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Árvore na Amazônia bebe água pelas folhas

FSP, Ciência, p.A11
13 de nov de 2004

Resposta das plantas à seca foi observada em simulação de mega-El Niño realizada no Pará, encerrada em agosto
Árvore na Amazônia bebe água pelas folhas
Cláudio Ângelo
Enviado especial a Belterra (PA)
Uma equipe internacional de cientistas trabalhando no Pará fez uma descoberta que desafia os livros de biologia. Um experimento realizado por eles durante cinco anos mostrou que, sob condições severas de seca, as árvores da Amazônia absorvem água da chuva pelas folhas.
Essa esquisitice fisiológica foi revelada pelo Seca-Floresta, um experimento idealizado por pesquisadores do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em Belém) que transformou uma área de 2 hectares da Flona (Floresta Nacional) do Tapajós, no município de Belterra, num laboratório a céu aberto para estudar os efeitos da mudança climática global sobre a Amazônia.
Do fim de 1999 a 2004, parte da área do experimento foi submetida a uma seca artificial, na qual 50% da água das chuvas era impedida de chegar ao solo (veja o quadro abaixo). A idéia era simular um mega-El Niño, uma das conseqüências prováveis do efeito estufa, para saber em que ponto a chamada floresta ombrófila densa (a selva equatorial amazônica típica) passava a se transformar numa savana, ou cerrado.
Em agosto deste ano, os quase 6.000 painéis plásticos que cobriam um bloco de 100 metros por 100 metros de floresta foram retirados, para permitir que a mata se recomponha. Uma caminhada por essa área revela que algo mudou: a mata que passou sede está mais baixa e menos fechada do que a do bloco vizinho.
"Depois de cinco anos a floresta chegou a um novo equilíbrio", conta Nepstad. "Ela reduziu a altura média e o número de camadas de folhas", continua.
Do alto das torres de observação e medição que se espicham sobre o dossel, a 30 metros de altura, grandes árvores mortas pontilham de um cinza-esbranquiçado a paisagem verde-escura.
"Tivemos 9% de mortalidade das árvores grandes, maiores que 30 centímetros de diâmetro", sentencia o engenheiro florestal Paulo Brando, 24, coordenador do experimento. "Essa foi a maior surpresa para nós, porque indica que a mata deu um passo na direção de virar um cerrado", conta o ecólogo Daniel Nepstad, do Ipam e do WHRC (Woods Hole Research Center), nos EUA, que criou o Seca-Floresta juntamente com o biólogo Paulo Moutinho, também do Ipam.
Raízes profundas
Os pesquisadores ainda não têm uma idéia clara das razões da mortalidade das árvores maiores. Segundo Brando, o fenômeno provavelmente está ligado à distribuição da água em partes profundas do solo durante a seca.
"A estrutura do solo muda [com a profundidade]. Com a restrição [seca], você tem menos água disponível para as plantas", disse Brando à Folha. "Quando esgota essa água profunda, as árvores morrem em até dois meses", afirmou Nepstad.
Trabalhos anteriores do ecólogo mostraram que as raízes profundas, que chegam a até 11 metros, faziam as árvores maiores sobreviverem à seca na Amazônia. "Mas, a partir de um certo limiar de umidade, as raízes profundas não têm mais função", disse Brando. "As plantas menores conseguem utilizar de forma mais eficiente a água disponível nos dois primeiros metros."
Isso causou uma diferença no ritmo de regeneração da mata, com as chamadas árvores de sub-bosque (menores de 20 metros) tomando a dianteira.
Segunda via
A absorção da água das chuvas pelas folhas foi observada no Seca-Floresta pelos pesquisadores Rafael Oliveira, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), Marcelo Moreira, do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP), e Gina Cardinot, do Ipam e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
"Os dados ainda são preliminares, mas todas as evidências levam a essa conclusão", disse Nepstad. Os cientistas observaram, durante a seca, que as árvores tinham um aumento no fluxo de água no caule sem aumento correspondente de absorção pelas raízes.
Para testar a hipótese, os cientistas aplicaram sobre as folhas água pesada, um tipo de água que contém deutério, uma versão gorducha do hidrogênio que pode ter sua rota dentro da planta mais facilmente traçada. "O deutério aplicado nas folhas entrou nos galhos", disse Nepstad. Segundo o pesquisador, essa seria uma adaptação da mata, que, com o abastecimento pelo solo negado, buscou aproveitar ao máximo a chuva.

Floresta pode virar fonte de gás-estufa
Além da morte das árvores maiores na área submetida à exclusão de chuvas, os pesquisadores do Seca-Floresta verificaram uma redução na velocidade do crescimento das árvores.
Em tempos de Protocolo de Kyoto, isso significa que o serviço ambiental prestado pela Amazônia de retirar da atmosfera gás carbônico (CO2) e fixá-lo na forma de matéria vegetal pela fotossíntese pode ser reduzido -ou revertido- por fatores como o aquecimento global. O gás carbônico é o principal causador do efeito estufa.
Hoje a maioria dos cientistas acredita que a Amazônia seja um pequeno sorvedouro de carbono, ou seja, ela retira da atmosfera por fotossíntese (e transforma em folhas e madeira) mais gás carbônico do que emite por respiração. O quase consenso, para a média da floresta, é que essa absorção seja da ordem de meia tonelada de carbono por hectare -a Amazônia Legal tem cerca de 500 milhões de hectares.
A simulação de El Niño da Flona do Tapajós mostrou que, conjugadas, a mortalidade das árvores e a redução da velocidade de crescimento causaram uma perda de 10% da biomassa da floresta na área de 1 ha submetida à seca.
"Ela deixou de absorver 2 toneladas de carbono por ano", disse à Folha Paulo Brando, do Ipam. "Depois do primeiro ano de exclusão, o crescimento do caule caiu pela metade e continuou nesse ritmo até o último ano."
A Floresta Nacional do Tapajós, onde foi realizado o experimento, é uma das matas mais secas e sensíveis a variações climáticas da Amazônia. Dados obtidos ali não podem ser extrapolados para outras florestas da região, cujas condições de umidade, precipitação e solo são diferentes.
Mesmo assim, Daniel Nepstad montou um modelo em computador que tenta levar essas diferenças em conta para estimar quanto carbono toda a bacia amazônica deixaria de absorver caso estivesse sob as mesmas condições de falta d'água que a Flona do Tapajós. "Daria 100 milhões de toneladas quando você roda no modelo os dados climatológicos de 1996 a 2003", diz o ecólogo norte-americano. "Se a floresta está em equilíbrio, existe emissão. Se ela é um "sink" (sorvedouro), esse "sink" perde o efeito", conclui.
O começo de "savanização" observado no Seca-Floresta é assustadoramente consistente com um modelo desenvolvido por Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais), que prevê uma transformação das bordas da Amazônia em cerrado devido não ao aquecimento global, mas ao desmatamento.
Aborto
Outro estudo, conduzido por Brando e colegas do Ipam, da UFRJ, do WHRC e da Universidade Yale (EUA), mediu o efeito da seca sobre os mecanismos de reprodução das árvores.
O grupo mediu e pesou frutos da caferana (Coussarea racemosa), espécie de árvore mais comum naquela área da floresta, e descobriu que a parcela submetida à exclusão de água passou a produzir o que eles chamaram de "frutos abortivos".
"Em 2003 eles tinham metade do peso dos frutos do [bloco de] controle", disse Brando. "A época de dispersão também mudou." A aposta é que o aborto dos frutos tenha relação com a seca, o que poderia, a longo prazo, ampliar a mortalidade da floresta. (CA)

FSP, 13/11/2004, p. A11

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