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Líderes indígenas defendem mineração em suas terras

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/
11 de Mar de 2022

Líderes indígenas defendem mineração em suas terras
Muitas comunidades não só querem a mineração como a praticam há décadas

Leandro Narloch
Leandro Narloch é jornalista e autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, entre outros.

11.mar.2022 às 8h01

Pelas notícias de boa parte da imprensa e dos canais de TV, tem-se a impressão de que os índios são, em coro, contrários à regularização da mineração. Não é verdade.

Muitas comunidades indígenas da Amazônia não só defendem a mineração como a praticam há décadas. Cansados de depender do Estado, seus líderes querem autonomia para explorar seus territórios e um ambiente legal que não os transforme em criminosos.

E se ressentem quando artistas e ambientalistas dizem representá-los.

Conversei esta semana com três líderes indígenas que representam diversas comunidades na Amazônia. Abaixo, o que eles disseram:

Felisberto Cupudunepá (MT)
Presidente da Cooperativa de Agricultores e Produtores Indígenas do Brasil (Coopaibra)

"A classe artística, em grande maioria, sequer conhece uma terra indígena. Se conhece, foi só numa festa, num ritual, e sai achando que sabe tudo. Eles não têm vínculo com as comunidades, não conhecem nada e se acham no direito de dizer que estão salvando os indígenas.

Nenhuma liderança indígena pode falar em nome de todos os povos. Não há essa unanimidade. Tem que respeitar o direito dos indígenas que querem desenvolver a mineração, assim como tem que respeitar quem não quer desenvolver. O direito de um não pode sobrepor o do outro. A lei precisa deixar claro que aquele quer fazer tem o direito de fazer, sem obrigar quem não quer.

Há uma ignorância por parte da população, por parte dos ambientalistas e artistas que vendem uma imagem do projeto de regulamentação da exploração vai destruir tudo. Na verdade, a destruição já vem acontecendo.

Na forma que o garimpo vem sendo praticado hoje, causa grande impacto ambiental e social. Muitos indígenas são aliciados para autorizarem a exploração. E tem muita prostituição, já que muitas comunidades continuam passando necessidade.

Têm comunidades que basicamente vivem da exploração mineral, mas na ilegalidade. Muitas lideranças acabam sendo criminalizadas. A regulamentação traria critérios para explorar e para fiscalizar: planos de controle ambiental, plano de recuperação de área, de mitigação de impactos, investimento social, participação dos lucros. Pode gerar um benefício que hoje não existe.

É preciso dar condições para que os indígenas tenham sua autonomia, sua independência, para não ficarem mais dependentes do Estado brasileiro. Os povos indígenas precisam caminhar com as próprias pernas."

Arnaldo Zunizakae Paresi (MT)
Grupo de Agricultores Indígenas

"Pessoas, organizações não governamentais ou até mesmo órgãos do setor público acabam falando como se fossem os índios, ou dizendo aquilo que eles imaginam que o índio quer ouvir. Mas para nós, indígenas, é muito importante mesmo que a mineração seja regulamentada nas nossas terras.

O atual modelo que hoje está em vigor nas terras indígenas, com os garimpos clandestinos, sem regularização, provoca todo o tipo de violência. Tanto violência contra o meio ambiente quanto contra as pessoas que ali estão.

Traz doenças, prostituição e drogas. Isso existe porque as pessoas que estão ali não têm normas a cumprir. O indígena que circula dentro dos garimpos é visto como mendigo, como alguém que está pedindo esmola.

A mineração precisa ser regulamentada para que você possa dar CPF e CNPJ para as pessoas ali dentro. Para que elas cumpram a legislação e, quando não cumprirem, possam ser punidas ou sofrer processo criminal. Mas da forma que está hoje não tem regra, é impossível saber quem está operando.

Não existe garimpo em terra indígena que não tenha o consentimento dos indígenas. Pode ser que, a uma certa altura do trabalho, os índios fiquem contra porque acham que não estão recebendo um valor justo. A regularização deixaria isso tudo mais claro."

Marcelo Cinta Larga
Cacique da aldeia Roosevelt (RO)

"Alguns indígenas são contra a legalização porque não conhecem de que forma ela vai acontecer. Quem vai explorar? Nós teremos autonomia? A empresa vai querer proibir a participação indígena? Ele vai ser mais beneficiado?

Outros são contra porque não têm minério em suas terras. Mas aqueles que têm minério com certeza querem discutir a legalização. Uma legalização que beneficie os indígenas de verdade, que não dê só migalhas a eles.

Os ambientalistas dizem que estão aí para a defesa do meio ambiente e dos indígenas, mas muitos usam o indígena como pretexto para captar recursos. E, também, só oferecem migalhas."

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/leandro-narloch/2022/03/lideres-i…

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