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Desafio agora é restaurar mata atlântica, diz biólogo

FSP, Cotidiano, p. C8
Autor: CAPOBIANCO, João Paulo Ribeiro
28 de mai de 2006

"Desafio agora é restaurar mata atlântica", diz biólogo
Para secretário do Ministério do Meio Ambiente, devastação está "estabilizada'
Estudo preliminar feito pela SOS Mata Atlântica e pelo Inpe aponta queda de 71% na taxa de desmatamento no período de 2000 a 2005

AFRA BALAZINA
DA REPORTAGEM LOCAL

O biólogo João Paulo Capobianco diz que, ao contrário de muitos de seus colegas, não é um catastrofista. Ele mantém o otimismo em relação à mata atlântica, que já teve 93% de sua área desmatada. Para ele, o processo de destruição dessa floresta está estabilizando e, agora, o maior desafio é recuperá-la e interligar seus fragmentos: "Em algumas regiões ainda há áreas extensas, mas no interior está muito fragmentada e a interligação desses fragmentos é essencial".

FOLHA - Há o que comemorar neste Dia da Mata Atlântica [a data é celebrada em 27 de maio]?

João Paulo Capobianco - Acho que tivemos muitas conquistas. Não comungo com a estratégia de vários que militam na área ambientalista comigo, que é de sempre ir para o catastrofismo. Se pegarmos a década de 1990, a destruição da mata atlântica era algo que ocorria numa velocidade impressionante. Mas nos últimos dez anos, o processo de destruição tem diminuído radicalmente.

FOLHA - O último levantamento, preliminar, mostra uma redução de 71% na taxa de desmatamento...

Capobianco - O que está acontecendo é o seguinte: no início do mapeamento havia desmatamento no Brasil inteiro. São Paulo teve desmatamentos gravíssimos, e isso não acontece mais. Há áreas críticas, sempre associadas a problemas econômicos. Por exemplo, o sul da Bahia, que tem desmatamento em razão do problema do cacau. O cacau é amigo da mata atlântica, depende da floresta para se desenvolver. Com a crise do cacau houve um boom de desmatamento, mas foi contido. Queriam transformar áreas de cacau em pastagens.

FOLHA - Como a lei da mata atlântica, que deve ser votada em breve, contribuirá?

Capobianco - Do ponto de vista da proteção não acrescenta muito, porque nós temos o decreto 750, em vigor desde 1993. O que a lei vai trazer na verdade é mais estabilidade, porque todo decreto é frágil. O que ela traz de novo? Permite instrumentos de penalização e criminalização, multas. E a maior inovação é que cria instrumentos de apoio aos proprietários de áreas de mata atlântica. Quem tem propriedade que possui mais floresta do que a lei obriga vai poder oferecê-la a quem não têm a área exigida. Ou seja, quem tem mata atlântica vai ter uma fonte de renda.

FOLHA - A maioria dos brasileiros vive em áreas onde originalmente havia mata atlântica. Mas as pessoas parecem mais preocupadas com a Amazônia e o Pantanal...

Capobianco - Divulgamos uma pesquisa sobre o que o brasileiro pensa sobre o ambiente, e claramente a Amazônia é o grande mote. Em segundo vem a mata atlântica. O que acontece é que o problema da Amazônia é monumental, ela perde 20 mil km2 por ano e a mídia pega isso muito forte. Do ponto de vista de processo de destruição, a mata atlântica caminha para a estabilização. O desafio agora é a sua recuperação.

FOLHA - E como fazer isso?

Capobianco - Precisamos interligar fragmentos. O problema da mata atlântica é a fragmentação. Em algumas regiões ainda há áreas extensas, mas no interior está muito fragmentada e a interligação desses fragmentos é essencial. A lei dá estímulo ao proprietário privado.

FOLHA - O governo tem alguma meta para essa recuperação?

Capobianco - Foi feito em 1999 o mapeamento em todos os biomas onde estavam as áreas críticas, que precisávamos proteger. Com base nisso, foram implementadas políticas públicas. Criamos no Paraná, por exemplo, sete novas unidades de conservação de araucária. A idéia é tenhamos, a partir do fim do ano, uma estratégia mais bem organizada, porque até agora a mobilização foi de proteger o que resta. Acho que já podemos nos dar ao luxo, digamos assim, de recuperar áreas para formar maciços.

FOLHA - Você está satisfeito com o que o governo tem feito em relação à mata atlântica?

Capobianco - Acho que ainda temos problemas, como a manutenção e gestão das unidades de conservação -parques nacionais, estações e reservas ecológicas. Para enfrentar isso, estamos trabalhando. Se você perguntar "está bom?" vou dizer "não". Mas então estamos perdidos? Não, não estamos.

Perfil

Ambientalista fundou a SOS Mata Atlântica

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O biólogo João Paulo Ribeiro Capobianco, 49, é o atual secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, comandado pela senadora petista Marina Silva. Ele também é fotógrafo e ambientalista especializado em educação ambiental pela Universidade de Brasília.
Antes de entrar no governo federal, militou em movimentos e ONGs ambientalistas. Em 86, foi um dos idealizadores da Fundação SOS Mata Atlântica, da qual foi superintendente, e ajudou a fundar a Associação em Defesa da Juréia e o Instituto Socioambiental (ISA).

FSP, 28/05/2006, Cotidiano, p. C8

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