VOLTAR

Missionarios desmatam area na Billings

FSP, Cotidiano, p.C3
19 de jun de 2005

Missionários desmatam área na Billings

Área devastada é equivalente ao tamanho de seis campos de futebol; mananciais abastecem 4,5 milhões de pessoas

Afra Balazina

Com a intenção de construir uma obra social às margens da represa Billings, a Associação dos Missionários da Imaculada Padre Kolbe cometeu dois crimes. Primeiro, desmatou sem autorização da Prefeitura de São Bernardo do Campo um terreno de 46 mil m2 -o equivalente a seis campos de futebol. Depois, nessa área de proteção de mananciais que abastecem hoje 4,5 milhões de pessoas em São Paulo e na região do ABC, cortou muito mais do que havia sido autorizado pelo governo do Estado.

A obra foi embargada pelo município no início da semana e, na sexta-feira, uma escavadeira que ainda trabalhava foi apreendida no local. Na quarta, os funcionários pararam de trabalhar quando a reportagem chegou ao terreno.

"A responsabilidade sobre a área de manancial, que tem maior sensibilidade, compete à União, ao Estado e ao município. Solicitar a licença do órgão estadual não o exime da autorização municipal", disse o secretário da Habitação e do Meio Ambiente de São Bernardo, Osmar Mendonça, 54.

Segundo ele, o Estado autorizou um desmatamento de 21 mil m2 e foi feito o corte de mais do dobro disso (46 mil m2. "Foi aberto um inquérito na delegacia de crimes ambientais para apurar o caso. Também vamos investigar se houve desmatamento em APP [Área de Proteção Permanente], o que é proibido, e se foi cortada vegetação nativa original", disse.

O presidente da ONG (organização não-governamental) Terra Viva, Pedro Camelo Filho, 40, ficou indignado com o corte de árvores com tronco de 50 cm de diâmetro. "É necessário verificar qual será o real impacto ambiental antes de fazer uma obra como essa. Sempre se fala que a água potável não é suficiente para toda a população, mas não é feita a proteção adequada das áreas de mananciais", disse.

A entidade foi uma das que denunciou o desmatamento ilegal na área e também pediu ao Ministério Público Estadual que investigasse o caso.

Segundo o secretário, tudo indica que mais uma irregularidade tenha sido cometida: o corte foi feito mais perto de nascentes (que são APPs) do que deveria. O presidente da Terra Viva é mais enfático. "Há agravantes nesse desmatamento: suprimiram vegetação perto de nascentes e muito próximo do corpo d'água da represa."

De acordo com Mendonça, até agora a associação não entregou o projeto para a prefeitura analisar. "Eles fizeram o pedido de licença nesta semana, mas não posso decidir nada sem ver o projeto", disse. A prefeitura irá pensar, agora, formas para a entidade compensar o dano ambiental causado.

Religioso diz que empresa cuida de licenciamentos

A Folha não conseguiu ouvir o presidente ou representante da Associação dos Missionários da Imaculada Padre Kolbe. O missionário Clemilson Teodoro, entretanto, falou que a questão das obras e da planta está sendo tratada por uma empresa de São Bernardo do Campo. Ele disse não saber de autorizações necessárias para desmatar a área nem o nome dessa empresa.

"Tem gente competente cuidando disso", afirmou. Segundo o missionário, funcionará no local uma obra assistencial para crianças. A página da milícia na internet informa que o grupo tem a aprovação do papa.

FSP, 19/06/2005, p.C3

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.