JB, Cidade, p. A19
28 de Dez de 2003
Ação pública contra o desperdício
Ambientalista acusa a Cedae de perder, diariamente, 250 mil metros cúbicos de água tratada na Estação do Guandu
Florença Mazza
Enquanto o fantasma de um possível racionamento de água ronda o dia-a-dia da população fluminense, 250 mil metros cúbicos de água tratada - o suficiente para abastecer 1 milhão de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde - são desperdiçados diariamente na Estação de Tratamento de Água do Guandu, segundo o ambientalista Sérgio Ricardo de Lima, ex-integrante da direção da Assembléia Permanente das Entidades de Defesa do Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro (Apedema).
O ambientalista vai propor aos ministérios públicos estadual e federal uma ação civil pública contra a Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae) por crime ambiental e improbidade administrativa. Segundo Sérgio Ricardo, além do lançar diariamente cerca de 200 toneladas de lodo na Baía de Sepetiba, a Cedae desperdiça recursos públicos ao perder de 5% a 10% da água tratada no Guandu e ao comprar um grande volume de produtos químicos por mês.
- Isto é um crime contra a saúde pública. Enquanto a Cedae joga fora água tratada há anos, grande parte dos moradores dos municípios vizinhos ao Guandu usam poços artesianos - alerta Sérgio Ricardo.
A Cedae nega o desperdício de água. Diretor de produção e grande operação da empresa, Jorge Luiz Ferreira Briard afirma que apenas 108 mil metros cúbicos de água tratada são despejadas por dia no meio ambiente. Este volume é utilizado, segundo Briard, dentro da própria Estação de Tratamento do Guandu, na lavagem dos 132 filtros e dos dacantadores.
- Pela legislação, estes filtros têm de ser lavados com água tratada, que depois retorna ao corpo hídrico do Guandu-Mirim - diz Briard.
Ele informa que até 2005 todos os resíduos da Estação do Guandu serão reaproveitados, graças a um convênio assinado mês passado entre a Cedae e a Fundação José Pelúcio Ferreira, da UFRJ. De janeiro a abril do ano que vem, será elaborado um projeto para a utilização de uma engenharia de reaproveitamento dos resíduos. Segundo Briard, a água tratada residual voltará ao início do processo de tratamento, enquanto os resíduos sólidos serão destinados à produção de artigos em cerâmica, como tijolos e telhas. A experiência já foi feita na época do Projeto Rejeito Zero, da UFRJ.
- Eles queriam construir uma fábrica de cerâmica, o que é muito caro. Focamos nossos objetos na recuperação da água e na conservação do meio ambiente. A produção de tijolos seria um plus - explica Briard.
Sérgio Ricardo denuncia ainda a perda de algo entre 20% a 30% da água tratada durante a distribuição pela cidade. Briard fornece números ainda mais assustadores: segundo ele, são perdidos cerca de 37% da água tratada, entre vazamentos e ligações clandestinas.
Baseado em estudos realizados por técnicos da UFRJ, Sérgio Ricardo afirma que 80% dos floculantes ou coagulantes podem ser recuperados por processo químico para o uso na própria estação.
Briard observa, entretanto, que os gastos com a recuperação destes produtos seriam maiores do que com a compra de novos. O gasto mensal da Cedae com a compra de produtos químicos é de cerca de R$ 3,5 milhões, sendo que 85% deste volume são usados na Estação do Guandu.
- Os recursos usados na compra de produtos químicos poderiam ser aplicados na recuperação ambiental do Guandu, que desde 1997 vive uma situação vulnerável - completa o ambientalista.
Dragagem não salva as bacias
Professor de Engenharia Sanitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Adacto Ottoni defende o investimento na recuperação ambiental das bacias dos rios Paraíba do Sul e Guandu. Para o especialista, a realização de dragagens não resolve o problema nas bacias dos dois rios.
- Em três meses, para quando se esperam as chuvas fortes, vamos ter sérios problemas. Se não há a recuperação do solo, quando chove forte ocorrem enchentes e, na época da estiagem, temos problemas com a falta d'água - explica Ottoni.
Diretor da Cedae, Jorge Briard informa que, pelo Projeto Muda Guandu, a companhia está recuperando 50 quilômetros das margens do rio com o reflorestamento planejado.
JB, 28/12/2003, Cidade, p. A19
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