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Brasil comeca a mover mercado de carbono

FSP, Ciencia, p.A16
16 de fev de 2005

Brasil começa a mover mercado de carbono
Aterro sanitário no Rio de Janeiro é primeiro projeto certificado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
Da sucursal do Rio
Da redação
Da Folha Ribeirão
Com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, o mercado mundial de carbono começa a funcionar. No Brasil, projetos de geração de certificados de redução de emissões pelo MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) já recebem investimento.
O primeiro projeto certificado de MDL do mundo é o programa NovaGerar, do aterro sanitário de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense (RJ).
O contrato foi firmado em 2004 pela construtora S.A. Paulista e a financiadora Ecosecurities com o Banco Mundial, com investimentos do governo da Holanda. As bases são do protocolo, que prevê a compra de cotas de redução de emissão de países em desenvolvimento por países desenvolvidos.
O volume de investimentos não foi divulgado, mas a S.A. Paulista e o Banco Mundial confirmaram que os valores seguem o preço de mercado: entre US$ 4 e US$ 6 por tonelada equivalente de carbono que deixa de ser emitida.
Por enquanto, o crédito recebido é para reduzir 2.000 toneladas de metano, e a capacidade total do aterro é de 4.000 toneladas de gás por dia. Até 2012, a meta da empresa é conseguir R$ 35 milhões. Uma tonelada de metano equivale a aproximadamente 21 toneladas de carbono.
O gás metano é drenado e aproveitado como combustível na estação de tratamento de chorume (líquido extraído do lixo armazenado). Hoje, a energia produzida é suficiente para manter o sistema de transformação do lixo. Quando atingir sua capacidade total, a energia deverá ser suficiente para abastecer os todos os prédios públicos de Nova Iguaçu.
O NovaGerar é apenas um dos oito projetos de MDL que estão em fase de implantação no país. "O mercado está mais aquecido", afirma Mario Monzoni, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
Sucesso de vendas
"Todo projeto sólido -de empresas grandes e com garantias para dar- já está vendido", afirma Ricardo Esparta diretor da consultoria EcoInvest. "A gente fechava negócios entre US$ 4,5 e US$ 5 a tonelada evitada de CO2. Agora conseguimos ofertas em torno de US$ 6 e já vimos valores maiores", afirmou.
O Banco Mundial administra fundos de cerca de US$ 1 bilhão em compra de crédito de carbono. "Vemos o potencial do Brasil de ser um dos grandes fornecedores de créditos", disse Alexandre Kossoy, gerente de projetos e especialista financeiro do Banco Mundial. Índia, China e México são os maiores concorrentes. Para Kossoy, o mercado de carbono não vai deixar de existir e, no futuro, países como EUA e Austrália devem aderir ao protocolo.
O otimismo é compartilhado por Monzoni: "Kyoto é um mercado. Nada impede que outros sejam criados. O céu é o limite. Se a ciência chegou à conclusão de que o planeta está aquecendo, mais cedo ou mais tarde a gente vai ter que resolver o problema".
"Cada país tem o seu setor de competitividade. No Brasil seria a área de aterros sanitários, por exemplo", disse Kossoy. A participação do poder público, porém, pode representar um entrave para os projetos com aterros.
Cana
Também de olho no MDL estão as usinas da região de Ribeirão Preto, interior paulista, que produzem energia limpa a partir do bagaço de cana-de-açúcar.
É o caso da usina São Francisco, de Sertãozinho, que deverá receber cerca de US$ 195 mil (R$ 503 mil) por ano com a venda de cerca de 40 mil toneladas anuais de créditos de carbono, segundo o diretor industrial da empresa Jairo Menesis Balbo, 52. A venda dos créditos, porém, ainda está em negociação. A usina foi escolhida pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), como modelo de MDL.
Os créditos de carbono das usinas Santa Elisa, Moema e Vale do Rosário já têm destino certo: o governo sueco. Segundo contrato assinado no ano passado, as três usinas estimam lucrar juntas cerca de US$ 700 mil (R$ 1,8 milhão) por ano com a venda de 1 milhão de tonelada de crédito carbono ao longo de sete anos para a Suécia.
Para Marcelo Junqueira, diretor geral da Econergy, empresa de consultoria especializada no setor, a comercialização de créditos de carbono deverá aumentar o faturamento de venda de energia das usinas em 7%.
A usina Mandu, de Guaíra, também busca negociar seus créditos de carbono, que deverão ser gerados com ampliação da capacidade da empresa de cogeração de energia elétrica usando bagaço.(Adriana Chaves, Constança Tatsch e Adriana Alves)

FSP, 16/02/2005, p.A16

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