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A persistência de Zé Celso

FSP, Opinião, p. A2
Autor: BONDUKI, Nabil
21 de nov de 2017

A persistência de Zé Celso

Nabil Bonduki

Arrasta-se há décadas o debate sobre o terreno de 10,8 mil m², no entorno do Teatro Oficina, no Bexiga, de propriedade do Grupo Silvio Santos.
O assunto está na ordem do dia. O Condephaate reviu o tombamento, retirando a proteção ao entorno do teatro. Em breve, o Iphan e Conpresp deverão se manifestar, o que pode permitir o surgimento de um grande empreendimento imobiliário no local.
Em contrapartida, cresceu a mobilização em apoio ao Oficina, o mais antigo grupo em atuação no Brasil, que ganhou o apoio de artistas, como Fernanda Montenegro e Caetano Veloso. No domingo (26), está programado um outro grande ato.
Embora a persistência do diretor do teatro, Zé Celso, tenha sido fundamental para evitar que as torres saíssem do papel, a questão não é pessoal, é da cidade, do país. Ela deve ser abordada sob a ótica do Plano Diretor (PDE) e da política cultural, que dão grande importância à memória e identidade e à relação entre cultura e espaço público.
O Bexiga é um bairro tradicional, tombado, repleto de manifestações culturais, materiais e imateriais. Além do Oficina, abriga, entre outros, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ícone das artes cênicas brasileiras (que precisa ser reaberto), a Vila Itororó e a Vai-Vai e a Festa da Achiropita, que remetem às tradições negra e italiana.
Mas o bairro foi cortado por uma das piores intervenções da cidade. A implantação da via Leste-Oeste, em frente ao Oficina, gerou a derrubada de centenas de edifícios e criou uma cicatriz, com horrorosos baixos de viadutos e um forte impacto ambiental, para atender o conjunto da cidade.
Por isso, São Paulo tem uma dívida com o Bexiga. A implantação de um projeto urbano-ambiental-cultural, ancorado nesse terreno e conectado com as demais referencias do bairro, como propõe o Oficina, é uma chance para resgatá-la.
O PDE, ao criar os Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem, estabeleceu as bases legais para a proposta. Mas sua concretização depende do governo equacionar a aquisição do terreno, transformando-o em uma arena de cultura, a ser gerida de forma participativa.
Na selva de concreto em que se transformou a região, o terreno surge como um pulmão, livre e verde. Já a construção de torres, além de descaracterizar o bairro, promover gentrificação e gerar um impacto irreversível para o teatro, reforçará um modelo de cidade empobrecedor, baseado na destruição de suas referências e identidades.
Apenas um visionário, como Zé Celso, com a sensibilidade e irracionalidade de um artista conectado às raízes daquele lugar poderia, com tanta persistência, ter acreditado ser possível resistir ao inevitável e propor uma re-existência. Mas, agora, no momento decisivo, cabe a todos enfrentarem esse desafio.

FSP, 21/11/2017. Opinião, p. A2

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/nabil-bonduki/2017/11/1936849-com-…

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