VOLTAR

Presos fizeram doação a petista, diz PF

FSP, Brasil, p. A12
04 de jun de 2005

Presos fizeram doação a petista, diz PF
Polícia cumpriu 95 mandados de prisão de acusados em esquema de extração ilegal de madeira em Mato Grosso

Hudson Carrêa

O candidato do PT a prefeito de Cuiabá nas eleições de 2004, Alexandre Cesar, recebeu doações eleitorais de envolvidos em suposto esquema de corrupção responsável pelo desmatamento ilegal de uma área de 43 mil hectares (52 mil campos de futebol) na Amazônia, em Mato Grosso.
Com o transporte de madeira extraída ilegalmente, o esquema movimentou R$ 890 milhões desde 2003, segundo a Polícia Federal, que anteontem começou a prender acusados de envolvimento no caso. Dos 127 mandados de prisão, a PF havia cumprido ontem ao menos 95.
Hugo José Werle, ex-gerente-executivo do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Mato Grosso, e seu então substituto, Márcio Pinto Gomes, estão entre os presos. Cada um deles contribuiu com R$ 5.000 para a campanha de Cesar.
Além disso, três empresas investigadas pelo Ministério Público Federal por suposta participação no esquema também contribuíram para a campanha. A Solar Madeiras Especiais doou R$ 15 mil, a Cimifran Indústria e Comércio de Madeira deu R$ 5.000 e a Diagem do Brasil Mineração entrou com R$ 30 mil.
O Ministério Público apura se essas empresas foram favorecidas no esquema de corrupção, montado, segundo a própria direção do Ibama em Brasília, dentro do Ibama de Mato Grosso, gerenciado por Werle, filiado ao PT.
Embora não apareçam como doadores da campanha de Cesar, os despachantes Nivaldo do Carmo Silva e Elvis Cleber Portela estão em conversas gravadas pela PF com autorização judicial, falando da necessidade de o candidato petista ganhar para que "Hugo" não saia do cargo no Ibama.
Nessa mesma conversa, os dois citam o ministro José Dirceu (Casa Civil), que iria a um jantar da campanha para arrecadar dinheiro para a campanha de Cesar.
O presidente do Ibama, Marcus Barros, que acompanhou a operação da PF anteontem em Cuiabá, anunciou uma intervenção de dois meses na gerência do instituto em Mato Grosso. Como interventor, foi nomeado o procurador da AGU (Advocacia Geral da União) Elielson Ayres de Souza. A emissão de ATPF (Autorização para Transporte de Produtos Florestais) foi suspensa por 30 dias.
Barros anunciou a demissão de 11 servidores suspeitos de envolvimento. Segundo Barros e a PF, as irregularidades começaram a ser investigadas em setembro de 2004, a pedido do Ibama.

Outro lado
"Não fui tesoureiro da minha própria campanha. Não posso falar sobre isso. Não tenho nem informação sobre isso. Isso é novidade. Portanto não vou declarar nada. O que tínhamos a dizer divulgamos em nota", afirmou Cesar. Ele estava em reunião e disse que não poderia dar entrevista.
A nota divulgada pelo PT estadual diz: "O PT-MT apóia a decisão do governo Lula de combater o desmatamento ilegal na Amazônia, com o desmonte de grupos que atuavam desde 1991 no Estado. Diante do fato de que entre os acusados há filiados do partido, reafirma seu compromisso com a preservação da ética".
O PT não divulgou quantos são os filiados, além de Werle. A reportagem não conseguiu localizar as empresas investigadas.
Esquema
Segundo a PF, o esquema funcionava assim: 1) servidores públicos (47 do Ibama) vendiam ATPFs por R$ 1.000 a despachantes; 2) os despachantes emitiam o documento por R$ 2.000 em favor de 431 madeireiras fantasmas, cujos endereços correspondiam a cemitérios ou até chiqueiro de porcos; 3) tais empresas inexistentes apareciam como vendedoras da madeira para outras que de fato existiam, mas não tinham autorização para derrubar árvores.
As madeireiras simulavam comprar toras de firmas fantasmas para justificar a procedência das árvores que eram, na verdade, extraídas ilegalmente. Outro esquema dos fiscais era liberar carregamentos de madeiras nos postos de fiscalização do Ibama.

Gravação feita pela PF de despachantes cita Dirceu

Dois despachantes, Nivaldo do Carmo Silva e Elvis Cleber Portela, presos anteontem sob a acusação de pagar propina para funcionários do Ibama e de representar madeireiras fantasmas em um esquema de desmatamento ilegal, aparecem numa escuta telefônica, feita com autorização judicial pela Polícia Federal, falando sobre a necessidade da vitória do então candidato a prefeito de Cuiabá Alexandre Cesar (PT), atual presidente do Diretório Estadual do partido, para a manutenção de Hugo José Werle no cargo de gerente do Ibama de Mato Grosso.

Na gravação, os dois despachantes citam o ministro José Dirceu (Casa Civil).
Do relatório da PF enviado ao Ministério Público Federal, consta que a conversa ocorreu no dia 19 de outubro de 2004, tratava de projetos ambientais do Ibama e chegou a tratar da campanha de Cesar com menção ao "ministro José Dirceu".
A Folha teve acesso a trechos da transcrição da conversa. Portela diz: "Mandaram um convite para mim aqui para o jantar do José Dirceu... Vai [vir] amanhã". Silva responde: "Mas o Zé Dirceu é mala". Portela afirma: "Tem que pagar um convite. Advinha o preço". Silva pergunta: "R$ 100?". Portela ri, diz que é "R$ 500" e acrescenta: "É brabo [sic], é porque é a eleição do cara, entendeu? E aqui, se o cara não ganhar, é perigoso o Hugo [ex-gerente do Ibama-MT] sair [do cargo]". Em seguida, Silva responde: "Não, não. Então tem que deixar ele aí".
Werle ficou no cargo até anteontem, quando foi exonerado.
A assessoria de Dirceu informou ontem que o ministro estava indo viajar e seria impossível falar com ele. Cesar estava em reunião e não falou sobre o assunto.
Reportagem do dia 21 de outubro de 2004 do "Diário de Cuiabá" informa sobre palestra dada por Dirceu, com preço do convite a R$ 500. No evento, segundo o jornal, ele deu apoio a Cesar.
O governador do Estado, Blairo Maggi (PPS), demitiu ontem seu secretário do Meio Ambiente, Moacir Pires, preso na ação.

Procuradoria vê balcão de negócios

Moacir Pires de Miranda Filho, ex-secretário do Meio Ambiente do governador Blairo Maggi (PPS), preso anteontem e demitido do cargo ontem com publicação no "Diário Oficial", é acusado pelo Ministério Público Federal de criar um balcão de negócios na emissão de autorização para desmatamentos ilegais em terras indígenas e áreas de preservação.
Ao decidir analisar as acusações do Ministério Público Federal, o juiz da 1ª Vara Federal de Cuiabá, Julier Sebastião da Silva, afirma que há "indícios" de que o ex-secretário e outros quatro funcionários montaram um "inteligente e eficiente esquema criminoso para auferir lucros e privilegiar os interesses dos proprietários e produtores rurais, possibilitando a concessão fraudulenta de licenças ambientais para desmatamento, plano de manejo e de exploração florestal, construção de usinas hidrelétricas".
Conhecido com o "rei da soja", Maggi sofreu críticas na imprensa internacional após o Ibama divulgar que 40% do desmatamento ilegal na Amazônia ocorre em Mato Grosso.
Anteontem, por meio de nota, o governador anunciou a demissão de Pires, o fechamento por dez dias da secretaria e designação do promotor de Justiça do Meio Ambiente, Domingos Sávio de Barros Arruda, para fiscalizar o órgão.
Ainda segundo o juiz, a administração de Pires transformou a secretaria e a Fema (Fundação Estadual do Meio Ambiente) em "um farto balcão de negócios e de lucros para a organização criminosa por eles [os acusados] comandada, consumando crimes ambientais".
O advogado Eduardo Nahon disse ontem que os crimes, caso tenham sido cometidos por Pires, deveriam ser classificados de administrativos, com pena de três meses.
Outro lado
Nahon afirma que Pires apenas aumentou o número de autorização de desmatamento. "Anteriormente demoram até 70 dias e passaram a sair em 30 dias", afirmou o advogado.
Ontem o TRF (Tribunal Regional Federal), da 1ª Região, negou habeas corpus para Pires.

FSP, 04/06/2005, Brasil, p. A12

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.