O Globo, Sociedade, p. 30
27 de Ago de 2014
Relatório da ONU alerta para mudanças climáticas irreversíveis
O crescimento descontrolado nas emissões de gases causadores do efeito estufa está sobrepujando todos os esforços políticos para lidar com o problema, aumentando o risco de "impactos severos e irreversíveis por toda parte" nas próximas décadas, alerta rascunho de importante relatório da ONU. O aquecimento global já está reduzindo a produção de grãos em vários pontos percentuais, destaca o relatório, e isso pode piorar muito mais se as emissões continuarem sem controle. A elevação dos níveis dos oceanos, devastadoras ondas de calor, chuvas torrenciais e outros eventos climáticos extremos também estão sendo observados ao redor do mundo como resultado das emissões humanas, afirma o relatório, e estes problemas vão possivelmente ficar mais intensos, a não ser que os gases sejam controlados.
O planeta também já pode estar próximo de uma temperatura na qual a perda da vasta cobertura de gelo da Groenlândia será inevitável, diz o relatório. O derretimento total de fato demoraria séculos, mas seria irrefreável e poderia resultar em uma alta no nível dos mares de cerca de 7 metros, com aumentos adicionais vindos de outras fontes, como o derretimento do gelo na Antártica, potencialmente inundando algumas das principais cidades do mundo.
"A influência humana foi detectada no aquecimento da atmosfera e dos oceanos, em mudanças no ciclo global da água, na redução da neve e do gelo, e na alta média dos níveis dos mares, e é extremamente possível que tenha sido a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século XX", afirma o relatório. "O risco de uma mudança abrupta e irreversível cresce à medida que a magnitude do aquecimento sobe".
RESERVAS REPRESENTAM RISCO
O documento foi produzido pelo Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas (IPCC), conjunto de cientistas e outros especialistas escolhido pelas Nações Unidas que periodicamente revisa e resume as pesquisas climáticas. Ele ainda não está na versão final e pode mudar substancialmente antes de ser publicado. O relatório será divulgado pela ONU no início de novembro, após intensa sessão de edição em Copenhague. Um rascunho prévio foi enviado aos governos do mundo esta semana, e uma cópia desta versão foi obtida pelo "New York Times".
Com uma linguagem mais forte que os relatórios que lhe serviram de base, este novo rascunho destaca a urgência dos riscos que possivelmente vão aumentar diante da continuidade das emissões de gases que capturam calor, primariamente o dióxido de carbono liberado pela queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural.
O relatório revela que empresas e governos já identificaram reservas destes combustíveis pelo menos quatro vezes maiores do que o que poderia ser queimado com segurança para manter o aquecimento global em um nível tolerável. Isso significa que se a sociedade quiser impor limites aos riscos para futuras gerações, deve encontrar a disciplina para deixar a maior parte destes valiosos combustíveis no solo.
O relatório cita os crescentes esforços políticos ao redor do mundo sobre as mudanças climáticas, incluindo aqueles para limitar as emissões e para se adaptar às alterações que já se tornaram inevitáveis. Mas ele também revela que estes esforços estão sendo minados pela construção, por exemplo, de novas usinas geradoras de energia a carvão, que deverão manter as emissões altas durante décadas.
De 1970 a 2000, as emissões globais de gases-estufa cresceram 1,3% ao ano. Mas de 2000 a 2010, este ritmo pulou para 2,2% e parece estar se acelerando ainda mais nesta década, aponta o texto.
Principais pontos
Aquecimento global
A temperatura média do planeta já subiu 0,85 grau Celsius em relação à observada em 1880. E, dependendo do cenário e das políticas adotadas para controle das emissões de gases-estufa, pode subir mais entre 0,3 grau e 4,8 graus só neste século.
Derretimento glacial
Entre os possíveis efeitos permanentes de um aquecimento acumulado de 4 graus Celsius está a perda da cobertura de gelo da Groenlândia, o que elevaria o nível dos oceanos em 7 metros, ameaçando inundar algumas das principais cidades costeiras do mundo, de Miami e Rio a Bangcoc e Tóquio.
O Globo, 27/08/2014, Sociedade, p. 30
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