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Amazônia já tem 47% da floresta ocupada

FSP, Ciência, p.A34
Autor: ANGELO, Claudio
21 de nov de 2004

Amazônia já tem 47% da floresta ocupada
Pesquisa inédita de ONG do Pará indica que pressão humana sobre ecossistema afeta área do tamanho do México

Cláudio Ângelo
Editor de Ciência

A imagem da Amazônia como imenso e contínuo tapete verde pertence ao passado. Estudo de pesquisadores de Belém, resumido no primeiro mapa à direita, indica que 47% da floresta já sofre alguma ocupação humana.
O trabalho foi feito pela ONG Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e obtido com exclusividade pela Folha. É a primeira síntese da dimensão das pressões humanas sobre a floresta, bioma que ocupa área de 4,1 milhões de km2.
Ele integra dados de desmatamento, estradas "piratas" para extração de madeira e ouro, focos de calor e assentamentos para reforma agrária e promete ser uma pedrada na noção de que a Amazônia vai bem porque "apenas" 16% de sua área foi desflorestada.
"Vastas áreas, antes consideradas "vazias" (especialmente nas porções norte e oeste), mostram sinais crescentes de pressões humanas, especialmente incêndios", escreveram os autores.
Segundo o engenheiro florestal Paulo Barreto, que realizou a análise juntamente com quatro colegas (Carlos Souza Jr., Anthony Anderson, Rodney Salomão e Janice Wiles), a nova síntese é mais significativa que os números do desmatamento, divulgados anualmente pelo governo. Ele diz que o mero acompanhamento da área total devastada não basta para entender a natureza e a extensão das pressões na região.
"Os números [do desmatamento] são significativos, mas não dizem onde vamos precisar atacar primeiro", afirma. Segundo ele, é preciso "saber o que vamos estar lamentando daqui a alguns anos".
O estudo, preparado durante um ano, aponta que aproximadamente 1,93 milhão de km2 de floresta, uma área do tamanho do México, já estão sofrendo ocupação. Do total da extensão do bioma, 19% estão efetivamente tomados e 28% sofrem o que Barreto e seus colegas chamam de "pressão humana potencial".
Os cientistas consideraram pressão potencial todas as áreas licenciadas para exploração mineral e as áreas em volta de pontos de calor detectados por satélite.
A análise contabilizou como ocupadas as áreas de 10 km em volta das queimadas. O número parece arbitrário. Barreto explica: "Existe um estudo mostrando que quem ocupa regiões de floresta vai até 10 km [partindo de área de queimada] atrás de caça, por exemplo. Fomos checar se esse número fazia sentido, se havia atividade nesses dez quilômetros, e havia", afirmou.
O grupo cruzou dados obtidos em campo com informações de um estudo anterior do Imazon, que avaliou a extensão das estradas informais para extração de madeira e ouro no norte de Mato Grosso e no centro-sul do Pará. Notou que nada menos que 72% dos focos de calor estão conectados a algum tipo de via de acesso, sejam estradas "piratas", rodovias oficiais ou rios.
"Há pontos que não estão conectados com nada, mas isso não significa falta de acesso", disse o engenheiro. Ele afirma que estradas velhas para a extração de mogno, por exemplo, nem sempre aparecem nas imagens.
Há também focos realmente isolados, resultado da agricultura tradicional de corte e queimadas de índios e ribeirinhos.
A exploração madeireira ilegal é provavelmente a causa primária da ocupação -e dos incêndios florestais detectados pelos satélites. Os madeireiros costumam fazer as estradas informais, explorar a floresta e depois abrir o caminho para outras atividades.
Outro indício de que a atividade madeireira está ligada ao fogo, segundo Barreto, é o fato de que a localização de 50% dos projetos de manejo florestal aprovados pelo Ibama bate com as áreas em volta dos focos de calor.
"Há muita falta de manejo florestal. O fato de um plano estar aprovado não significa que ele esteja sendo implementado", disse.

Governo perde corrida por reservas
Um dos dados mais alarmantes do estudo do Imazon é o grau de impacto humano sobre áreas que são consideradas prioritárias para a conservação da biodiversidade, nas quais o governo tem planos de estabelecer parques nacionais, florestas para exploração sustentável e reservas extrativistas.
O estudo mostra que 48% das áreas consideradas prioritárias, mas ainda sem proteção oficial, estavam sob pressão humana em 2002. Do 1,44 milhão de km2 que o governo federal identificou em 2000 para a criação de florestas públicas para exploração sustentável, 26% (cerca de 378 mil km2) mostravam sinais de ocupação.
A boa notícia, diz o estudo, é que esse espaço ainda existe. Segundo Barreto, 1 milhão de km2 das zonas prioritárias para conservação ainda está livre de ocupação, "se o governo agir rápido".
A meta do Ministério do Meio Ambiente é criar 500 mil km2 de florestas para concessão e 270 mil km2 de unidades de conservação integral e reservas extrativistas até 2010. Excluindo o que já está criado, faltaria proteger 664 mil km2.
Um problema identificado foi que 73% do 1 milhão de km2 ainda livre de ocupação está em zonas acessíveis por estradas ou cursos d'água navegáveis. "Se o governo não chegar a essas áreas, os madeireiros vão chegar primeiro", afirma Barreto. (CA)

FSP, 21/11/2004, Ciência, p. A34

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