CB, Cidades, p. 30
21 de Jul de 2009
Abandono ameaça boa ideia
Raphael Veleda
Depósitos de entulho, vegetação devastada, moradores de rua e um labirinto de caminhos desconexos, quase intransitáveis. Todos esses elementos fazem parte da paisagem de um parque criado há quase 20 anos para garantir que haja um cinturão verde ao redor do Plano Piloto. As únicas indicações de que o espaço é uma área preservada, porém, são antigas placas em suas seis entradas oficiais e uma cerca, que, em vários pontos, não protege nada, por estar sem tela.
As placas de identificação do Parque Ecológico Burle Marx, criado pelo Decreto no12.249, lembram que a Lei Federal no 4.771/65 prevê severas punições para quem não respeita o meio ambiente. Elas próprias, porém, não são respeitadas. Servem mais como suporte para a prática de tiro ao alvo, dada a quantidade de buracos de bala.
A sensação de insegurança que esses buracos trazem é reforçada pelos diversos acampamentos improvisados que a área de quase 300 hectares (tamanho correspondente a 300 campos de futebol) esconde em clareiras abertas no meio do mato. Em uma delas, que funcionava como boca de fumo, um morador da Asa Norte de 25 anos foi torturado e executado em 10 de julho do ano passado. O corpo foi encontrado apenas 25 dias depois, em uma área de cerrado próxima, no Setor Militar Urbano. O inquérito policial apontou uma dívida de R$ 1,1 mil, contraída na compra de crack, como causa do homicídio. Desde a ocorrência, a vida dos traficantes foi dificultada graças às constantes rondas policiais na área.
Andando pelos sinuosos caminhos que cortam o local há décadas - em 1997, por exemplo, o GDF derrubou 70 barracos -, ainda é possível encontrar pessoas circulando com atitude suspeita. Gente avessa ao contato, sobretudo com uma equipe de reportagem. O que não é o caso, no entanto, de outros visitantes do parque: os catadores.
Moradores ocasionais
Na última segunda-feira, por volta do meio-dia, o Correio encontrou José Batista Assis, 48 anos, mas cara de bem mais idade, em função da vida difícil. Sob o sol quente, ele puxava com as mãos o carrinho que usa para juntar papel - sua única renda. "Eu tinha uma carroça, mas o governo proibiu. Hoje, deixo meu cavalo em casa. Ele está bem cuidado; passo nos restaurantes e sempre levo coisas para ele", conta, amistosamente.
A casa de José fica em um endereço que, brevemente, será nobre. Só que ele não estará mais lá. "Moro na área do Noroeste, bem perto dos índios. Tem 20 anos já", relata. Nos últimos oito, viveu sozinho. "Eu tinha uma mulher, mas nos desentendemos e ela foi embora", conta, revelando certa mágoa. "Perto de mim tem mais gente que vive. É uma pequena comunidade e lá não tem bandido como aparece aqui de vez em quando", garante. "A maioria bebe cachaça, mas eles não fazem mal a ninguém", completa, antes de continuar buscando seu sustento.
Apesar das mazelas, ainda há gente que vê beleza e utilidade no espaço que, segundo o próprio governo, "não é visitado pela população, nem conta com qualquer infraestrutura para atendimento ao público", como está escrito em documento no site do Instituto Brasília Ambiental.
O técnico em manutenção da Caesb Franco Guaritá, 40, pedala nas trilhas do parque há um ano. "Gosto de lugares sossegados e aqui só tem mato e entulho", destaca ele, que deu dicas de caminhos para a reportagem circular de carro. "Só o que vejo de diferente por aqui são caminhões, de vez em quando, e gente do exército correndo, se exercitando", narra ele, demonstrando grande simpatia pela área, que mantém muito pouco do cerrado original.
Um olhar mais atento em algumas partes do parque revela a luta da natureza para vencer a devastação. Plantas do cerrado convivem com a vegetação exótica formada por espécies como mangueiras e pés de mamona, mas conseguem se reproduzir. A beleza dos exemplares vegetais do Planalto Central aparece em cores vivas de flores, no retorcido das árvores e na fauna remanescente.
O governo pretende lançar em setembro a pedra fundamental do parque. O projeto urbanístico que serve de base para a área foi elaborado pelo escritório do arquiteto Jaime Lerner e é composto por um eixo central que leva a espaços como a Praça Viva o Povo Brasileiro, a Praça das Sombras, o Jardim Burle Marx, um museu interativo chamado de Planetário Indígena e o Museu Vivo do Cerrado. O parque será construído com as obras do Noroeste.
Quem é
Arquiteto e urbanista, Jaime Lerner foi três vezes prefeito da capital paranaense, Curitiba, onde liderou a revolução que fez da cidade referência nacional e internacional em planejamento urbano, principalmente em transportes, meio ambiente, programas sociais e projetos urbanísticos. Entre as duas primeiras gestões na prefeitura, Lerner assumiu, em 1975, o cargo de consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), para Assuntos Urbanos. Também foi governador do Paraná por duas gestões: 1995-1998 e 1999-2002). Realizou transformações que mudaram o perfil do estado, com a política de industrialização, de modernização da infraestrutura, de capacitação e de melhoria da qualidade de vida nas cidades
e no campo.
CB, 21/07/2009, Cidades, p. 30
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