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2,2 mil pessoas têm de deixar casas

OESP, Metrópole, p. C7
01 de Mar de 2008

2,2 mil pessoas têm de deixar casas
Se mudar para um apartamento da CDHU, moradora não sabe o que fazer com cavalos, cachorros e galo

Vitor Hugo Brandalise

Maria da Penha está preocupada. Moradora da área onde ficará o novo braço da Represa de Taiaçupeba, não sabe o que fazer com os dois cavalos, seis passarinhos, dois cachorros e um galo que dividem o barraco de quatro cômodos - um deles é um estábulo - com ela, o marido e os quatro filhos. "Se a gente for para um apartamento, o que vamos fazer com a Estrela?", diz, referindo-se à égua da família, de 4 anos, que pasta na beira da represa. "Pelo menos entre os passarinhos vamos poder escolher um ou dois."

A apreensão de Maria é comum às 2,2 mil pessoas que terão de deixar suas casas nos arredores do novo reservatório em Suzano até julho. Até agora, após a decisão judicial sobre o alagamento, porém, ninguém recebeu notificação. O processo é tocado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do Estado.

Nem todas as 540 famílias que hoje moram ao redor da empresa de papel e celulose Manikraft, no entanto, terão direito a viver nos conjuntos habitacionais. "Muitas famílias não cumprem os requisitos para receber um apartamento ou casa", disse a secretária de Saneamento e Energia, Dilma Pena. "Mas todas serão assistidas, com auxílio no aluguel, na mudança ou contribuição para voltar ao local onde moravam antes."

Também na "vilinha", como é chamada a comunidade, mora a baiana Hermelina Vieira, de 75 anos, desde 1988. "Fomos os primeiros!", jura. Hermelina é das mais bem-sucedidas do local: no terreno de 400 metros de extensão que ocupa com o marido, planta abacaxi, tomate, alface, abóboras e jiló, vendidos em um pequeno comércio próprio. Ganha de R$ 600 a R$ 1 mil por mês. "E agora vou para um apartamentozinho? Se sair da roça é caixão na certa!"

"Os moradores podem ficar tranqüilos: as famílias serão analisadas caso a caso e removidas da forma mais humana possível", diz Ubirajara Felix, superintendente do DAEE. "Só não podemos prometer moradia de graça para todos. Tem gente que chegou há um mês e se instalou. Dar um apartamento é estimular invasões."

Entre os desalojados, há quem veja na remoção uma oportunidade. Edson Amaral, de 35 anos, desempregado desde 2003, não vê a hora de mudar. "Sair daqui vai ser uma bênção. Quando chove, os córregos sobem e alagam tudo", diz. No quintal do barraco, que divide com a mãe, um irmão, a esposa e três filhos, estende cerca de 100 peças de roupas. "Estourou o guarda-roupas na enchente."

Para Amaral, deixar a área também significa se livrar de ratos. Em uma noite, ele contou 12 estalos na ratoeira. "Doze naquela noite! E só com dois pedaços de pão", comemora. "Aqui, é uma sujeira."

OESP, 01/03/2008, Metrópole, p. C7

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