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Intervenção da PF paralisa economia de municípios

FSP, Dinheiro, p. B5
Autor: ANGELO, Claudio
19 de jun de 2005

Intervenção da PF paralisa economia de municípios
Corrupção no Ibama encarecia atividade, dizem madeireiros

Cláudio Ângelo

No escritório do Ibama em Aripuanã, extremo noroeste de Mato Grosso, um funcionário joga paciência no computador enquanto aguarda. Eldinaldo Nunes de Souza, o Baiano, é um dos três únicos fiscais que sobraram no local após o afastamento do chefe do posto, Paulo Salazar, e mais cinco suspeitos de integrarem a máfia da madeira na região.
O que Baiano aguarda são reforços. O posto acaba de ganhar uma picape nova, mas não tem gente para ir a campo fazer fiscalização e atender o público. O efetivo é tão pequeno que eles nem conseguiram aderir à greve do Ibama, iniciada na segunda-feira. Paciência.
Apesar disso, Baiano está tranqüilo. A Operação Curupira, que resultou na suspensão de todas as concessões de ATPF (Autorizações para Transporte de Produtos Florestais), arrefeceu boa parte do movimento de madeira em Aripuanã e dos municípios vizinhos de Colniza, Juína, Castanheira, Rondolândia e Cotriguaçu, que vivem da atividade.
Segundo os madeireiros, 80% do setor está parado. Caminhões estão encostados. Contratos foram suspensos. Os hotéis da cidade, normalmente apinhados em junho, estão vazios.
Na avenida em frente ao escritório, passa uma picape americana Savannah, modelo novo. Dentro, a família de uma das lideranças dos índios cintas-largas, que enriquecem vendendo a madeira de lei de suas terras. Os índios estão irritados. Embora o dinheiro da madeira só chegue para alguns chefes -e a população passe fome-, as estradas que os madeireiros constroem e mantêm dentro da reserva são fundamentais para o transporte de gente e comida das aldeias para a cidade na época das chuvas. Sem elas, os cintas-largas "sem picape" ficam isolados. "Vai morrer um monte", resigna-se um funcionário do hospital indígena local.
A madeira que traz a bonança também é a tragédia da região. Aripuanã foi o município da Amazônia que mais desmatou em 2003-2004, segundo o governo federal. A exploração predatória, somada à grilagem de terras para a venda de madeira, levou embora 1.041 km2 de florestas dali.
Os madeireiros culpam o governo. "Tive de queimar 10 mil hectares sem nem explorar toda a madeira porque a Fema diz que o desmate tem de ser feito num ano só", queixa-se o catarinense Nervílio Polles, o Gringo.
Polles foi um dos cem madeireiros -ou "empresários do ramo florestal", como preferem ser chamados- que se reuniram com mais cinco prefeitos na noite da última quarta-feira em Colniza, 120 km a norte de Aripuanã, para pedir ao interventor do Ibama, Elielson Ayres, que libere ATPFs para os madeireiros que "estão legais". Sem elas, não podem transportar a madeira para vender.
Cidade grilada
O cenário da reunião é simbólico da ilegalidade que assombra o setor: Colniza, ponta mato-grossense do "arco da grilagem", é um município nascido de uma invasão de terras. A área, pertencente a uma empresa colonizadora, foi ocupada no início da década de 1980 por posseiros expulsos das terras -também invadidas- dos índios zorós.
O município, emancipado há cinco anos, não tem escritura nem da sede. "Eu costumo brincar que Colniza não tem CPF", diz o prefeito Sérgio Bastos dos Santos, o Serjão (PMDB), um madeireiro que mora -literalmente- no pátio de sua serraria.
Não há asfalto na cidade. E Santos estima que três quartos dos habitantes de Colniza (12 mil pelas contas do IBGE, 42 mil segundo ele) sejam posseiros indocumentados vindos de Rondônia.
Apesar de revoltados com a suspensão das ATPFs, os madeireiros do noroeste de Mato Grosso se dizem satisfeitos com a intervenção no Ibama. Explica-se: segundo eles, o esquema de propina no Ibama estava encarecendo a atividade na região e empurrando o setor para a ilegalidade.
"Tinha de molhar a mão do peão. Eram R$ 10 mil por vistoria", diz Polles, que afirma ter sido chantageado pelos fiscais para pagar uma propina de R$ 50 mil de uma vez, mais uma multa de R$ 18 mil. "Ameacei denunciar ao Ministério Público, aí eles me deram uma multa de R$ 500 mil."
Além disso, ATPFs só eram distribuídas para as empresas que faziam parte do esquema de Salazar e Hugo Werle. "Para mim, é uma; para quem está no esquema, são 500", disse Paulo Roberto Perfeito, do Sindicato das Indústrias Madeireiras do Noroeste de Mato Grosso, que reúne 200 empresas.
A corrupção, segundo eles, era "escancarada", generalizada e vinha de antes da gestão de Salazar. Cerca de 15 madeireiros que falaram à Folha no gabinete do prefeito de Colniza -numa reunião à qual também estava presente Hilton Campos, prefeito de Juína- confirmaram ter pago propina regularmente ao Ibama. O achaque muitas vezes era dividido entre os funcionários do órgão e os engenheiros florestais contratados pelos madeireiros para fazer projetos de manejo.
Apesar de otimistas com a intervenção, eles não acreditam que a fraude vá acabar com as demissões no Ibama. "Daqui a seis meses, esse povo todo está trabalhando na Fema", calcula Polles.

FSP, 19/06/2005, Dinheiro, p. B5

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