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Acionistas da Vale propõem acordo para diluir o controle da mineradora

O Globo, Economia, p. 19
21 de Fev de 2017

Acionistas da Vale propõem acordo para diluir o controle da mineradora
Analistas veem menor ingerência do governo. Ação dispara, e Bolsa vai a nível recorde

DANIELLE NOGUEIRA
danielle.nogueira@oglobo.com.br
Colaborou Rennan Setti

Os acionistas da Vale reunidos na Valepar, holding que controla a mineradora, apresentaram ontem proposta para pulverizar seu controle, de modo a listá-la no Novo Mercado, o mais alto nível de governança da BM&FBovespa. O objetivo é que isso ocorra em três anos. Até lá, a estrutura societária da empresa passará por uma transição, na qual os atuais acionistas no bloco de controle perdem poder.
Integram a Valepar os fundos de pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Fundação Cesp, reunidos na Litel. A Elétron, que pertence ao banqueiro Daniel Dantas, também faz parte da Litel. Além deles, BNDESPar, Bradespar e a japonesa Mitsui compõem a holding. Juntos, eles detêm 54% das ações com direito a voto da Vale. Paralelamente, o novo acordo dará mais liquidez às ações detidas pelos fundos de pensão e demais sócios da Valepar. Hoje, essas ações não são negociadas em Bolsa, o que representa um problema especialmente para os fundos, que enfrentam dificuldades para equilibrar suas contas.
A notícia puxou o pregão na Bovespa, que avançou 1,16%, aos 68.532 pontos, o maior nível em quase seis anos. Segundo analistas, a medida aumentará a transparência e reduzirá a ingerência do governo. Tanto os papéis da Vale como os de sua acionista Bradespar dispararam após o anúncio do novo acordo de acionistas. A Vale ON (ordinária, com voto) subiu 6,93% (a R$ 36,43), e a PNA (preferencial, sem voto) avançou 6,17% (R$ 34,24). A ação da Bradespar saltou 16,62%, a R$ 26,59. O dólar fechou com leve baixa, recuando 0,09% e cotado a R$ 3,090 para venda. A sessão foi de baixo volume por causa do feriado do Dia do Presidente nos EUA, que fechou os mercados em Wall Street. Marcos Assumpção, analista da Itaú BBA, considerou a operação "criativa e positiva" para a Vale.
PRÊMIO DE 10% PARA CONTROLADORES
O novo acordo de acionistas da Valepar terá vigência de seis meses, a contar de 10 de maio. Nesse período, as ações da Vale serão unificadas. Quem tem ações preferencias terá os papéis convertidos em ações ordinárias. A conversão será voluntária, com base na média do valor de mercado das duas classes de ações nos últimos 30 pregões da Bovespa. Para a proposta vingar, ao menos 54% dos papéis preferencias terão de ser convertidos.
Em seguida, a Valepar será incorporada à Vale, como antecipou o colunista do GLOBO Lauro Jardim no último domingo. Ou seja, seus acionistas terão participação direta na mineradora. Haverá, então, novo acordo de acionistas da Vale, não mais da Valepar, com duração até novembro de 2020. Num primeiro momento, 20% das ações da Valepar serão vinculadas a esse acordo, mas sua influência será reduzida.
- As reuniões prévias dos acionistas da Valepar deixarão de ser obrigatórias (nessas reuniões, eles decidiam como iam votar no Conselho). E os conselheiros não serão mais eleitos pela Valepar. O Conselho ganhará poder - afirmou o presidente da Vale, Murilo Ferreira.
Ao fim do processo, porém, os acionistas da Valepar terão um quinhão maior do que o atual. Segundo apresentação feita por executivos da Vale, a Valepar detém 33,7% do capital total da mineradora atualmente e passará a ter 36,7% após sua incorporação pela Vale. Resultado do prêmio de controle pago para equacionar a nova estrutura societária: haverá um incremento de 10% no volume de ações da Valepar, enquanto os demais acionistas serão diluídos em 3%.
A conversão das ações, a incorporação da Valepar pela Vale e as mudanças no estatuto da empresa ainda terão de ser votadas em assembleia, que deve ocorrer em 11 de junho. Por isso, mesmo aprovado, o novo acordo não muda em nada a próxima eleição dos conselheiros, que vai ocorrer em dois meses. Da mesma forma, o acordo não interfere na reeleição ou não de Murilo Ferreira para a presidência, cujo mandato termina em maio. Hoje, existe um acordo tácito entre os acionistas da Valepar, pelo qual a Bradespar indica o presidente da mineradora, e a Previ, o presidente do Conselho de Administração. Além disso, com os fundos de pensão de estatais e a fatia da BNDESPar, o governo brasileiro detém força para interferir nessa nomeação, algo que deve deixar de ocorrer no futuro.
- É um marco tão importante quanto a privatização da Vale - disse Ferreira sobre a proposta do novo acordo de acionistas.
'GOLDEN SHARES' MANTIDAS
O acordo atual é de 1997, quando a Vale foi privatizada, e tinha 20 anos de duração. As golden shares, criadas nessa época e que asseguram poder de veto ao governo brasileiro em diferentes matérias, serão mantidas.
Os acionistas da Valepar poderão negociar suas ações a partir de fevereiro de 2018. Segundo a Previ, sua fatia na Vale soma R$ 24 bilhões. A Petros, que está deficitária, não fez comentários. BNDES e Bradespar elogiaram a operação. A Mitsui não comentou.
- Com o acordo, fica mais fácil sair do negócio. Hoje, se a Previ quiser vender sua fatia, por exemplo, é difícil até avaliar o ativo que ela tem - explicou Luiz Caetano, analista da Planner. - A tendência é que o governo também deixe de ter ingerência sobre a empresa, melhorando a governança.

O Globo, 21/02/2017, Economia, p. 19

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