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Desmatamento é o 2º mais alto da história

FSP, Ciência, p. A19-A20
19 de mai de 2005

Desmatamento é o 2o mais alto da história
Estimativas de devastação da Amazônia para o período 2003-2004 ficaram em 26.130 km2, aumento de 6,23%

Luciana Constantino

A estimativa de desmatamento na Amazônia para o período 2003-2004 ficou em 26.130 km2, o que representa um crescimento de 6,23% em relação ao consolidado anterior. É o segundo maior número desde que o monitoramento começou a ser feito, em 1988. Fica atrás apenas do período 1994-1995, quando foram devastados 29.059 km2.
A taxa de crescimento do último biênio também é bem maior do que a expectativa do governo, que estava em 2%. Segundo os dados divulgados ontem pelo Ministério do Meio Ambiente, a área devastada supera, inclusive, o período 2002-2003, até então o segundo maior da série histórica.
Ao divulgar a área confirmada de 2002-2003, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) também anunciou uma alta: passou da estimativa de 23.750 km2 para os 24.597 km2.
Chamando o último aumento da área desflorestada da Amazônia de "indesejável", a ministra Marina Silva (Meio Ambiente) citou o crescimento econômico de 2004 como um dos fatores que ajudam a impulsionar o problema e disse que as medidas do Plano de Controle e Prevenção ao Desmatamento, adotado no ano passado, ainda não começaram a ser percebidas integralmente.
Dos oito Estados monitorados, seis apresentaram queda na taxa de desmatamento. Apenas Mato Grosso e Rondônia continuam com o índice subindo. A expansão da área agrícola, principalmente soja, ainda é um dos fatores que contribuem para a alta. O município com maior aumento de devastação de área, em número absoluto, foi Aripuanã (MT).
"Não queremos justificar o número, que ainda continua alto. Queremos que ele caia. Mas houve o crescimento econômico de 5% e não podemos esquecer que a taxa de aumento do desmatamento chegou a 27% [em 2001-2002, comparado ao anterior]", disse Marina, após quase seis horas de reunião com técnicos e os colegas Ciro Gomes (Integração Nacional) e Eduardo Campos (Ciência e Tecnologia) para apresentar o balanço, fechado na véspera pelo Inpe.
"O que importa é que o crescimento é sistemático quando deveria ser declinante, porque há menos floresta para derrubar", disse o economista ambiental Carlos Young, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Pelos cálculos preliminares do Inpe, a devastação da Amazônia já atinge uma área de aproximadamente 680 mil km2, o que é maior, por exemplo, que os territórios da França e de Portugal. Representa cerca de 18% do total da área de floresta monitorado por meio das imagens de satélite. Por outro lado, o estoque de floresta primária ainda em pé é de 82% na região.
Comparações
O ministro Ciro Gomes comparou o ritmo de desflorestamento à velocidade de um carro. "Estamos inquietos com o número estimado, entretanto temos de ter clareza da questão. Tínhamos um carro correndo a 27 km/h e precisamos reduzir. Isso não se faz do dia para a noite. Chegamos a 6 km/h e continuamos nos esforçando."
Ciro Gomes também lembrou que o Inpe ampliou o número de imagens usadas para aumentar a precisão -de 75 para 103.
Marina lembrou a série de ações que o governo vem adotando no plano de controle e os resultados obtidos, como aumento nas infrações cadastradas, maior apreensão de madeira ilegal e instalação das bases de operação do Ibama em conjunto com Polícia Federal, Rodoviária, Exército e Ministério do Trabalho. Ao citar o novo sistema para tornar disponíveis imagens on-line, o chamado Deter, Marina disse que essa é uma ação para integrar a sociedade. "Não podemos cantar em verso e prosa a preservação da Amazônia se não criarmos também uma cultura de preservação."
Para Nurit Bensusan, coordenadora de políticas públicas da ONG WWF-Brasil, os dados não surpreenderam e já demonstram a ineficácia do novo plano de combate ao desmatamento engendrado pelo governo. "O que ficou mais claro é a total ineficiência do plano. Essa coisa de grupo interministerial, nada funcionou", disse. Para Bensusan, há uma disputa dentro do governo, com políticas contraditórias, "e, até agora, está claro que o MMA está perdendo. Nas ações que o ministério pode fazer sozinho, está se saindo bem, mas isso não está sendo suficiente".

Estudo mostra que 15% do desmatamento de 2001 a 2003 ocorreu em novas fronteiras, levado por estradas ilegais
Grilagem muda geografia da devastação
Cláudio Ângelo
Editor de Ciência
As fronteiras da devastação na Amazônia estão se ampliando para além do arco do desmatamento. Segundo um levantamento inédito do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) obtido pela Folha, pelo menos 15% da perda de cobertura florestal de 2001 a 2003 ocorreu numa faixa de 3.000 km que vai da Terra do Meio, no Pará, a Lábrea, sudoeste do Amazonas.
Nessas áreas, o desmatamento está fortemente associado à grilagem de terras públicas e à expansão de estradas clandestinas -estas, resultado da ação de madeireiros e garimpeiros ilegais. Os pesquisadores do Imazon estimam, com base em imagens de satélite e dados obtidos em campo, que haja mais de 90 mil km de estradas informais na região.
"Ficamos surpresos. Achávamos que seriam 40 mil km", disse à Folha o engenheiro florestal Adalberto Veríssimo, do Imazon. Ele é um dor autores do estudo, coordenado por Carlos Souza Júnior e Amintas Brandão.
Quatro frentes de expansão, nas quais não havia perda significativa de floresta em 2001, passaram em 2003 a responder por 10 mil quilômetros quadrados de desflorestamento, contra um total de 65 mil quilômetros quadrados para toda a Amazônia nesse período.
As frentes correspondem, no Pará, à Terra do Meio (região entre os rios Iriri e Xingu), principalmente os municípios de São Félix do Xingu, Altamira e Tucumã; e à área da rodovia BR-163 (municípios de Novo Progresso, Itaituba e Trairão). No Amazonas, englobam a porção sul ( Lábrea, Humaitá e Boca do Acre) e sudeste (Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã). Três municípios -São Félix, Altamira e Novo Progresso- foram os campeões de desmatamento em área absoluta em toda a Amazônia no período 2001-2003.
Sem contato
Segundo Veríssimo, a presença de estradas clandestinas explica por que razão regiões de floresta que não são conectadas por rodovias oficiais têm um índice tão alto de desmatamento.
As estradas facilitam o acesso tanto do setor produtivo quanto dos grileiros à floresta e são o principal vetor de ocupação. "Quando você joga o mapa das estradas endógenas, você explica por que há desmatamento em áreas onde não se esperava que houvesse", diz Veríssimo.
Para produzir tal mapa, ele e seus colegas usaram imagens do Landsat, o mesmo conjunto de satélites que fornece as imagens processadas pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para dar os dados anuais do desmatamento, mas numa escala mais detalhada. Isso permitiu enxergar áreas desmatadas menores que 6 hectares, algo que o processamento feito pelo Inpe não consegue distinguir. "Estamos dando um zoom nessas estradas, que são indicadores fortes de pressão humana", diz Veríssimo.
O estudo do Imazon aponta ainda que é a grilagem de terras quem dá as cartas na nova geografia da destruição.
Em São Félix do Xingu a pecuária ainda é importante, e ao longo da BR-163 ela começa a ganhar força. Mas há regiões como a do rio Iriri (PA) e Apuí (AM) onde a atividade produtiva não justifica o desmatamento. "A pecuária que se produz ali é de qualidade muito baixa", diz Veríssimo. "O sujeito ganha mais na poupança."
Segundo Veríssimo, a avidez para tomar posse de terras públicas é encarada como "investimento". A princípio, a grilagem não tem objetivo de produzir nada. O desmatamento de áreas extensas ajuda os grileiros a consolidar sua presença. "É mais especulativo do que produtivo", diz.

Derrubada ilegal, gado e soja campeiam na BR-163
Marcelo Leite
Enviado especial ao PA e MT
Há duas semanas, o governo afirmava que a taxa de desmatamento, então estimada em 24 mil km2, era uma vitória, pois indicaria a estabilização da destruição da floresta amazônica durante um ciclo de crescimento econômico. De posse dos dados reais, porém, o Greenpeace afirma que o número é alto demais, prova da inoperância do Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento -conhecido como Desmate- lançado com fanfarra pelo Planalto, um ano atrás.
"A gente quer é mais governo brasileiro na Amazônia", afirma Paulo Adario, 55, coordenador da campanha Amazônia da ONG, que já foi acusada de ser "tropa de choque do governo mundial". Ou seja, da suposta conspiração para internacionalizar a Amazônia.
Adario, um jornalista que madeireiros da região acreditam ser um engenheiro florestal, criticou a execução do plano a bordo do novo avião anfíbio do Greenpeace. Os adesivos da ONG foram retirados do hidroavião para este seu segundo vôo de longo alcance -ele fica baseado em Manaus e foi deslocado para Brasília para buscar sete jornalistas de quatro veículos (Folha, a agência Reuters, a Rede Globo e o site O Eco).
Além dos jornalistas, embarcaram três membros do Greenpeace: Adario, o piloto Fernando Bezerra e o engenheiro especialista em geoprocessamento Andrew Murchie (que, apesar do nome, é brasileiro). A meta do vôo no primeiro dia era a cidade de Novo Progresso (PA), pólo madeireiro de desmatamento na beira do trecho paraense não-pavimentado da rodovia BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA).
Antes disso, o aparelho sobrevoou a Fazenda Tanguro, em Querência (MT), do Grupo Amaggi (pertencente à família do governador mato-grossense, Blairo Maggi, mais conhecido como "rei da soja"). Quem duvida de que esse cultivo está contribuindo imediatamente para o desmatamento da Amazônia deveria embarcar num sobrevôo desses.
A relação imediata é óbvia, vista do alto. A maior parte dos pastos abertos antes de a soja chegar já virou lavoura, e a agricultura mecanizada parece avançar agora diretamente sobre essa mata de transição entre cerrado e floresta amazônica que deu nome ao Estado. É uma sucessão de desmatamentos recentes -de 2003 para cá- nos mais variados estágios: matas semiderrubadas, com estradas e pátios de madeireiros, campos com pilhas fumegantes de detritos, terra calcinada e já arada para receber soja ou sorgo.
Após pouso de uma hora para reabastecimento em Sinop (MT), numa das regiões pioneiras da soja do Centro-Oeste, o grupo acompanha a rodovia BR-163 em direção ao norte. O destino é o sul do Pará e sua floresta quase intocada há bem poucos anos.
Não mais. As duas centenas de quilômetros entre a fronteira MT/PA e a cidade de Novo Progresso, o entorno da BR-163 é um mar de áreas desmatadas. Em Novo Progresso, mesmo sem pousar é fácil perceber que só contam por ali duas atividades econômicas: gado e madeira. Com a soja que viceja mais para o sul, completam o trio infernal de commodities que está levando o desmatamento da Amazônia a níveis recordes.
Nem as áreas reservadas para índios escapam, embora grileiros e madeireiros sejam proibidos de entrar nelas. Elas sempre serviram de barreira ao avanço da fronteira agrícola. Não a Terra Indígena Baú, por exemplo, dos menkranotires, vizinha da BR-163. São dezenas de manchas de terra arrasada no chão, todas na casa das centenas ou milhares de hectares (cada hectare tem 100 m X 100 m, ou 10 mil m2).
O Brasil, que já é o maior exportador mundial de carne e de soja, logo poderá ser também o de madeira. Embora o mercado interno ainda seja o maior consumidor da madeira amazônica, sobretudo a construção civil do Sudeste, a fatia da exportação vem crescendo. Segundo dados do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), passou de 14% em 2000 para 36% em 2004.
A maior parte (40%) da madeira amazônica exportada vai para a União Européia. Individualmente, o maior importador são os Estados Unidos, com 31%, seguido da China, com 14%. Entre europeus, a França é campeã, com 11% do total. Mas o Brasil poderá perder mercado no Velho Continente, quando entrar em vigor legislação banindo importação de madeira não-certificada, extraída de forma predatória e ilegal.
Para Adario, do Greenpeace, o problema que aflige a Amazônia vem do modelo econômico brasileiro, não só da falta de fiscalização. Ou seja, o governo federal é esquizofrênico, na melhor das hipóteses: tenta manter um verniz verde na administração Lula, com Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente, ao mesmo tempo em que pisa fundo no acelerador do agronegócio.
Das 19 bases prioritárias do Ibama previstas no Plano Desmate, só 3 teriam sido efetivamente aparelhadas, segundo o relatório do Greenpeace. Uma delas é a de Alta Floresta (MT), cidade onde o grupo de jornalistas pernoitou. Às 8h locais de ontem (9h em Brasília), o Escritório Regional do Ibama estava deserto. Só a gaúcha Vânia Zamoner, funcionária de limpeza -que não recebe há quatro meses- estava sentada na porta, sem chave para entrar.
Às 8h25 chega o analista ambiental paranaense Mauro Vieira Baldini, 46, que explica tudo: no dia anterior, final do expediente, havia chegado um fax de Brasília avisando de uma paralisação de servidores federais. Alguém do grupo explica que está interessado em saber como está a situação de quem está na ponta do combate ao desmatamento. Baldini: "A ponta está grossa e cheia de caco de vidro". São três funcionários efetivos no escritório regional, para cobrir uma área de 56 mil km2.
Quando há ações especiais, uma equipe de mais oito fiscais pode ser deslocada para Alta Floresta. Baldini diz que já se nota certa inibição dos madeireiros, diante das ações do Desmate, mas que o Ibama sempre chega atrasado.
O colunista Marcelo Leite e o repórter fotográfico Ayrton Vignola viajaram de Brasília para Novo Progresso, Alta Floresta e Vila Rica a convite do Greenpeace

FSP, 19/05/2005, Ciência, p. A19-A20

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