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15 de Jan de 2026
Asfaltamento da BR-319 vai romper isolamento de vírus e bactérias perigosas, alertam cientistas
Cientistas sequenciaram amostras de solo coletadas entre os rios Madeira e Purus, no Amazonas
Nota técnica alerta para presença de organismos 'altamente especializados, enriquecidos em genes de patogenicidade e resistência antimicrobiana'
15/01/2025
Macos Hermanson
O asfaltamento da BR-319, rodovia que liga Porto Velho a Manaus, pode botar a população brasileira em contato com linhagens isoladas de vírus e bactérias que possuem potencial patogênico relevante, dizem cientistas em nota técnica publicada nesta segunda-feira (12).
Baseada no sequenciamento genômico de amostras de solo ao longo da rodovia, a pesquisa alerta que a região de floresta amazônica abriga reservatórios evolutivamente isolados de "matéria escura microbiana", ou seja, de microorganismos antes não descritos.
Segundo os pesquisadores, esses reservatórios são caracterizados por elevada diversidade e pela ocorrência de genes associados à virulência e à capacidade de causar doenças.
A presença humana vetorizada pelo asfaltamento da rodovia poderia romper o isolamento dos microorganismos, dizem, "configurando assim riscos substanciais à saúde pública e à segurança biológica em escala local, regional e global".
Procurado pela reportagem para comentar o alerta dos cientistas, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima não se manifestou.
O governo Lula defende o asfaltamento da BR-319. Em julho do ano passado, os ministros Renan Filho (Transportes) e Marina Silva (Ambiente) chegaram a um acordo inédito para elaborar um plano socioambiental que viabilize a pavimentação da estrada.
Ao mesmo tempo, medida provisória aprovada na Câmara dos Deputados em dezembro contém uma brecha para autorizar a obra em até 90 dias.
A nota publicada nesta segunda-feira se baseia em pesquisa financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pelas fundações de apoio à pesquisa de São Paulo e Amazonas -Fapesp e Fapeam- desde 2023. Dezoito pesquisadores de 13 diferentes instituições de pesquisa, como USP (Universidade de São Paulo), Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei), assinam o material.
"Vimos necessidade de compartilhar os resultados e emitir um alerta imediato [antes da publicação em periódicos]", diz Lucas Ferrante, biólogo e pesquisador da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
A nota foi publicada pelo centros de pesquisa Qualigov e CBioClima (Centro de Estudos em Biodiversidade e Mudanças Climáticas) e enviada ao Ministério Público Federal e ao Ministério do Meio Ambiente.
Para chegar aos resultados descritos no texto, os pesquisadores coletaram amostras de solo em 61 locais distintos ao longo de toda a rodovia BR-319 e em áreas alvo de projeto de mineração de potássio em Autazes (AM).
As amostras foram processadas na Ufam e no campus de Rio Claro da Unesp.
"A partir dessas amostras extraímos DNA ambiental [eDNA], que permite identificar bactérias e vírus sem precisar cultivá-los em laboratório", diz Ferrante. A técnica permite identificar genes associados à patogenicidade, ou seja, à capacidade de causar doenças -virulência, resistência antimicrobiana, secreção de toxinas e transferência horizontal de genes, por exemplo.
Segundo os pesquisadores, esses características foram encontradas com maior frequência nas áreas de floresta primária localizadas de 2 a 5 quilômetros de distância do chamado trecho do meio da rodovia. No coração da amazônia, ele fica intransitável em parte do ano devido a chuvas.
Os cientistas apontam para o resultado do levantamento e argumentam que a região amazônica carece de "capacidade institucional, laboratorial e epidemiológica" para detectar e conter precocemente a emergência de novos agentes infecciosos. Por isso, recomendam que a rodovia não seja asfaltada.
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