensão aumentou desde o último sábado (29), quando garimpeiros mataram uma liderança indígena. Ontem, oito corpos foram encontrados e a PF enviou grupos de elite à região.
Como é a atuação do PCC

A facção paulista controla a estrutura logística do garimpo para o escoamento de drogas para outros países e estados, segundo o sociólogo Rodrigo Chagas, pesquisador do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Fronteiras da UFRR e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele diz que aviões que transportam ouro no garimpo também levam drogas.

Integrantes do PCC atuam como "seguranças" nas atividades do garimpo. O relatório do ISA (Instituto Socioambiental) chamado "Yanomami Sob Ataque" aponta a existência de serviços de segurança privada prestados por grupos associados ao crime organizado.

Nas regiões de extração ilegal do ouro, adolescentes são empregados para vender drogas nos garimpos -método usado pelo PCC no Sudeste do país. De acordo com Chagas, um grama de cocaína equivale a um grama de ouro, que custa R$ 290 nesses locais.

A facção controla ainda pontos de comércio de drogas nas periferias de Boa Vista, capital de Roraima. Em São Paulo, o PCC também comanda a compra e venda de drogas nas regiões periféricas.

Há indícios da presença de garimpeiros faccionados no grupo que não quer deixar a Terra Indígena Yanomami. Chagas afirma que existem três diferentes perfis de garimpeiros: aqueles que saíram do território após as operações da PF e da Funai, os que acreditaram que se tratava de uma política temporária e os que resistem. Entre esses últimos, estão os que seriam ligados às faccões.

O PCC também tem controle sobre casas de prostituição do garimpo, conhecidas como corrutelas.

Comando Vermelho e grupos internacionais
Além do PCC, o Comando Vermelho e facções venezuelanas passaram a controlar atividades importantes em áreas próximas ao garimpo, segundo fontes ouvidas pelo UOL. Os grupos criminosos controlam o transporte terrestre, por meio de rotas em fazendas; o aéreo, com o controle das pistas de pouso; e o fluvial, por meio do monitoramento dos rios.

A diferença de atuação do PCC e das demais facções é que a facção paulista atingiu maior capilaridade na região e maior domínio sobre as atividades criminais em Boa Vista - que incluem roubo, por exemplo.

As ações do Comando Vermelho estão concentradas, principalmente, no tráfico de drogas. Segundo o pesquisador, agentes públicos afirmam que apreenderam chefes do tráfico pertencentes ao CV em Boa Vista.

Uma das principais atividades gerenciadas pelo Comando Vermelho hoje seria a comercialização do skank, um tipo de maconha. Há elementos que apontam que o CV atua em parceria com facções venezuelanas como Tren del Sur.

Chagas identificou ao menos quatro facções venezuelanas que disputam espaço na mesma área. São elas: Casa Podrida, Tren Del Sur, Tren del Llanos e Tren De Aragua. "É um problema internacional muito complexo. A defesa da Terra Indígena Yanomami é a garantia, um escudo para que não entre o narcotráfico."

Em parceria, os grupos criminosos conseguem escoar as drogas para fora do país. O domínio logístico cria uma rede informal de pistas de aviões que levam drogas para Colômbia, Guiana e Suriname.

O Comando Vermelho tem uma atuação que parece ser centrada em Alto Alegre. Eles não têm muita influência em Boa Vista e não têm muita atuação dentro do garimpo. Não dá para saber se é um acordo ou se operam de uma forma discreta."
Rodrigo Chagas, sociólogo e pesquisador

Ameaças a lideranças indígenas
Armamentos usados por garimpeiros em ataques contra lideranças indígenas também apontam para o vínculo com facções. Segundo a Hutukara Associação Yanomami, em um ataque contra três indígenas no sábado (29) garimpeiros estavam armados com calibre 380.

A proximidade de profissionais do garimpo com integrantes de organizações criminosas se intensificou desde 2021 quando garimpeiros de facções atacaram a comunidade Palimi ú, em território yanomami.

Pesquisadores e integrantes de forças de segurança destacam ainda que presos que são liberados na região acabam trabalhando no garimpo -e muitos deles saem da prisão faccionados.
O que dizem sobre os conflitos em área yanomami

Lideranças acreditam que pelo armamento pode significar que um grupo de facção tenha se instalado na região."
Nota divulgada por associação yanomami

É muito comum que pessoas que saíram da Penitenciária Agrícola de Monte Cristos se escondam no garimpo. Também é muito comum que alguns garimpeiros já tenham passado pela prisão. As atividades começaram a se misturar nos últimos anos."
Rodrigo Chagas, sociólogo e pesquisador

Os procuradores lotados em Boa Vista [RR] e que atuam na temática estão em contato com a Polícia Federal desde o fim de semana. O objetivo é supervisionar as diligências e atuar de forma conjunta na instrução do inquérito policial, que pode reunir provas e levar à denúncia dos responsáveis."
Procuradoria Geral de Roraima

O UOL procurou a Polícia Federal em Roraima, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

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