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Encontros e desencontros amazônicos

FSP, Ilustrada, p. E10
Autor: GABEIRA, Fernando
12 de fev de 2005

Encontros e desencontros amazônicos

Fernando Gabeira

Uma caixa de sapatos no fundo do armário reacendeu em mim uma certa nostalgia pela Amazônia. Nela, havia cerca de 200 slides do encontro em Altamira, que concentrou gente de todo o mundo. Sting e Anita Roddick, fundadora da rede Body Shop, estavam entre as personalidades que se reuniram lá, em meio a índios e seringueiros, protestando contra a construção da usina da Kararaó, um dos pretextos do encontro.
A repercussão do assassinato de Chico Mendes contribuiu para colocar a Amazônia na agenda internacional. Um grupo de senadores americanos, entre os quais Al Gore, visitou a região. Pareciam sinceramente interessados em entender os problemas e contribuir para a preservação da floresta tropical.
Logo em seguida, a onda internacional de simpatia pela Amazônia enfraqueceu e foi, lentamente, acomodando-se na gaveta das causas importantes, mas fora de moda. A onda não passou em vão; deixou mais coisas que uma simples caixa de sapatos cheia de imagens coloridas.
O Banco Mundial, por exemplo, passou a se interessar mais pela preservação da Amazônia e grandes ONGs internacionais instalaram-se na região. Em 2002, Fernando Henrique Cardoso formalizou, em Johannesburgo, a criação do Parque Nacional do Tumucumaque (3,8 milhões de hectares), o maior do mundo.
Alguns anos antes, tinha sido criado o Sivam, que nos custara US$ 1,4 bilhão e dispõe de equipamentos que, teoricamente, podem mudar a qualidade da vigilância sobre a região. Para completar o quadro de potencialidade, eleito Lula, foi escolhida ministra do Meio Ambiente Marina Silva, companheira de Chico Mendes, pessoa com autoridade moral para comandar um grande acordo pelo desenvolvimento sustentável.
Quando terminou o ano de 2003, analisando as possibilidades de trabalho na Amazônia, procurei evitar ser esmagado com a facilidade com que ela esmaga quem avalia mal as dificuldades do terreno. Selecionei o asfaltamento de um trecho da BR 1639 (Cuiabá-Santarém) como o foco de uma tensão, situação em que poderiam acontecer alguns desastres, mas que poderia também fazer convergir as potencialidades de uma nova política amazônica.
Procurei me aproximar do tema: li relatórios de inspetores do Ibama, participei de um encontro em Brasília com os políticos da região e com representantes do governo. Duas coisas ficaram claras para mim. No asfaltamento desse trecho, o Brasil, potencialmente, pode provar uma nova maneira de construir estradas na Amazônia. E salvar a Terra do Meio, uma imensa região, localizada entre os rios Xingu e Tapajós, ainda preservada. São mais de 8 milhões de hectares, um território equivalente ao tamanho da Áustria.
O conflito com os madeireiros, no qual o governo teve de ceder, não merece apenas condenações, mas um conselho fraternal: a situação não evoluiria para uma ação violenta se houvesse um mecanismo regular e confiável de negociações na área. E, sobretudo, um mecanismo pelo qual respondesse todo o governo, com seus quadros importantes dirigindo o processo.
O governo subestimou a complexidade da construção de uma estrada na Amazônia. E se perdeu um pouco na gestão de um sistema como o Sivam, que poderia ser um instrumento decisivo na retaguarda das negociações. O tipo de equipamento instalado, os potentes computadores, é usado mais hoje no combate ao tráfico de drogas. Mas o Sivam, quando foi comprado, prometia vigilância ambiental.
É como se tivéssemos comprado uma câmera digital de 22 milhões de megapixels para tirar retratos três por quarto. Os militares queriam uma discussão com a sociedade para que se definissem os usos do Sivam. Foi criado um grupo dentro dessa meia centena de grupos dirigidos por um só ministro e, até agora, nada.
É uma pena ver essas duas potencialidades ainda não plenamente usadas: a autoridade moral de Marina Silva e a capacidade técnica do Sivam.
Existem outras variáveis importantes. O Banco Mundial -ou, pelo menos, algumas correntes- mostra-se interessado em investir no desenvolvimento sustentável da Amazônia. A construção exemplar de uma estrada, por meio de um processo negociado, poderia ser o trunfo histórico de Lula para canalizar o esforço internacional.
Finalmente, é preciso admitir que certos acordos políticos deixam grupos insatisfeitos, e isso é perigoso numa área com baixa proteção policial. É uma questão delicada, mas é preciso encará-la com coragem: a defesa da floresta amazônica é ou não uma questão de segurança nacional?
Nos debates que presenciei, senti que, para a maioria das pessoas, a questão básica da Amazônia é manter a soberania nacional. E, dentro dela, a ocupação da floresta é um elemento positivo. Acontece que, levada ao paroxismo, essa tese aceitaria a idéia de que um deserto nacional é melhor do que uma floresta ameaçada por forças externas.
A caricatura é possível quando não se define claramente a defesa das diversidades biológicas e culturais da Amazônia como centro de uma política de segurança. Nesse quadro, a soberania seria garantida moralmente pelo reconhecimento da humanidade, e não por pequenas povoações ao longo de uma fronteira de 11 mil quilômetros.
Todos esses elementos deveriam estar presentes na condução do processo na Terra do Meio. No início de 2005, a região já merecia mais atenção. Os madeireiros cuidaram de chamar a imprensa à sua maneira. Mas talvez a imprensa já estivesse por lá se houvesse um tipo de jornalismo chamado preventivo: localizar as áreas onde a coisa vai estourar e, quem sabe, reduzir com a luz os estragos da explosão.
Pode ser que, no futuro, sejamos reconhecidos como aqueles que tiveram uma floresta grande demais para sua capacidade de desenvolvê-la com inteligência. No momento, os dados ainda não estão todos lançados.
Com a retaguarda do Banco Mundial, a vigilância por cima e o governo dando as caras embaixo, as chances ficam maiores, desde que, pelo amor de Deus, não me venham com mais um grupo de trabalho.

FSP, 12/02/2005, Ilustrada, p. E10

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