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Conservação de área privada em SP surpreende cientistas

FSP, Ciência+Saúde, p. C12-C13
15 de Set de 2013

Conservação de área privada em SP surpreende cientistas
Terra de usinas da Votorantim tem espécies raras como o macaco muriqui
Região a duas horas da capital estava fechada para expedições desde 1954; empresa criará reserva com Estado

RAFAEL GARCIA ENVIADO ESPECIAL A MIRACATU (SP)

Quando o ecólogo Ricardo Rodrigues visitou o entorno das hidrelétricas da Votorantim no rio Juquiá, duas horas a sudoeste de São Paulo, pensava que tudo o que havia para ver lá era uma vegetação já degradada, sem interesse de conservação. O que encontrou, porém, foi uma das áreas mais biodiversas de toda a mata atlântica.

Rodrigues, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP, foi um dos primeiros biólogos a explorarem a região em mais de meio século. A área de 35 mil hectares, adquirida pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes na década de 1950, estava fechada a expedições desde então.

Sua única função até hoje era proteger as nascentes na bacia do rio --sem elas, as represas das usinas ressecariam e não poderiam enviar energia para a fábrica da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio), que a Votorantim mantém perto de Sorocaba.

"A empresa nos procurou para discutir o que fazer com a área, e a proposta inicial era promover o manejo sustentável de espécies nativas para aproveitamento econômico", conta Rodrigues.

Depois de o cientista fazer um levantamento da diversidade vegetal na região em abril com 25 alunos de pós-graduação, porém, a ideia mudou. "Agora, a prioridade é mesmo a conservação, e só uma parte deve ser voltada a manejo sustentável." A Votorantim já havia assinado no ano passado um protocolo de intenções perante o governo do Estado, prometendo transformar a área numa unidade de conservação particular.

O território, que deverá receber o nome de Reserva Votorantim, surpreendeu o grupo de Rodrigues, que coletou 2.000 amostras de plantas e já identificou mil espécies diferentes na região. Uma das plantas presentes é o palmito-juçara, hoje uma espécie em perigo em razão da exploração predatória.

Palmiteiros e caçadores têm mais dificuldade para entrar em áreas da empresa do que em parques estaduais, que não dispõem de vigilância eficaz. Qualquer um que tenta se aproximar das estradas que dão acesso às usinas a partir da BR-116 esbarra em portões com câmeras e seguranças que rondam o local periodicamente. Em áreas mais remotas da reserva, é mais difícil flagrar intrusos, mas a empresa está implementando agora monitoramento por satélite e poderá alertar a polícia inclusive em pontos de parques ao redor da região.

PROBLEMA E SOLUÇÃO

Antes de decidir transformar a área da bacia do rio-Juquiá em reserva particular, a empresa cogitou doar o território ao Estado. Esse já tinha sido o destino do Parque Jurupará, ao norte, que já pertenceu à Votorantim.

"Mas, afinal, imaginamos que, se doássemos a área, estaríamos entregando um problema para o Estado, não uma solução", diz David Canassa, gerente de sustentabilidade da empresa.

Otávio Carneiro de Rezende, presidente da Votorantim Energia, resume a questão de uma outra forma. "Onde não existe um grande grupo preservando uma área, ela se degrada", diz. "O único modo de preservar o ambiente é com dinheiro."

Para outros biólogos que visitaram a região no último ano, após a Votorantim ter aberto a área para atividade acadêmica, o destaque da nova reserva é sua posição.

Situada entre os parques no Vale do Ribeira e aqueles no litoral sul do Estado, ela é uma das últimas peças necessárias para interligar dois dois maiores fragmentos de mata atlântica do país e ampliar a maior área contínua de preservação do bioma.

Maurício Talebi, bioantropólogo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) especialista em macacos, diz ter certeza que a área é habitada pelo muriqui --o maior primata das Américas, também uma espécie em perigo.

Além de ser próxima ao Parque Estadual Carlos Botelho, que abriga a maior população do animal, a reserva da Votorantim tem as árvores em que o macaco dorme e se alimenta. "Garanto que achar esses bichos aqui é só questão de tempo", diz Talebi.

Apesar do entusiasmo com as atividades de pesquisa, a empresa mantém os planos de fazer na reserva manejo sustentável de palmito, viveiros de mudas e coletas de sementes para integrar a população local, onde for possível.

ONGs apoiam reserva, mas atacam usina
Ambientalistas criticam projeto de hidrelétrica da Votorantim na divisa com PR, onde há cavernas e quilombolas
Empresa está prestes a conseguir licença para construir represa de Tijuco Alto, processo que se iniciou em 1989

DO ENVIADO A MIRACATU (SP)

A ação da Votorantim no rio Juquiá atraiu elogios de ONGS ambientalistas, e uma delas, a Conservação Internacional, está negociando uma parceria no projeto. As duas organizações mais atuantes no Vale do Ribeira, porém, criticam a intenção da empresa de construir uma hidrelétrica em Tijuco Alto, a oeste, na divisa com o Paraná.
"Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa", diz Márcia Hirota, diretora da SOS Mata Atlântica. "O fato de eles estarem preservando essa área rica em diversidade é algo que deve ser valorizado e reconhecido. Mas em Tijuco Alto nós já nos posicionamos contra o projeto da usina, em razão do patrimônio cultural das comunidades que vivem lá e do o patrimônio espeleológico."
A existência de uma caverna na região, a Gruta do Rocha, e a presença de terras quilombolas demarcadas rio acima foram parte daquilo que atrasou o processo de licenciamento da usina, que se iniciou em 1989. Após concluir audiências públicas que convenceram moradores da região sobre benefícios do projeto (a contenção de enchentes na região) e de projetar uma obra de bloqueio para evitar inundar a caverna, a empresa aguarda agora uma resposta final do Ibama sobre o licenciamento.
As mudanças de projeto, porém, não persuadiram todos os ambientalistas.
"Aquela região tem um solo muito poroso, e ainda temos dúvida sobre se essa proteção é suficiente para não inundar a caverna", diz Nilto Tatto, coordenador do programa Vale do Ribeira no Instituto Socioambiental.
Lideranças quilombolas da região, além disso, questionam a legitimidade das audiências públicas.
Osvaldo dos Santos, representante quilombola no Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo) mora no Quilombo de Porto Velho, perto da área de alagamento, e promete protestos caso o Ibama libere a usina. "A gente não abre mão de poder navegar aqui com as canoas", diz. Segundo Santos, o maior temor é o de que Tijuco Alto abra caminho para outras três usinas que o governo planeja conceder no Ribeira. (RG)

FSP, 15/09/2013, Ciência+Saúde, p. C12-C13

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/129070-conservacao-de-are…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/129072-ongs-apoiam-reserv…

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