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Expedição ao Rodoanel vê ameaça à Billings

FSP, Cotidiano, p. C8
02 de jun de 2008

Expedição ao Rodoanel vê ameaça à Billings
Trecho sul do anel viário, no ABC, deve provocar aumento populacional na área da represa, que abastece 1,5 milhão de pessoas
Representante do Dersa que estava no grupo que visitou a região ontem afirma que há problemas de adensamento no local

Conrado Corsalette
Da reportagem local

Iniciadas há cerca de um ano e meio, as obras do trecho sul do Rodoanel já provocaram mudanças significativas na paisagem da região do ABC paulista. Vigas de aço e concreto tomaram o lugar de mata nativa. Grandes áreas terraplenadas ocupam o espaço onde, antes, viviam centenas de famílias.
Depois de uma longa negociação para que as compensações ambientais e sociais fossem definidas por causa da intervenção, outro problema entrou em pauta: o possível aumento populacional em volta da via, o que deve comprometer ainda mais o precário estado dos mananciais da Grande São Paulo, em especial o da represa Billings, que abastece 1,5 milhão de pessoas no ABC.
A Folha participou de parte de uma expedição às obras do trecho sul promovida pelo ISA (Instituto Socioambiental), que ontem levou cerca de 500 pessoas, divididas em 30 grupos comandados por fotógrafos profissionais, para registrarem com suas câmeras a situação de dezenas de áreas de mananciais da região metropolitana.

Terra prometida?
Às margens da represa Billings, o Jardim Canaã, em São Bernardo do Campo, é um dos locais que devem sofrer forte pressão de adensamento populacional com o Rodoanel.
As obras de uma ponte de quase dois quilômetros que passará sobre a Billings ficam a poucos metros da comunidade, antes cercada de vegetação nativa -agora, uma extensa área desmatada para a passagem da futura estrada delimita uma das fronteiras do bairro.
Nas ruas do Jardim Canaã, o asfalto é ecológico, feito de material que permite maior absorção de água. Só que não há esgoto para as aproximadamente 2.000 pessoas que moram no local. As casas têm fossas. A água da rua, o lixo e os entulhos acumulados correm direto para o manancial.
"Aqui, o que fica na rua vai para a represa", diz a diarista Zanaide da Silva, 27, que mora em uma casa a uma quadra do brejo da Billings.
Em 2000, o Ministério Público do Estado conseguiu proibir a construção de novas moradias no bairro. Mas a pressão é constante. "Em 2001, construíram 85 barracos do lado da represa. Com muito esforço conseguimos tirá-los de lá", diz a líder comunitária Maria do Carmo Pereira da Silva, 45.
A alguns quilômetros dali, uma outra comunidade foi cortada pelo traçado do Rodoanel, e também corre o risco de ver sua população crescer após a conclusão da obra, o que o governo promete para 2010. Trata-se de uma favela conhecida como Areião. Parte dela foi removida para a construção da via. Os barracos que ficaram -a maioria- não contam com infra-estrutura. Parte do esgoto corre por um pequeno rio que deságua na Billings, a algumas dezenas de metros do local.
Gilvan dos Santos, 35, proprietário de uma loja de materiais de limpeza, mora na Areião há 20 anos, quase embaixo das vigas que sustentarão um viaduto do Rodoanel sobre a rodovia Anchieta. "Tem época do ano que o cheiro aqui fica insuportável", diz.
Plínio Camillo, representante do Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.) participou da expedição de ontem às obras do Rodoanel. Ele diz que há, sim, problemas de adensamento em toda a região. Mas ressalta que, por causa de restrições de acesso, o Rodoanel não trará tanto impacto populacional nas comunidades que o cercam. "O risco de aumento de ocupações existe com ou sem as obras."

FSP, 02/06/2008, Cotidiano, p. C8

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