OESP, Metrópole, p. C4
06 de Dez de 2009
364 mil t de areia e lixo ''encolhem'' Tietê
Levantamento inédito mostra como 70 grandes rios, córregos e galerias contribuem para assoreamento do rio
Eduardo Reina e Vitor Hugo Brandalise
Os 70 grandes rios, córregos e galerias que deságuam no Rio Tietê, junto com as 569 galerias pluviais e de drenagem, contêm juntos pelo menos 364,7 mil toneladas de areia e lixo acumulados nos leitos, que contribuem para o incessante assoreamento do principal rio que cruza a Região Metropolitana de São Paulo. E essa quantidade de detritos está apenas nas áreas próximas dos pontos de contato.
Esse levantamento, inédito, é do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), órgão gestor dos recursos hídricos do Estado de São Paulo, cujos técnicos percorreram todos os pontos de água que chegam a 24,5 km do Tietê na capital, desde a Barragem da Penha até o Cebolão, na região de Osasco. O maior problema é encontrado no Rio Tamanduateí. Há muita sujeira também nos Córregos Guaió, Jacu e Baquirivu. É uma quantidade enorme de material que está obstruindo rios e galerias. Para se ter uma ideia desse volume, se as 364,7 mil toneladas fossem colocadas em caminhões caçambas simples, de 8 metros de comprimento, enfileirados em linha reta, ultrapassariam a cidade de Queluz, na divisa com o Rio, a 235 km da capital, e continuariam por mais 7 km.
Inevitavelmente, quase toda essa sujeira e essa areia vão parar no Tietê, provocando enchentes e inundações. De acordo com o superintendente do Daee, Ubirajara Tannuri Felix, metade dessas 364,7 mil toneladas é de areia e o restante da chamada poluição difusa, que inclui desde garrafas plásticas jogadas no chão até bitucas de cigarro e lixo mais volumoso das ruas. "Vamos apresentar esse estudo para as prefeituras da Região Metropolitana neste mês. Precisamos de um trabalho conjunto para limpar rios e córregos. Trata-se da segunda etapa do Plano Diretor de Macrodrenagem do Alto Tietê, que completou dez anos em 2008", diz a secretária de Energia e Saneamento, Dilma Pena.
AÇÃO INTEGRADA
Para o geólogo José Eduardo Zaine, professor do Departamento de Geologia Aplicada da Unesp de Rio Claro, o desassoreamento, como medida isolada, não surtirá efeito. "Acredito ser fundamental não só uma ação integrada entre prefeituras, mas uma gestão integrada do problema por microbacias ou sub-bacias desde a foz com o Tietê até as cabeceiras dos pequenos córregos, não só nas áreas marginais. Seria um conjunto de medidas, desde ações mais simples - como programas com a comunidade, legislação e fiscalização mais rigorosa - até medidas complexas e caras - como obras ou intervenções nos canais -, mas tudo em conjunto. Um exemplo dessas medidas localizadas é o reúso de água de chuva em grandes telhados num primeiro momento e até em residências."
A sujeira compromete o curso normal dos rios. Na enchente de 8 de setembro, na Ponte da Casa Verde, o Tietê registrou vazão de 735 m³/s, enquanto deveria ser de 1.044 m³/s, o que demonstra assoreamento. Anualmente, o Estado gasta cerca de R$ 27,2 milhões para retirar 400 mil m³ de sedimentos somente do Tietê, num trecho de 40 km. São quatro contratos que determinam retirada de 32 mil m³ por mês, para evitar enchentes.
A face oculta das enchentes do Tietê e afluentes se torna pior se levados em conta os córregos que deságuam nesses afluentes, elevando ainda mais o volume da sujeira. Não há medição sobre eles. De acordo com a Prefeitura, a capital abriga três grande rios e 281 córregos, em 1.216 km. A alegação é de que cerca de 500 km desses corpos d"água já estão canalizados - 450 km fechados e 50 abertos. Até outubro, foram retirados 107,37 mil m³ de sujeira, com limpeza manual e mecanizada.
Segundo especialistas, a principal causa desse assoreamento é a ocupação irregular de beiras de rios e córregos. Essa ocupação elimina a vegetação que protege a água, provoca erosão e sedimentação e entulha bacias. Cabe às prefeituras a fiscalização sobre a ocupação irregular dessas beiras de rios e o trabalho de desocupação, assim como a remoção, limpeza e manutenção dos córregos, além de cuidados com o sistema de microdrenagem (bocas de lobo, ramais e galerias).
JULHO
A Prefeitura de São Paulo informou que a primeira fase do Programa Córrego Limpo, concluída em março, atuou em 42 ribeirões e entregou 28 despoluídos, além de outros 14 com os principais trechos recuperados. A segunda fase do programa contempla outros 58 córregos, com estimativa de conclusão para julho de 2010.
Guaió é estrangulado pelo esgoto e pela ocupação ilegal
Corpo d'água que vai de Mauá a Ferraz de Vasconcelos começa potável e termina completamente poluído
Já não se sabe se é rio, córrego ou filete de água. Entre os 70 corpos d"água assoreados da Região Metropolitana de São Paulo, o Rio Guaió, que se estende por 20 quilômetros a partir de Mauá e deságua no Tietê em Ferraz de Vasconcelos, é caso emblemático. Dos 10 metros que tinha de largura, hoje não sobram nem dois. A profundidade, que antigamente variava entre 1,5 e 2 metros, já não ultrapassa os 30 centímetros nos piores pontos. O resultado são enchentes mesmo em ruas distantes do leito do rio.
Por causa do assoreamento, segundo diagnóstico do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, há hoje 34 pontos de inundação ao longo do Guaió - um a cada 600 metros, em regiões urbanizadas das cidades de Poá, Suzano e Ferraz. "Nos últimos anos, as ruas do bairro têm alagado mais. E pior é que faz mal para a saúde. As crianças saem da escola, passam pela rua onde o rio transbordou e acabam cheias de micose", afirma a auxiliar de enfermagem Rosemari Claudino, de 32 anos, natural de Suzano, moradora das margens do Guaió, em área regularizada. "Vi esse rio diminuir, ser canalizado e poluído. E cada vez inundar mais."
Do outro lado do leito, já em Poá, a baixa capacidade de vazão leva problemas a moradores e comerciantes de áreas distantes quase um quilômetro do rio. A Avenida Getúlio Vargas, a cinco quarteirões do leito, alaga a cada chuva forte.
O perfil do Guaió - rio assoreado que cruza áreas intensamente urbanizadas, com ocupação irregular das margens -, segundo especialistas, é padrão na Grande São Paulo. "Fruto de obras mal feitas e ocupações irregulares, que estrangularam o rio. Com esgoto e lixo no leito e falta de limpeza nas margens, o rio se estreita e a capacidade de vazão diminui cada vez mais", diz José Arraes, do comitê.
Mas a história do rio não começa mal. A nascente é limpa, bem cuidada, protegida dentro de área particular em Mauá. Fornece água potável às quatro casas da chácara da UniABC e à família de José Carlos Sobrinho, que cuida do local. "É água limpa, que vem do meio do mato e chega gelada às nossas torneiras", conta. Menos de 200 metros depois, logo ao entrar em área pública, porém, o Guaió encontra o que será seu destino ao longo dos 20 próximos quilômetros: assoreamento.
O esgoto começa a ser jogado no Guaió perto dali, na Favela Vila Real, onde moram 12 mil pessoas cujos dejetos vão diretamente para o rio. Segundo o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), as casas são quase todas irregulares. As prefeituras de Suzano e Poá não preveem obras para desafogar o leito. Em nota, a prefeitura de Suzano informou que "com exceção dos Jardins Suzanópolis e Monte Cristo não há ocupações na várzea do Guaió". Segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Poá, a prefeitura conseguiu somente neste ano, do Daee, uma outorga para a limpeza do rio.
OESP, 06/12/2009, Metrópole, p. C4
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