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Engajamento a passos lentos no setor privado

O Globo, Amanhã, p. 26-27
Autor: KELL, Georg
21 de Mai de 2013

Engajamento a passos lentos no setor privado
ONU já descredenciou quatro mil empresas do Pacto Global em sete anos, das quais 197 delas eram brasileiras. Entretanto, executivo elogia capacidade de inovação do país

Entrevista
Georg Kell
Diretor-executivo do Pacto Global das Nações Unidas

MARCELLE RIBEIRO
marcelle@sp.oglobo.com.br

Depois de criar o Pacto Global para estimular a sustentabilidade na iniciativa privada 13 anos atrás, a Organização das Nações Unidas (ONU) quer que as empresas signatárias se esforcem mais para cumprir princípios relacionados ao meio ambiente, aos direitos humanos e ao combate da corrupção. Atualmente, cerca de 7.400 companhias globais participam do Pacto em mais de 130 países. Mas apenas 25% delas estão em nível avançado ou intermediário de engajamento, segundo o diretor-executivo do Pacto Global, Georg Kell. Após conversar com empresários brasileiros em São Paulo na última semana, Kell disse que a ONU não esperava ter que descredenciar tantas empresas pela falta de divulgação de relatório de progresso. O descredenciamento atingiu quatro mil empresas desde 2006, das quais 197 delas eram brasileiras. Atualmente, cerca de 530 entidades do país, entre elas 370 companhias, participam do Pacto Global. Mas Kell chama a atenção para a capacidade de inovação do setor empresarial brasileiro, que recebeu elogios do executivo.

Como o senhor avalia os resultados do Pacto Global desde que ele foi criado?

Fazemos uma avaliação de implementação anualmente e a próxima ficará pronta em junho. Sabemos que os princípios sobre direitos humanos, ambiente de trabalho, meio ambiente e anticorrupção foram introduzidos em milhares de empresas no mundo. Cerca de 7.400 empresas de mais de 130 países estão em estágios diferentes de implementação. Algumas estão muito avançadas, outras estão no nível intermediário e outras estão aprendendo. Algumas empresas levaram os princípios para a cadeia de fornecedores e os aplicaram em todos os lugares em que operam. Outras ainda estão fazendo experimentações nas sedes e têm que implementar nas subsidiárias.

O que fazem as empresas avançadas?

Empresas muito avançadas em relação aos compromissos assumidos no Pacto Global reutilizam recursos naturais que outras companhias jogam no lixo. Elas são altamente eficientes no uso de energia e investem em conhecimento e educação de sua força de trabalho, pois sabem que, quanto mais educados são os funcionários, mais produtivos eles serão. Elas investem nas comunidades nas quais vivem. Já as empresas que não são ideais só olham para as vantagens financeiras de curto prazo. Empresas avançadas têm uma política anticorrupção explícita, enquanto outras empresas preferem pegar atalhos e conseguir contratos às custas da destruição da cultura corporativa.

Em que nível estão as empresas do Pacto?

Apenas 10% das 7.400 empresas do Pacto estão em nível avançado. Cerca de 15% delas estão em nível intermediário e têm avançado em algumas áreas, mas não em outras. E o resto das empresas está aprendendo. Direitos humanos e medidas anticorrupção são as áreas em que a maioria das empresas ainda têm problemas. Por quê? Porque nessas duas áreas o progresso também depende do progresso da sociedade. E é muito difícil ser um alto líder quando a sociedade não muda junto. Quando uma empresa adere ao Pacto, nós exigimos que ela faça um relatório anual de progresso. E descredenciamos as empresas que não fazem o relatório. Infelizmente, já descredenciamos quatro mil empresas desde 2006, porque elas não fizeram o relatório.

Vocês esperavam que o número de descredenciadas chegaria a quatro mil?

Quatro mil é muito mais do que esperávamos. Acreditávamos que as empresas aprenderiam uma forma de informar sobre seu progresso e subestimamos algumas barreiras. Em alguns países há pouco incentivo para as empresas irem a público. Quando você não tem uma mídia livre e viva e quando consumidores não ligam muito para a origem dos produtos e para o impacto que eles têm é difícil convencer as empresas a divulgar os progressos. Muitas das quatro mil empresas na verdade foram compradas. Algumas companhias melhoram, mas não percebem a importância de divulgar isso. Mas há uma parte significativa delas que assinaram o compromisso e simplesmente não honraram suas metas.

O objetivo do Pacto Global é ter 20 mil empresas até 2020. É uma meta difícil?

Sim, porque nós percebemos que só podemos crescer com qualidade. Seria fácil aceitar empresas em grande quantidade e não sermos sérios sobre qualidade. Descobrimos isso através de duras lições. Devemos focar num engajamento mais profundo. Temos que fortalecer as medidas de combate à corrupção, de direitos humanos, meio ambiente e ambientes de trabalho.

Como fazer isso?

Há três caminhos. O primeiro tem a ver com os mercados financeiros, que estão se preocupando mais com estes assuntos e reconhecem que ignorar a sustentabilidade significa ignorar os riscos de investimentos. Em segundo lugar, nós esperamos que os consumidores cada vez mais estejam conscientes da importância desses temas. O terceiro, de longo prazo, é a educação. No Brasil, muitas escolas de líderes estão colocando em seu currículo a sustentabilidade corporativa. Até recentemente, em cursos de MBA, só se aprendia sobre marketing, finanças e como ficar rico rapidamente. Isto está mudando.

As empresas do Brasil podem ensinar algo para outros países?

O Brasil tem uma enorme vontade de abraçar a diversidade e fazer experimentações. Vocês não têm medo de tentar abordagens novas. E também é uma sociedade diversificada e aberta, onde as ideias circulam livremente. É uma qualidade preciosa que muitos outros países ainda não têm.

O que as empresas brasileiras podem fazer para melhorar?

O que posso assegurar é que as empresas brasileiras realmente estão comprometidas. Elas são líderes em sustentabilidade de diferentes maneiras. Especialmente em consciência ambiental e social, as empresas brasileiras são campeãs mundiais.

Ao final da Rio+20, mais de 300 acordos foram assinados entre empresas. Em menos de um ano, houve mudanças?

As empresas se comprometeram e agora estão na fase de implementação dos acordos. E todas querem que o impacto seja levado adiante. As companhias falam em como aumentar a escala, como fazer a cadeia de fornecedores participar mais, como alcançar empresas que ainda não fazem parte desse esforço global. Elas estão pensando em passos práticos e concretos. Houve um movimento muito positivo.

"EMPRESAS MUITO AVANÇADAS EM RELAÇÃO AOS COMPROMISSOS DO PACTO GLOBAL REUTILIZAM RECURSOS NATURAIS QUE OUTRAS JOGAM NO LIXO"
Georg Kell Diretor-executivo do Pacto Global

O Globo, 21/05/2013, Amanhã, p. 26-27

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