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50 anos de hesitação com o clima

Valor Econômico, Opinião, p. 13
Autor: RAHMSTORF, Stefan
16 de Nov de 2015

50 anos de hesitação com o clima

Stefan Rahmstorf

Em novembro de 1965, foi apresentado ao presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, o primeiro relatório governamental de todos os tempos que advertia para os perigos que a queima de grandes volumes de combustíveis fósseis poderia acarretar. Cinquenta anos é muito tempo na política, portanto é notável o pouco que se fez desde aquela época para enfrentar a ameaça que é mantermos tudo como dantes.
Numa linguagem extraordinariamente presciente, a comissão de assessoria científica de Johnson avisou que a liberação de dióxido de carbono na atmosfera levaria ao aumento das temperaturas do planeta, acarretando o derretimento das calotas glaciais e o aumento acelerado do nível do mar. "O homem está realizando involuntariamente um grande experimento geofísico", alertaram os cientistas. "Dentro de algumas gerações ele estará queimando os combustíveis fósseis acumulados lentamente na Terra nos últimos 500 milhões de anos... As mudanças climáticas passíveis de serem geradas pelo aumento do teor de CO2 poderão ser deletérias do ponto de vista dos seres humanos".
A presciência da comissão não surpreende; a existência do efeito-estufa era conhecida pela ciência desde que o físico francês Joseph Fourier sugeriu, em 1824, que a atmosfera da Terra agia como um fator isolante, ao aprisionar o calor que, de outra forma, se dissiparia. E em 1859 o físico irlandês John Tyndall fez experimentos de laboratório que demonstraram o poder de aquecimento do CO2, o que levou o físico sueco Svante Arrhenius, laureado com o Prêmio Nobel, a prever que a combustão do carvão aqueceria a Terra - coisa que ele encarou como um desdobramento potencialmente positivo.
Os assessores de Lyndon Johnson, por seu lado, não foram tão "poliânicos". Seu relatório previu, com precisão, que o volume de CO2 presente na atmosfera aumentaria quase 25% no decorrer do século XX (o percentual real foi 26%). Atualmente, a concentração de CO2 na atmosfera é 40% superior ao que era no início da Revolução Industrial - e revela-se, de longe, a mais elevada dos últimos 1 milhão de anos, como sabemos através de prospecções no gelo antártico.
Além disso, a comissão científica de Johnson refutou objeções que continuam a ser usadas hoje pelos que negam os perigos da mudança climática, como a afirmação de que os processos naturais podem ser os responsáveis pelo aumento dos níveis de CO2. Ao demonstrar que apenas cerca de metade do CO2 produzido pela queima de combustíveis fósseis permanece na atmosfera, a comissão provou que a Terra age não como fonte de gases-estufa, e sim como uma pia, que suga metade das nossas emissões.
O que os assessores de Johnson não puderam fazer foi fornecer previsões específicas sobre a extensão pela qual o aumento do CO2 na atmosfera afetaria a temperatura do planeta; eles disseram que precisariam, antes de mais nada, de modelos melhores e de computadores mais potentes. Esses cálculos constituíram a base do relatório seguinte, referencial, de 1979, "Dióxido de Carbono e Clima: uma Avaliação Científica", elaborado pela Academia Nacional de Ciências dos EUA. Conhecido em amplos círculos como o Relatório Charney - inspirado no nome de seu principal autor, Jule Charney, do MIT -, o documento é um exemplo de cuidadosa ponderação científica.
O relatório de Charney estimava que a duplicação da quantidade de CO2 na atmosfera aqueceria a Terra em cerca de 3o Celsius - número confirmado atualmente. Previa também que a capacidade dos oceanos de absorver o calor retardaria o aquecimento em várias décadas. Ambas as descobertas são compatíveis com o aquecimento global observado desde a publicação do relatório. "Nós tentamos, mas não conseguimos, encontrar quaisquer efeitos físicos negligenciados ou subestimados capazes de reduzir o aquecimento global atualmente estimado... a proporções desprezíveis", concluía o relatório.
Desde então as evidências científicas só se fortaleceram; atualmente as descobertas básicas expostas nesses dois relatórios são corroboradas por mais de 97% de cientistas do clima.
Mesmo assim, apesar de 50 anos de crescente consenso científico, o aquecimento da Terra se mantém intacto.
Grupos de lobby bem financiados semearam dúvidas na opinião pública e minimizaram com sucesso a premência da ameaça. Por outro lado, a geopolítica obstruiu o desenvolvimento de uma resposta mundial eficaz. As negociações climáticas internacionais, que deverão culminar em um acordo na Conferência de Mudança Climática da ONU a realizar-se neste mês e em dezembro em Paris, foram atravancadas pela exigência de consenso entre os 195 países participantes.
Se nada for feito, bilhões de pessoas sofrerão as consequências da seca, das quebras de safra e de eventos climáticos extremos. Os crescentes níveis do mar acabarão inundando grandes cidades litorâneas e destruindo países insulares inteiros. Os anos mais quentes desde o começo da série histórica, iniciada no século XIX, foram 2005, 2010 e 2014, e o recorde do ano passado quase certamente voltará a ser quebrado neste ano.
É chegada a hora de os dirigentes mundiais porem fim a 50 anos de hesitação. Eles precisam aproveitar a oportunidade em Paris, deixar de lado seus interesses de curto prazo e finalmente agir decisivamente para evitar a catástrofe planetária que se aproxima. (Tradução de Rachel Warszawski)

Stefan Rahmstorf é professor de física dos oceanos da Universidade de Potsdam, professor-visitante livre-docente da Universidade de Nova Gales do Sul em Sidney e diretor de departamento do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam.
Copyright: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org

Valor Econômico, 16/11/2015, Opinião, p. A13

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