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Amigos da onça

FSP, Folhinha, p. F4-F6
04 de dez de 2004

Amigos da onça
Conheça os jogos tradicionais que ainda divertem os índios do Brasil

Paula Medeiros
Free-Lance para a Folhinha

Há 15 anos, Maurício Lima pesquisa jogos de vários lugares do mundo. Esse é o trabalho dele. Um dia, percebeu que as brincadeiras dos índios brasileiros não eram muito conhecidas. Então resolveu ele mesmo ir a campo para saber como esses povos se divertem. Assim nasceu o projeto de pesquisa Jogos Indígenas do Brasil, que, entre outras curiosidades, encontrou o jogo da onça.
"A gente levantou um material muito rico, que mostra que a tradição dos jogos e das brincadeiras indígenas está viva no Brasil", diz Maurício. Para coordenar o trabalho, teve a ajuda de dois importantes pesquisadores, especialistas em jogos, Alex de Voogt, da Holanda, e Irving Finkel, de Londres.
Foram 55 dias de trabalho em visita a oito aldeias dos povos camaiurá, bororo, pareci, canela, ticuna, maioruna, manchineri e guarani, nos Estados do Mato Grosso, Maranhão, Amazonas, Acre e São Paulo. O trabalho todo levou um ano para ficar pronto.
Na pesquisa, a equipe identificou 45 tipos de jogos. Desses, dez são conhecidos também entre os índios norte-americanos: jogos de varetas, cama-de-gato, bilboquê, perna-de-pau, pião, zunidor, arma de pressão, arco-e-flecha, lançador de bolas e peteca.
A cama-de-gato e o pião foram as únicas brincadeiras encontradas em todas as aldeias visitadas pela equipe.
A pesquisa resultou em um documentário e uma série com 20 mil kits do jogo da onça, doada para várias escolas. Em 2005, será lançada uma coleção de jogos indígenas, que poderá ser encontrada em lojas de brinquedos.

Parecis praticam um tipo de boliche
Os pesquisadores descobriram que os índios bororos da aldeia Meruri brincam de "sucuri", em que se traça no chão um rastro e as crianças têm que andar sobre ele numa perna só.
Já os ticunas disputam campeonatos de bilboquês feitos com uma castanha da floresta, enquanto os mayorunas têm um tipo de bumerangue.
O tidymure, dos parecis, é praticado só por mulheres. No centro da aldeia é montada uma pista retangular. Em cada ponta é colocada uma vareta de bambu, que funciona como os pinos no boliche. No lugar da bola, é usada a fruta do marmeleiro.(PM)
Jogo da onça é conhecido no Peru
O jogo da onça é um jogo de estratégia, são 14 contra um. É preciso ter dois jogadores. Um deles joga pela onça e precisa capturar cinco cachorros. O outro defende os cães.
Segundo Mauricio, o jogo pode ter surgido há muitos séculos, pois sabe-se que ele era praticado pelos incas, no Peru, antes da chegada dos espanhóis. Lá, no lugar da onça, o bicho que deve ser acuado é o puma.
O jogo também é conhecido na Índia, onde a briga é entre tigres e cabras, e na China, onde o embate é entre senhor feudal e camponeses.
Nas aldeias do Brasil, é jogado no chão, onde se desenha o tabuleiro com um graveto. Pedrinhas funcionam como personagens. (PM)

1) Coloque as pedras da seguinte maneira: a onça deve ficar no meio do tabuleiro. Na casinha onde está, ela pode 'olhar' para o vértice do triângulo. Os cachorros ocupam as casas vizinhas, ao lado e atrás da onça.
2) O jogo tem dois objetivos: os cães devem acuar a onça, deixando-a sem condições de se movimentar. Mas atenção, os cachorros não capturam a onça, eles apenas encurralam o animal. Quem joga com a onça tem que capturar cinco cachorros.
3) É a onça quem começa o jogo. 0 jogador pode mover a peça para qualquer casa próxima que esteja vazia. Depois, é a vez do jogador cor, os cachorros, que deve mexer uma de suas peças também para uma casinha vazia.
4) A movimentação lembra a do jogo de damas, pois pode-se andar em qualquer direção. Para capturar um cachorro, a onça deve saltar por cima dele para uma casa vazia em qualquer sentido. Ela pode pegar mais de um cão em uma única jogada.
O vencedor é quem consegue cumprir primeiro o seu objetivo.

FSP, 04/12/2004, Folhinha, p. F4-F6

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