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250 mil caminhões de terra sufocam rio

OESP, Metrópole, p. C3
21 de Set de 2009

250 mil caminhões de terra sufocam rio
Adensamento das regiões próximas às cabeceiras e margens preocupa

Bruno Paes Manso

Entre as 1.600 favelas da capital, 600 estão perto de leitos d"água ou de encostas. Dos 870 loteamentos de baixa renda na cidade, 217 estão na beira de córregos ou em avenidas de fundo de vale, próximas aos rios. Se o alargamento do calha do Tietê e a construção dos piscinões aparecem como soluções consensuais antienchentes, o adensamento das regiões próximas às cabeceiras e beiras de rios ameaça pôr tudo a perder.

A expansão permanente da mancha urbana da Grande São Paulo, cuja área em 1960 era de 874 km², chegando a 2,2 mil km² nos dias de hoje, contribui para aumentar a impermeabilização do solo e o assoreamento dos rios. Além de ameaçar a vida dos moradores das encostas - só na capital, existem 562 pontos de risco. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor da Divisão de Geologia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), calcula que a terraplenagem e a erosão nas periferias são responsáveis por despejar anualmente mais de 3 milhões de m³ de terra nos rios da Grande São Paulo, o que corresponde a 250 mil caminhões. O destino final é o Tietê. "Barrar a expansão da mancha urbana deveria ser o foco principal de um plano de combate a enchentes."

O superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), Ubirajara Tannuri Felix, não confirma os dados sobre o volume de detritos despejados na Bacia. Mas afirma que, no ano passado, foram retirados 400 mil m³ de detritos do Tietê, mais de 30 mil caminhões, trabalho que custou R$ 27 milhões ao Estado. "Acredito que a solução hidráulica está bem encaminhada. O principal esforço agora é para proteger as regiões da nascente do rio, que ainda não foram ocupadas", diz.

Para evitar que o Rio Tietê não inunde a região mais adensada da cidade, entre Guarulhos e Osasco, a vazão do Tietê não pode estar acima de 500 m³ por segundo quando chega à Barragem da Penha, em Guarulhos. É o que pode ocorrer caso as matas de Suzano, Poá, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim, Itaquaquecetuba e Salesópolis sejam ocupadas e impermeabilizadas.

O governo de São Paulo promete investir R$ 1,7 bilhão no maior parque linear do mundo, com 75 km de extensão, área de 107 km² e uma ciclovia de 230 km, com a finalidade de proteger a várzea do Tietê entre Guarulhos e Salesópolis, para evitar a ocupação da região. "Caso contrário, só vão restar piscinões como alternativa para conter a chegada das águas dos afluentes do Tietê", alerta o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, do Instituto de Engenharia.

Se a criação do parque agrada a ambientalistas, muitos acreditam que a medida não é suficiente. "Existe uma ampla região vulnerável além da várzea e que não está sendo contemplada. Um cinturão verde deveria ser criado nessa região com medidas ousadas para proteger as florestas, como pagamento a proprietários que preservarem seus terrenos", sugere Maria Luísa Ribeiro, coordenadora de Recursos Hídricos do SOS Mata Atlântica.

Discussão sobre a nova Marginal ficou fora de lugar

Como solução para melhorar o transporte público, a expansão da Marginal do Tietê é uma medida polêmica. Mas existe um consenso entre especialistas de que o debate sobre as obras como causa das enchentes foi despropositado. A área permeável do canteiro central que dará lugar às novas pistas é de 18,9 hectares, 0,06% da bacia do rio. "Mas podemos discutir os aspectos ambientais. Afinal, sonhávamos em usar um dia o Tietê para navegação e recreação", diz Maria Luísa Ribeiro, do SOS Mata Atlântica, que na terça comemora o Dia do Tietê criando uma "praia" nas margens do rio, entre as Pontes das Bandeiras e Cruzeiro do Sul.

OESP, 20/09/2009, Metrópole, p. C3

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