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Uso de veneno de rã deixa floresta e ganha adeptos nas metrópoles

FSP, Cotidiano, p.C4
12 de abr de 2005

Uso de veneno de rã deixa floresta e ganha adeptos nas metrópoles
Tratamento foi criado por índios da Amazônia

Amarílis Lage
Da reportagem local

Queimar a pele, raspar a ferida e sobre ela colocar a secreção de uma pequena rã verde, extremamente venenosa. Experimentar, em seguida, uma sensação de morte iminente e, minutos depois, uma grande sensação de bem-estar. A prática dos índios amazônicos saiu das florestas e agora ganha força nos grandes centros urbanos. Em São Paulo, uma aplicação de kambô -a "vacina do sapo"- pode ser obtida por cerca de R$ 100.
O número de pessoas que usam o kambô nas metrópoles não é mensurável, já que as sessões são promovidas de forma isolada por membros de diferentes grupos, mas é possível ter uma noção da procura pela prática a partir dos atendimentos feitos ao longo das últimas semanas pelo cacique curador Ni-í, da etnia katukina, em seu tour por capitais do Sudeste.
Ao longo da última semana, Ni-í realizou mais de 30 aplicações em São Paulo, além de quatro palestras sobre o tema. Em Belo Horizonte (MG), o cacique realizou cerca de 50 aplicações. A próxima parada é o Rio de Janeiro.
Após a aplicação do kambô, o organismo reage violentamente, com vômitos, náuseas e diarréia. Também há registro de inchaços, fechamento da glote e desmaios. Alguns usuários também relatam ter sentido um calor intenso, seguido de um frio congelante. O mal-estar costuma durar de cinco a 20 minutos. Depois, é sucedido por uma sensação de enorme bem-estar e vigor físico.
Entre os adeptos estão estudantes, profissionais liberais e artistas -de modo geral, pessoas já envolvidas com outras formas de medicina alternativa. E as propriedades terapêuticas associadas ao kambô não são poucas.
No panfleto distribuído pela Akac (Associação Indígena Katukina do Campinas), a substância, além de remédio espiritual, é indicada nos tratamentos de tendinite, dor de cabeça, asma, rinite, alergia, gastrite, úlcera, diabetes, hepatite, cirrose, epilepsia, infertilidade, depressão, dependência química e doenças cardíacas em geral, para citar apenas algumas das recomendações.
Como não há comprovação científica desses resultados, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) suspendeu há um ano qualquer tipo de propaganda do uso medicinal do kambô. De acordo com a assessoria do órgão, também está sendo providenciada a proibição do comércio da substância (leia texto abaixo).
"O kambô é um remédio milenar que a gente vinha mantendo escondido, mas agora é conhecido no mundo inteiro", explica Ni-í em uma das palestras, sempre munido de um cocar, apesar de vestir jeans e camiseta.
Ele começou a aplicar o kambô em pessoas de fora da aldeia há cinco anos. "O sentido é o seguinte: a gente tem esse remédio, não adianta curar só o nosso povo. Saí para esse trabalho para ajudar as pessoas que precisam de cura", diz o cacique, membro da Akac.
A questão econômica também influenciou a decisão. "Tem muitas pessoas por aí fazendo esse trabalho [relacionado ao kampô]. Quer fazer, então vamos para a aldeia, sou a favor disso. Não pode entregar [o conhecimento] sem retorno", afirma Sônia Menezes, terapeuta e aplicadora autorizada pela Akac. "Hoje em dia, eles [os índios] também têm que comprar coisas", acrescenta.
A comercialização gera polêmica dentro da própria aldeia, diz a antropóloga Edilene Coffaci de Lima, que estudou a cultura katukina em seu mestrado e doutorado na USP. "Essa é uma questão complicada para eles, porque, na concepção deles, a substância sozinha não tem efeito, ela transfere as qualidades do aplicador para quem recebe o kampô."

Diz a lenda
Pajé descobriu a forma de aplicação ao ter uma visão
Conta a lenda que o pajé não conseguia curar um assistente. Tentou rezas, ervas. Em busca de solução, o pajé tomou a ayahuasca, substância servida como chá.
Teve então uma visão da rã, chamada entre os índios de kambô ou kampô, e da forma de extrair o veneno e de aplicá-lo. Ao fim da visão, o pajé capturou a rã, retirou com um palito a secreção espumosa e aplicou o remédio no índio, que ficou curado.

"É como estar na montanha-russa"
Sentado na sala de espera da clínica, o artista plástico Paulo Nilson, 29, aguarda o cacique Ni-í chamá-lo para a aplicação do kambô. Embora já tenha tomado a vacina sete vezes, os minutos que antecedem a experiência ainda lhe causam um frio na barriga.
"É como se eu estivesse no trenzinho da montanha-russa, começando a subir. Quando a gente percebe que está chegando, pede "ai meu Deus, me ajude". O consolo é que é breve."
Paulo tomou o kambô pela primeira vez em agosto de 2002, por sugestão da mulher. Quem lhe aplicou a vacina foi um homem conhecido como caboclo Chiquinho, em sessão coletiva. "Eu não sabia de nada e pensei que poderia ir embora em seguida. Aí comecei a sentir o rosto quente. Parece que o sangue começa a circular mais rápido, a garganta fecha, era como se meu corpo estivesse passando por um scanner. Não sabia que a gente se sentia mal."
Os efeitos, porém, foram leves em comparação às sessões seguintes. Em algumas, Paulo vomitou e teve diarréia. Em outras, chegou a ficar com o rosto inchado, com vergões na face. Além disso, passou por experiências alucinógenas. "Tive algumas visões. Eram florestas, cipós, uma coisa muito bonita e iluminada, mas que é muito breve. Isso de tomar para ter alucinação não rola", afirma Paulo, que usa o kambô com o intuito de realizar uma limpeza geral no organismo.
Além disso, ressalta, o bem-estar proporcionado pela substância após alguns minutos é muito grande. "Não é uma sensação de prazer. É que aumenta a visão, a audição, o paladar. Diminui a sensação de fome e de sede."
As funcionárias da clínica o chamam. Na sala vizinha, um outro paciente se recupera. Vermelho e suado, ele conta que vomitou muito. "Foi punk", afirma o rapaz, que não quis se identificar. E vai fazer de novo? Ele sorri -a próxima sessão já está marcada.

Para grupo, uso não leva em conta riscos
Um grupo formado por Instituto do Coração e Universidade de Brasília, liderado pelo Ministério do Meio Ambiente, afirma que falta conhecimento sobre o uso e a composição do kambô.
"Estamos tentando descobrir uma forma ética e segura do uso da vacina por brancos. As pessoas estão usando sem saber os riscos", acredita Bruno Filizola, coordenador técnico do Probem (Programa de Bioprospecção e Desenvolvimento Sustentável da Biodiversidade). A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) providencia a proibição do comércio da substância, após denúncia dos próprios índios de que ela era vendida pela internet.
No caso da rã de onde se extrai o kambô, foram patenteadas no exterior deltorfina (usada na isquemia cerebral) e dermorfina (analgésico mais potente que a morfina), segundo a ONG Amazonlink.
Entre os índios katukina, o kambô é utilizado com dois objetivos principais: ajudar na caça e combater a preguiça. Ao chegar aos centros urbanos, porém, a substância ganhou, simbolicamente, um poder de cura muito maior e passou a ser encarada por adeptos de terapias alternativas como o remédio para todos os males, segundo a antropóloga Edilene Coffaci de Lima, que estuda os katukina desde 1991.
"Entre eles [os katukina], o kambô serve para aguçar os sentidos e como revigorante. Aqui é completamente diferente, falam que o kambô serve para tudo. O que eu percebo é que ele virou uma panacéia", diz Lima, que integra o grupo do ministério.
"O kambô chega às grandes cidades onde tem sido absorvido pelo circuito das terapias holísticas alternativas ou novas religiosidades urbanas. Não me surpreenderia se, no futuro, surgisse uma igreja do "santo Kambô da Luz Verde", diz a antropóloga Bia Labate, 33, autora do livro "A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos". (AL)

FSP, 12/04/2005, p. C4.

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