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60 por cento das aldeias da Amazônia estão a mais de 200 km de um leito de UTI

Mongabay - https://brasil.mongabay.com
Autor: Liz Kimbrough | Traduzido por Eloise de Vylder
02 de jun de 2020

ONG mapeia as distâncias que separam as aldeias indígenas da Amazônia Legal de um leito de UTI.

Um terço das 3.141 aldeias analisadas está a mais de 400 quilômetros das unidades de cuidados intensivos.

Um exemplo é o do povo Yanomami da aldeia Maturacá, que precisaria viajar 3 horas de avião até uma unidade de saúde dotada de respirador.

Há menos de 5 mil respiradores em toda a Amazônia Legal, e mais de metade dos municípios não tem nenhum.

A pandemia do novo coronavírus representa uma ameaça especialmente sorrateira para as aldeias remotas na Amazônia, onde o leito de UTI mais próximo fica, em média, a 315 quilômetros de distância. Para algumas comunidades, a distância pode ser mais de três vezes maior. E, mesmo assim, a maioria dos municípios amazônicos não tem respiradores.

Nessas regiões, é essencial manter aldeias inteiras isoladas da presença de pessoas de fora, mas a invasão de madeireiros ilegais, garimpeiros e grileiros, bem como o trânsito de viajantes entre as aldeias e as cidades, representa uma ameaça iminente.

Segundo o Instituto Socioambiental, até o final de maio já haviam sido confirmados 1312 casos de covid-19 entre indígenas no Brasil.

A ONG InfoAmazonia gerou uma série de gráficos que ilustram a distância das aldeias até as UTIs e o número de respiradores na Amazônia Legal. Os dados foram obtidos no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde do Ministério da Saúde e no Sistema de Cadastro de Aldeias (SisAldeia), da Funai. Segundo a InfoAmazonia, este é um projeto de mapeamento colaborativo e não inclui todas as aldeias amazônicas.

Mais da metade (58,9%) das 3.141 aldeias analisadas está localizada a mais de 200 quilômetros de um leito de UTI, e 10% destas estão entre 700 e 1.079 quilômetros de distância.

A assistência à saúde indígena é fornecida em unidades básicas dentro dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), mas o sistema só cobre casos de baixa complexidade, de modo que respiradores e leitos de UTI devem ser compartilhados com a população em geral, servida pelo SUS.

Alguns indígenas, como os Yanomami da aldeia Maturacá, em Roraima, precisariam viajar 3 horas de avião até uma unidade básica dotada de respirador. Não existem conexões por terra nem por rio entre a aldeia e Boa Vista, a capital mais próxima. Nas comunidades mais distantes do Alto Rio Negro, no Amazonas, a viagem pelo rio pode levar mais de uma semana.

Para as pessoas nessas áreas, a distância não é o único desafio. Cidades como Manaus têm enfrentado superlotação dos hospitais, e o risco de uma longa espera por um leito de UTI ou mesmo de falta de leitos é uma possibilidade real.

Concentração de respiradores
"Casos graves da covid-19 também significam falta de ar para o paciente e, portanto, a imediata necessidade de um respirador, para ajudar o ar a circular pelo pulmões. Os dados também revelam que esse é um dos grandes gargalos do acesso à saúde indígena na Amazônia", publicou a InfoAmazonia num artigo sobre a análise dos dados.

Apenas 4.760 ventiladores pulmonares estão disponíveis pelo SUS nos nove estados da Amazônia Legal. Em março de 2020, quase 8% não funcionavam, segundo dados do Ministério da Saúde.

Mais de metade dos municípios da Amazônia (66,5%) não tem nenhum respirador. Esses municípios somam mais de 8 milhões de habitantes, incluindo 203 mil indígenas, de acordo com dados de 2020 do IBGE.

Imagem do banner: Matsi Waura Txucarramãe, do povo Kayapó, na aldeia Piaraçu (MT). Foto: André Oliveira Cebola/InfoAmazonia.

Liz Kimbrough é redatora da Mongabay. Encontre-a no Twitter @lizkimbrough_

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