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Sem zerar efeito estufa, temperatura subirá 2oc

OESP, Metrópole, p. A18
03 de Nov de 2014

Sem zerar efeito estufa, temperatura subirá 2oc
Painel da ONU fecha síntese de estudos e diz que emissão de gases precisa quase parar até 2100; risco de eventos extremos, como secas, aumentou

Denise Chrispim Marin

Ao apresentar ontem os textos sínteses dos mais recentes relatórios do Painel Internacional de Mudança Climática (IPCC), o presidente do grupo científico, Rajendra Pachauri, afirmou não haver outra saída aos governos senão o corte das emissões de gases do efeito estufa para evitar o aumento de 2oC na temperatura da terra até o fim do século. "A comunidade científica falou. Agora passo o bastão aos governos."
Pachauri mostrou-se otimista em relação a um acordo entre os 190 países em Paris, em 2015, durante a Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP21). As sínteses dos relatórios do IPCC servirão como base para as negociações. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, lembrou que a tentativa de um acordo em 2009, em Copenhague, falhou porque os líderes estavam concentrados na crise financeira mundial.
Mas há dois meses, em Nova York, os líderes reunidos na Cúpula da Mudança Climática se comprometeram a alcançar um acordo em 2015. "Mesmo que as emissões de gases do efeito estufa acabem agora, ainda vamos continuar a sentir os efeitos da mudança climática", afirmou Ban.
As sínteses elaboradas ao longo da semana passada preservaram as principais constatações dos três últimos relatórios do IPCC sobre o aquecimento global e seus efeitos sobre as pessoas e os ecossistemas. Mas ambos os textos sofreram interferência de representantes de governos presentes aos debates em Copenhague. Entre os tópicos omitidos está uma coluna do quadro sobre os cenários de aumento da temperatura, que aponta a possibilidade de acréscimo de 7,8oC, até 2100, se a concentração de dióxido de carbono (CO2) equivalente na atmosfera superar 1.000 partes por milhão (ppm).

Solução e futuro
Para a temperatura não subir mais do que 2oC até 2100, alerta o IPCC, será necessário reduzir as emissões dos gases do efeito estufa para um nível perto de zero. O resumo para tomadores de decisão, com 40 páginas, diz ser "inequívoca" a influência humana no processo de aquecimento global. As emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo homem são as maiores da história e vão causar ainda mais aquecimento global e mudança.
Aumenta, portanto, a "probabilidade de impactos graves, disseminados e irreversíveis" sobre as pessoas e os ecossistemas. Entre eles, os eventos extremos - chuvas mais intensas, tempestades, inundações, secas e ciclones - já percebidos. A temperatura e a salinização dos oceanos serão crescentes, assim como o aumento de seu nível, provocado pelo derretimento de geleiras do Ártico.Nenhum lugar do mundo estará intocável à mudança do clima.
A atividade econômica vai cair, a redução da pobreza se tornará tarefa mais difícil e haverá riscos para a segurança alimentar e novos bolsões de miséria em áreas urbanas, aponta o resumo. A mudança climática deve empurrar pessoas para fora de suas regiões originais e há alto risco de conflitos violentos.

Confiança e custos
Segundo o secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia, Michel Jarraud, o nível de confiança nas projeções científicas é maior agora do que em 2009. O que antes estava apenas projetado pelo IPCC agora tem fundamentos em valores. "Ninguém mais pode alegar ignorância", disse.
O IPCC preservou no resumo para tomadores de decisão a recomendação para que seadotem estratégias de adaptação e de mitigação de mudanças climáticas.Pachauri alertou para o fato de a "janela" estar se fechando.O custo da mitigação para a economia mundial, nos cálculos do IPCC, deve ser de 0,06% do Produto Interno Bruto de cada país. Quanto mais atrasar o início das medidas de mitigação, mais caras serão as medidas necessárias.

Produtor de petróleo queria tratamento de 'país vulnerável'

Ao se apresentarem como países vulneráveis às mudanças climáticas, a Arábia Saudita, a Venezuela e outros países produtores de petróleo abortaram a tentativa dos cientistas do IPCC de elaborar um texto adicional. Sauditas e seus aliados sustentaram que as políticas de redução de emissões de gases do efeito estufa provocarão perdas para suas economias e a necessidade de reestruturação produtiva.
Inicialmente, os cientistas pretendiam conferir o selo de vulneráveis para nações. Isso garantiria benefícios e proteções para a sociedade e o ecossistema expostos a riscos extremos da mudança climática, como o de desaparecimento. Tuvalu, na Oceania, por exemplo, pode perder grande parte de seu território com o aumento do nível do mar, assim como as Ilhas Maldivas, no Oceano Índico. Nações africanas que já convivem com altos índices de pobreza, por sua vez, estão arriscadas à fome extrema.
Quando confrontado por um representante do governo saudita sobre a necessidade de o IPCC considerar os efeitos da "falta de espaço" para mais emissões de carbono, o presidente Pachauri não escondeu a desaprovação. "Não há temporais no deserto", declarou, referindo-se a um dos efeitos extremos das alterações climáticas. / D.C.M

OESP, 03/11/2014, Metrópole, p. A18

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