CB, Brasil, p. 10
12 de Jan de 2007
90 mil pessoas sem água no Rio
Vazamento de dois bilhões de litros de lama da barragem de rejeitos de mineradora no interior mineiro atinge quatro municípios fluminenses. Governo cria força-tarefa
Cristiana Andrade
Do Estado de Minas
A lama que vazou com o rompimento da barragem de rejeitos da empresa Rio Pomba Mineração, em Miraí, na Zona da Mata de Minas Gerais, a 316km de Belo Horizonte, chegou ontem à tarde à região nordeste do estado do Rio de Janeiro. O acidente aconteceu na madrugada de quarta-feira e o volume de lama, calculado em 2 bilhões de litros, conteúdo suficiente para ocupar uma área de 30 campos de futebol, com 10m de profundidade cada um, desceu pelo Rio Muriaé e chegou às cidades de Laje do Muriaé, São Sebastião do Ubá e Itaperuna, todas no estado do Rio. De acordo com a Companhia de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro (Cedae), cerca de 90 mil pessoas desses municípios tiveram o fornecimento de água interrompido. A captação de água do rio para abastecer as cidades fluminenses foi suspensa, e o governo de Minas, por meio da Copasa, já enviou 38 caminhões-pipa para a região e 140 mil copos de água potável, que serão distribuídos pela Defesa Civil local.
O Ministério Público de Minas Gerais instituiu ontem uma comissão de promotores de Justiça para, juntamente com promotores do Rio de Janeiro, apurar as causas do rompimento da barragem da mineradora Rio Pomba Cataguases e as possíveis medidas emergenciais a serem adotadas. O governador de Minas em exercício, Antônio Augusto Anastasia, reuniu-se com membros da força-tarefa de apoio emergencial ao município de Miraí, na Zona da Mata, formada pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), Coordenadoria de Defesa Civil (Cedec), Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Copasa, Servas e Departamento de Estradas de Rodagem (DER/MG), para definir ações de emergência em Miraí. A força-tarefa exigiu da empresa solução imediata para evitar que novas chuvas provoquem o deslizamento do restante da lama da barragem. Na reunião foi definido que pelo menos seis casas serão demolidas, pois apresentam risco de desabamento.
A população teme que, se chover nos próximos dias, os 40% de lama ainda existentes na barragem escoem para o curso d'água e causem mais transtornos. Como as cidades fluminenses, a Zona da Mata mineira vem sofrendo com as chuvas há pelo menos 12 dias. Segundo o presidente da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), Ilmar Santos Bastos, que está na região, a Rio Pomba tentou fazer diques na noite de quarta-feira para conter o restante da lama, mas não deu certo. "Houve uma tromba d'água à noite e os diques não funcionaram. Estamos estudando uma possibilidade de fazer um desvio temporário no Rio Fubá, para que ele não passe pela barragem."
A lama que foi carreada pelo Rio Muriaé não é tóxica. No processo de beneficiamento da bauxita, mineral explorado pela Rio Pomba Mineração em Miraí, a empresa separa a parte do barro que contém alumina (mineral que dá origem ao alumínio) e o que sobra, o rejeito da lavagem desse minério, é uma mistura de água e sólido, como a areia. "No beneficiamento da bauxita, não há transformação química nenhuma, só física. O rejeito não tem contaminante químico. A população não precisa se alarmar", esclarece a diretora de Licenciamento de Atividades Industriais e Minerárias da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), Zuleika Torquetti.
Monitoramento
De acordo com o assessor da Diretoria de Operação Leste da Copasa, Frank Deschamp Lamas, mais de 100 técnicos da empresa estão acompanhando a questão de perto. "Estamos reunidos quase que diariamente com equipes da Cedae para minimizar todos os problemas para a comunidade", afirma. No Rio de Janeiro, o presidente da Cedae, Wagner Victer, disse que a equipe técnica da companhia constatou que o nível de turbidez da água do Muriaé, um dos afluentes do Paraíba do Sul, estava, ontem, 200 vezes acima do normal.
Este é o terceiro acidente grave com rompimento de barragens de rejeitos na Zona da Mata. No início de 2003, foram despejados mais de um 1 bilhão de litros de rejeitos tóxicos nos rios Pomba e Paraíba do Sul, pela empresa Cataguazes Indústria de Papel. Em março de 2006, aconteceu o primeiro rompimento da barragem da Rio Pomba Mineradora, culminando com o vazamento da lama da lavagem de bauxita nos rios Fubá e Muriaé.
"O índice da turbidez indica que haverá uma grande mortandade de peixes nos rios Muriaé e possivelmente no Paraíba do Sul", afirmou Victer. Os municípios de São José de Ubá, Italva, Cardoso Moreira e Campos de Goytacazes, todos no estado fluminense, podem ser afetados. "O aumento do volume das águas nessas regiões, provocado pelas chuvas intensas dos últimos dias, pode diluir a lama mais rapidamente. Acho pouco provável que o rejeito, de coloração avermelhada, vá chegar até Campos e até o Paraíba do Sul", diz o diretor-geral do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Paulo Teodoro de Carvalho.
CB, 12/01/2007, Brasil, p. 10
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