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Brasil e China se aliam na politica do CO2

FSP, Ciencia, p.A22
11 de Dez de 2004

Países apresentam juntos relatórios de emissões de gases-estufa em reunião da ONU e defendem o Protocolo de Kyoto
Brasil e China se aliam na política do CO2
Cristina Amorim
Enviada especial a Buenos Aires
Brasil e China apresentaram ontem para a comunidade internacional, durante a COP-10 (10ª Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU), que acontece na Argentina, seus inventários nacionais de emissões de gases poluentes. A divulgação conjunta sinaliza uma concordância política entre dois dos principais atores -entre os países em desenvolvimento- dos acordos ambientais válidos no mundo industrializado, entre eles o Protocolo de Kyoto (que, a rigor, entra em vigor no dia 16 de fevereiro de 2005).
"Existe um estreito diálogo entre Brasil e China tendo em vista interesses bilaterais, para buscar uma articulação conjunta e realçar o compromisso dos países do Grupo dos 77 mais a China", disse à Folha o diretor do Departamento de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, Everton Vargas.
O protocolo prevê que as nações ricas participantes reduzam o escopo de gases-estufa na atmosfera e atinjam os índices registrados em 1990 até 2010. Após essa data, inicia-se o chamada segundo período do tratado, quando os países em desenvolvimento -como Brasil e China- também precisarão apresentar medidas para combater a mudança climática. Um dos objetivos discutidos -e esperado pelos países ricos- é o estabelecimento de metas de redução para todas as nações no acordo, inclusive as pobres.
Para o diplomata brasileiro, a responsabilidade sobre as emissões deve seguir um quadro histórico, ou seja, quem usou dos recursos naturais por mais tempo para crescer paga mais caro pela conta ambiental. "O G-77 mais China não deseja metas de redução de emissão", afirma Vargas. "Não se pode tomar [taxas de] emissão de forma isolada. Nosso índice é reflexo de um processo de industrialização que tem só 40 anos. No caso da China, são 20."
Reduzir os gases-estufa, no caso do Brasil, tem ligação direta com dois pontos sensíveis no panorama econômico-ambiental: o desmatamento da Amazônia, impulsionado especialmente pelo avanço agropecuário e a grilagem (o mau uso da terra respondeu por 776 milhões de gás carbônico (CO2) jogado na atmosfera pelo país em 1994), e o rebanho de gado, o maior do mundo -e grande emissor de metano pela flatulência dos animais.
Promessas
Durante a apresentação do inventário, o secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, expôs os principais vilões da floresta, além de mostrar alguns itens do Plano de Ação Contra o Desmatamento, como o sistema de monitoramento em tempo real -que usa satélites sino-brasileiros. "Asseguro que, na próxima COP, daremos boas novas sobre a Amazônia."
Estratégia similar seguiu a delegação chinesa, que mostrou um exame detalhado dos pontos vulneráveis do país, como a dependência de combustíveis fósseis para a geração de energia, a distribuição desigual de água pelo território e as diferenças socioeconômicas entre sua população de 1,2 bilhão de pessoas.
Entre esses dados, foram mostrados os números de emissão: 2,6 bilhões de toneladas de CO2, dos quais 76,5% vêm da geração de energia. Atividades agrícolas e o tratamento do lixo respondem a 23,5%. A queima de carvão é ainda a principal fonte de calor para os chineses e, em 2003, correspondeu a 67% da matriz energética do país.
Fóssil do dia
Antes que os inventários de emissões da China e do Brasil fossem divulgados, um grupo de ONGs divulgou seus vencedores do dia do prêmio invertido "Fóssil do Dia", para as nações que atrapalham as negociações ou deixam a desejar em suas políticas ambientais.
A surpresa foi a Inglaterra, que conquistou o terceiro lugar, por tentar convencer a União Européia de que os Estados Unidos (que conquistaram tradicionalmente o primeiro lugar do prêmio) têm a intenção de voltar à mesa de negociações climáticas.
Os EUA são o principal opositor ao Protocolo de Kyoto. A questão da mudança climática é um ponto de divergência entre o presidente americano, George W. Bush, e o premiê britânico, Tony Blair.
O segundo lugar foi dados aos Emirados Árabes, principalmente por sua política pró-petrolífera.

País quer pequeno produtor em comércio de crédito de carbono
O Brasil assinou, ontem, durante a COP-10 (10ª Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU), na Argentina, documentos de entendimento com Holanda, Itália e Áustria para estimular projetos de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), uma forma de os países ricos compensarem suas emissões de gases-estufa adquirindo cotas "limpas" em nações em desenvolvimento. O MDL está contemplado no Protocolo de Kyoto, acordo global que prevê a redução a emissão de gases de efeito estufa, e visa especialmente projetos de desenvolvimento sustentável, com combate à pobreza e integração social.
O objetivo principal do Brasil é criar programas de manutenção de mata e reflorestamento para serem utilizados como sumidouros de carbono, especialmente os voltados à agricultura familiar. Para atingir uma quantidade mínima para captar o interesse de empresas estrangeiras, usando o modelo agroflorestal, o governo diz pretender unir pequenos projetos, oferecendo tecnologia, conhecimento técnico na área e uma ligação com os compradores.
Trazer os EUA de volta às negociações de um acordo para depois que Kyoto expirar, em 2012, tem sido foco dos primeiros dias do encontro. Raúl Estrada, negociador-chefe argentino, já ganhou o apoio da UE para organizar dois seminários em 2005 que deverão discutir como expandir as formas de reduzir emissões. (CAM)

FSP, 11/12/2004, p. A22

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