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Erosão ameaça 183 municípios paulistas

FSP, Cotidiano, p. C5
21 de jun de 2005

Erosão ameaça 183 municípios paulistas

Em apenas meia hora, com uma forte chuva, um grande buraco se formou na chácara do pedreiro Mário Aparecido Zago, 55, em Franca (400 km de SP), em 2004. Ele perdeu 1.500 m2 de terreno e sua casa ficou com rachaduras.
A cidade do pedreiro integra uma lista de 183 municípios paulistas com problemas críticos de erosão -de um total de 645. Os dados foram obtidos por um convênio entre Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) -o mapeamento começou em 1986 e só o trabalho de campo levou dez anos para ser concluído.
São Paulo também faz parte da lista. "Percebemos que o Estado inteiro está bastante comprometido. Na região metropolitana de São Paulo, a expansão das favelas, a falta de planejamento e a construção de loteamentos de alto padrão com grande movimentação de terra são agravantes", afirmou a geógrafa Kátia Canil, 36, pesquisadora do IPT.
Na região oeste do Estado, entretanto, a situação é mais crítica. Segundo o professor de geografia da USP (Universidade de São Paulo) Jurandyr Luciano Ross, 58, o solo arenoso encontrado nessa área é mais facilmente levado pelas águas das chuvas.
Além do buraco, um dos resultados do transporte de solo é o assoreamento dos rios e córregos, com o risco de enchentes. "Com o solo são carregados também pesticidas, metais pesados e nutrientes que podem poluir a água. O custo do tratamento da água também aumenta em razão disso", disse o professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) Miguel Cooper.
Segundo ele, na área rural, a erosão muitas vezes é causada pelo mau uso da terra -desconhecimento dos produtores de técnicas de conservação do solo- e pelo desmatamento de APPs (Áreas de Proteção Permanente), como matas ciliares. O produtor muitas vezes perde a área do buraco porque o custo para remediá-lo é muito alto.
Mas a erosão pode se tornar um grande risco -como no caso do desmoronamento de favelas ou na casa de Zago. "A minha casa está cheia de rachaduras, mas não posso sair porque não tenho para onde ir", disse o pedreiro.
Nas cidades, o problema de erosão ocorre normalmente em áreas de expansão em bairros da periferia e em ocupações clandestinas.
O professor Ross ressalta que muitos loteadores nas cidades tentam nivelar o solo -"desmontar morros e alterar fundos de vales"- para valorizar o lugar. A vegetação é tirada e a parte superior do solo também, facilitando a erosão. Se as ruas não são asfaltadas e não há guias, o problema aumenta.
Há casos em que a voçoroca (buraco provocado pela erosão) começa em locais sem asfalto e recua, atingindo também ruas pavimentadas. "Esse é um problema no Brasil todo. Nas últimas chuvas, pontes caíram por causa da erosão", afirmou Ross.

Relatório ambiental
Os dados sobre erosão são a novidade do Relatório de Qualidade Ambiental do Estado de São Paulo, que deve ser publicado hoje no "Diário Oficial". Esse relatório, que compila informações referentes a recursos hídricos, solo, ar e biodiversidade, teve sua primeira edição em 2004. "O relatório é um instrumento de planejamento para a implementação de políticas públicas", disse Lúcia Ribeiro de Sena, 61, coordenadora de planejamento da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.
Leia a lista com as 183 cidades na www.folha.com.br/051711
Reversão de desgaste do solo é cara
O custo para reverter a erosão é alto e, muitas vezes, inviável economicamente. "Sempre há o risco de a voçoroca [buraco provocado pela erosão] abrir de novo. Às vezes, vale mais a pena fazer com que ela pare de crescer", disse o professor Miguel Cooper, da Esalq/USP.
Ele citou como exemplo uma erosão na região de Piracicaba (SP) que foi resolvida recentemente. O gasto total para repará-la foi de R$ 12 mil. "Foram 150 horas de trabalho com uma máquina ao custo de R$ 80 a hora", afirmou. Segundo ele, o valor foi apenas para fechar a voçoroca com terra raspada do entorno do buraco -não foi preciso comprar terra ou trazê-la de outro lugar.
De acordo com a pesquisadora do IPT Kátia Canil, 36, ações corretivas podem ser feitas nas cidades de maneira relativamente simples: "É preciso levar infra-estrutura principalmente para as periferias. Pavimentar as ruas e colocar sarjetas".
Mas a melhor alternativa ainda é prevenir. Uma ação relativamente fácil é planejar os empreendimentos para não realizar a parte de movimentação de terra no período chuvoso. "A chuva vai deflagrar o processo erosivo. É preciso construir em concordância com a natureza", disse.
Para a pesquisadora, os proprietários de terrenos atualmente vazios deveriam ser obrigados a deixar o local sempre coberto com vegetação, que funciona como uma interceptadora da água e impede que ela se mova com muita força e velocidade.
Nas áreas rurais, principalmente no caso da agricultura, a prevenção pode ser feita por meio de técnicas que conservam o solo, como a curva de nível.
Segundo o presidente do Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), Carlos Bocuhy, o Brasil perde por ano 1 bilhão de m3 de solo fértil por causa da erosão. "Essa terra vai parar dentro de rios e provoca assoreamento. Há perda da capacidade de armazenamento nos reservatórios, o que ameaça o abastecimento público e a geração de energia."
Em sua opinião, deveria ser colocado em prática um plano de combate à desertificação -um programa de revitalização do solo e da vegetação. "A compostagem do lixo doméstico resultaria num húmus [adubo orgânico] de boa qualidade e barato."

FSP, 21/06/2005, Cotidiano, p.C5

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