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40 anos depois de Serra Pelada, garimpo é fonte de conflito e devastação

FSP, Ilustrada, p. 1-8
Autor: SERVA, Leão; SALGADO, Sebastião
07 de jul de 2019

40 anos depois de Serra Pelada, garimpo é fonte de conflito e devastação

Leão Serva

SÃO PAULO Tudo aconteceu há 40 anos. Uma criança encontrou uma pedrinha dourada na beira de um riacho, em uma fazenda no interior do Pará. O pai levou o achado ao dono da terra, que enviou a pedra à cidade de Marabá para ver se o que reluzia era mesmo ouro.

Garimpeiros dizem que nada é mais rápido do que fofoca de ouro. Era o final de 1979. Junto com a confirmação da pepita descoberta à flor da terra, na região de Carajás, já chegaram de Marabá alguns garimpeiros. Em poucos dias, muitos outros.

O dono da terra tentou controlar o processo atribuindo a alguns homens a exclusividade da exploração e cobrando 10% do ouro extraído. Mas, em dias, eram milhares de garimpeiros, em meses, dezenas de milhares, e, em um ano, pelo menos 50 mil.

Por dez anos, Serra Pelada foi a maior mina a céu aberto do mundo. Quando a febre terminou, em 1990, houve migração de homens para Roraima, na terra yanomami. Lá, hoje, a mineração ilegal é foco de instabilidade e devastação e reúne cerca de 20 mil garimpeiros, segundo lideranças indígenas.

Duas semanas atrás, um soldado perdeu parte da mão em um confronto com garimpeiros. A Funai anuncia a abertura de postos fixos de vigilância na próxima quinzena. Garimpo e devastação andam juntos: o surgimento de Serra Pelada coincidiu com a intensificação do desmatamento no Pará, que desde os anos 1980 perdeu uma área de floresta equivalente ao estado do Ceará.

Desde o começo, os pioneiros do ouro de Carajás dividiram entre si a área sobre uma colina de 150 metros e a desmataram para cavar. Cada lote tinha 2 x 3 metros. Surgiu assim o nome que se tornaria conhecido em todo o planeta: Serra Pelada.

Ao longo dos anos, a colina foi dando lugar a um buraco com 200 m de profundidade e 200 m de diâmetro.

Levantamentos do governo no início dos anos 1970 já apontavam aquela como uma região mineral rica. Tudo estava reservado para a então estatal Companhia Vale do Rio Doce. Quando a empresa quis retomar o controle, percebeu que seria impossível fazê-lo sem o uso de forças de segurança.

O governo do general João Figueiredo (1979-1985) enviou então ao local, como interventor, o major Curió, apelido de Sebastião Rodrigues de Moura, que tinha participado da repressão à Guerrilha do Araguaia.

O militar chegou no início de 1980. Prometeu aos garimpeiros que a Vale não os expulsaria e extinguiu o dízimo cobrado pelo fazendeiro. Virou herói. Em contrapartida, delimitou uma grande área em torno da mina em que proibiu o porte de armas, a presença de mulheres e o consumo de álcool. Também obrigou que todo o ouro fosse vendido ao posto local da Caixa Econômica, que pagava à vista, mas abaixo do preço de mercado.

A repressão no centro de garimpo fez surgir a 30 quilômetros de distância a Vila Trinta, às margens da rodovia PA-175. O que Curió proibia na mina era livre ali.

"De dia é 30, de noite é 38", era a referência aos constantes tiroteios na vila. Bebidas e prostituição seguiam preços praticados em boates de luxo no Rio e em São Paulo. Em meados de 1980, Curió decidiu organizar a Vila Trinta também, assumindo a função de "prefeito".

O governo militar fez passar no Congresso uma indenização de cerca de US$ 55 milhões para a Vale do Rio Doce, que estava pressionada por acionistas minoritários. Com isso, os direitos de mineração ficaram com a cooperativa dos garimpeiros.

Em dez anos, uma quantidade impressionante de ouro saiu da mina -os cálculos chegam a mais de 100 toneladas, sem contar o contrabando. O Brasil, que fora o maior produtor do metal entre 1750 e 1850, voltou ao ranking graças à Serra Pelada.

Na segunda metade dos anos 1980, porém, a produtividade começou a cair. Em 1989, foram só 13 quilos, insuficientes para sustentar milhares de homens e manter equipamentos, como bombas que drenavam água no fundo da cratera.

Em 1992, o então presidente Fernando Collor decidiu cancelar a concessão aos garimpeiros e fechar o local. Serra Pelada virou o alvo de disputas judiciais entre garimpeiros e mineradoras.

Com as bombas desligadas, o lençol freático inundou o buraco, formando um reservatório com mais de 600 mil metros cúbicos de água, algo como 250 piscinas olímpicas.

Devido à poluição por mercúrio, no entanto, o lago não pode ser aproveitado nem para a criação de peixes.

Sebastião Salgado fotografou Serra Pelada em 1986, ao iniciar a documentação sobre o fim do trabalho manual, no seu projeto "Trabalhadores". As imagens que captou, publicadas na Europa no final daquele ano, causaram grande repercussão. Cerca de 30 fotos foram editadas, e os demais negativos, arquivados.

Agora, aos 40 anos da descoberta do ouro, Salgado e a mulher, a curadora Lélia Wanick, reeditaram os originais. A nova seleção será exposta a partir de 17 de julho no Sesc Paulista, em São Paulo, onde também vai ser lançado o livro "Gold", impresso em diferentes línguas para distribuição mundial pela editora Taschen.

(Veja a reportagem completa no PDF)

FSP, 07/07/2019, Ilustrada, p. 1-8

https://arte.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/sebastiao-salgado/serra-pe…

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