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Brasil pode ter de recorrer à opção nuclear, diz Krug

FSP, Ciência, p. A13
Autor: KRUG, Thelma
04 de jun de 2007

Brasil pode ter de recorrer à opção nuclear, diz Krug
Secretária nacional de Mudanças Climáticas sugere que apelar para carvão seria pior
Para cientista, se expansão mais rápida do sistema hidrelétrico não se mostrar viável, país pode ter de tomar "decisões difíceis"

Marta Salomon
Da Sucursal de Brasília

Encarregada de coordenar um plano nacional para enfrentar o aquecimento global, a nova secretária de Mudanças Climáticas, Thelma Krug, assume o cargo do Ministério do Meio Ambiente disposta a levar adiante debates polêmicos, como a energia nuclear. A retomada das obras da usina de Angra 3 é condenada pela chefe, a ministra Marina Silva.
"Vamos ter de encarar, botar isso na balança. Entre uma [usina] nuclear, uma térmica a carvão e você não ter um esforço de mitigação [da emissão de gases de efeito estufa] à altura, vamos ter de colocar tudo isso na mesa. Serão decisões muito difíceis", prevê Krug.
Quando foi convidada, já na condição vice-presidente do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), Thelma Krug perguntou à ministra qual seria o nível mínimo de desmatamento a que o Brasil poderia chegar sem conter o desenvolvimento do país. A pergunta ficou sem resposta, conta em entrevista à Folha. A secretária não acredita em "desmatamento zero" por ora.
Krug avalia que o plano para enfrentar as mudanças climáticas ainda deverá consumir dois anos de estudos no governo. Antes disso, ao lado de outras medidas destinadas a reduzir a emissão de gases de efeito estufa, a secretária defende o zoneamento da expansão do cultivo de cana de açúcar, destinado à produção de etanol.
As mudanças climáticas são "um ponto de agenda que não vai se perder nunca mais. Até porque os eventos externos previstos com maior periodicidade, maior freqüência, não vão deixar ninguém esquecer", avalia.
Krug atribui a pressões da Índia, país que o presidente Lula visita, o esvaziamento da proposta brasileira de criar um fundo com dinheiro de países ricos para recompensar países em desenvolvimento pela redução do desmatamento. Leia abaixo entrevista com Krug.

"Vamos ter de encarar, botar isso na balança", afirma secretária

Entrevista: Thelma Krug

Folha - A proposta feita por George Bush às vésperas da reunião dos países mais industrializados muda o debate sobre o aquecimento global?

Thelma Krug - Na verdade, os Estados Unidos entram de alguma forma para uma discussão, ainda que sem metas quantitativas de redução de emissões. Acho que a proposta tem mérito no sentido de indicar a questão da transferência de tecnologias. Obviamente, eu a vejo conflitiva com a abordagem da União Européia de estabelecer suas metas de emissão de gases [do efeito estufa].

Folha - Está mesmo descartada a proposta brasileira de recompensar países em desenvolvimento que reduzirem o desmatamento? Qual seria a alternativa?

Krug - O Brasil fez uma oferta para começar a reduzir as emissões já, mas reconheceu que muitos países não teriam essa capacidade, precisariam de tecnologia. Houve reação. Da Índia, particularmente, que quer ser compensada por esforços passados. A estabilização do estoque de carbono pode até permitir derrubar florestas e substituí-las por outro tipo de plantação. Países africanos, com baixa cobertura florestal, também se sentiram excluídos. No mês passado, numa reunião preparatória do encontro de ministros, em Bali [Indonésia], o documento final foi muito conservador, esperávamos algo mais agressivo. Mas há sinais de que vários elementos da proposta do Brasil serão incluídos, como a criação de uma linha de referência de emissões.

Folha - A ministra Marina Silva articula uma resposta do governo ao aquecimento global. Essa agenda tem caminhado?

Krug - A Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental foi criada para desenvolver um plano de ação. Esse plano vai envolver vários ministérios. Particularmente o de Ciência e Tecnologia, que já faz esforço no sentido de aperfeiçoar cenários futuros, impactos e vulnerabilidades. Isso permitirá que ações específicas sejam desenhadas. Hoje, há um quadro bastante geral ainda, você não sabe se vai haver aumento do nível do mar de dois, três, quatro metros...

Folha - Em quanto tempo esse plano ficará pronto?

Krug - Dois anos, não imaginando que a gente vá ficar parada nesses dois anos. Haverá continuidade na redução do desmatamento e também a possibilidade de desenvolver atividades de pequena escala de reflorestamento por comunidades de baixa renda, por exemplo.

Folha - Nesse plano de ação, o que seria mais urgente?

Krug - Nesse primeiro momento, tratar a mitigação é algo mais factível, no sentido de reduzir emissões. Já há um conjunto grande de ações: reduzir desmatamento, usar mistura diferente na gasolina, no biodiesel, melhorar a eficiência energética, enfim.

Folha - A senhora diria que o momento inicial de quase pânico com os cenários do aquecimento global passou, e o tema perdeu prioridade?

Krug - Esse é um ponto de agenda que não vai se perder nunca mais. Até porque os eventos externos previstos com maior periodicidade, maior freqüência, não vão deixar ninguém esquecer. Ondas de calor, de frio, degelo.

Folha - A senhora mencionou a articulação entre ministérios, mas as divergências são notáveis. No debate das fontes de energia para evitar uma eventual crise no abastecimento a partir de 2012, o Ministério de Minas e Energia sinaliza com a contratação de mais energia térmica a carvão caso o licenciamento ambiental das hidrelétricas do Madeira não saia até meados de junho. Gostaria também de ouvir sua opinião sobre as usinas nucleares.

Krug - Eu começaria pela minha visão da [energia] nuclear, que enfrenta uma resistência natural. Mas estamos discutindo a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa, o que vai requerer um esforço hercúleo. Obviamente, dentro dessa discussão, não se descarta o papel das nucleares. Vamos ter de nos confrontar com um dilema. O não-uso de formas energéticas com que não se concorda neste momento poderia acarretar impactos muito mais perniciosos no futuro. Se você falar em estabilizar [emissões] em níveis mais baixos, é inevitável. Vamos ter de encarar, botar isso na balança. Entre optar por uma usina nuclear, uma térmica a carvão e você não ter um esforço de mitigação à altura, vamos ter de colocar tudo isso na mesa. Serão decisões muito difíceis.

Folha - E como a senhora vê a possibilidade de contratar mais usinas térmicas a carvão, como acena o Ministério de Minas e Energia, caso não saia a licença para as hidrelétricas do Madeira?

Krug - Esse é um ponto a ver. Enquanto não sair um parecer do Ibama, seria extremamente especulativo falar. O carvão, para o Brasil, seria realmente mais complicado.

Folha - O etanol é tão importante quanto se propala?

Krug - O etanol brasileiro é. O IPCC [Painel do Clima da ONU] indica a produção de etanol no Brasil como um modelo, difícil de ser duplicado. Não é só a questão de substituir combustível fóssil por biocombustível. Tudo depende do processo de produção: se você gera uma série de resíduos e, por meio deles, produz gases de efeito estufa com poder de aquecimento até 23 vezes maior do que o dióxido de carbono, é como trocar seis por meia dúzia. O que se deseja é que o avanço do plantio de cana não desmate mais. Uma das iniciativas da secretaria é mapear todas as áreas degradadas e caminhar no sentido de um zoneamento do plantio.

Folha - É verdade que a senhora já defendeu o direito de os países em desenvolvimento desmatarem, como fizeram os desenvolvidos?

Krug - Isso nunca! O que eu digo é que não se pode perder do contexto da mudança climática as emissões passadas. Considerar emissões a partir de 1970 é algo que massacra países em desenvolvimento. Uma coisa adicional que eu digo é que não se pode imaginar desmatamento zero. Todos nós temos o direito de buscar o desenvolvimento e reduzir impactos no meio ambiente. Esse é o papel do Estado. Antes de assumir, eu perguntei à ministra: até quanto [de desmatamento por ano] a gente vai poder chegar para assegurar os nossos planos de desenvolvimento: 5 mil, 10 mil quilômetros quadrados? Há três anos, eram desmatados 28 mil quilômetros quadrados, agora estamos a 14 mil.

Folha - E qual foi a resposta?

Krug - Não sabemos. Precisamos realmente sentar e projetar obras de infra-estrutura.

FSP, 04/06/2007, Ciência, p. A13

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