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18 praias de SP correm o risco de desaparecer

FSP, Cotidiano, p. C1, C4
04 de fev de 2007

18 praias de SP correm o risco de desaparecer
Erosão ameaça locais como Gonzaguinha e Caraguatatuba, aponta levantamento
Processo erosivo preocupa em 40% da costa brasileira, diz outro estudo; ocupação à beira-mar e aquecimento global podem ser as causas

Cláudia Collucci
José Ernesto Credendio
Da reportagem local

Pelo menos 18 praias do litoral paulista correm o risco de desaparecer nos próximos anos se a erosão não for contida, aponta estudo do Instituto Geológico de São Paulo, órgão ligado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente que monitora os 600 quilômetros da costa.
No litoral norte paulista, entre as praias com alto nível de erosão e que diminuíram de tamanho está Caraguatatuba, que perde três metros de areia por ano. No litoral sul, outro caso dramático é a praia do Gonzaguinha (São Vicente). Nos últimos 40 anos, "sumiram", em média, três metros por ano.
O aquecimento do planeta, a ocupação desordenada da costa (que não respeita o que os especialistas chamam de pós-praia) e a retirada de areia para uso em pavimentação e aterros sanitários são fatores que explicariam a diminuição das praias.
As soluções, segundo especialistas, passam pela mudança no traçado das avenidas e das estradas que "comeram" parte das praias, pela desocupação de imóveis irregulares e pela devolução da areia retirada.
A erosão não se restringe a São Paulo. Afeta, em maior ou menor escala, cerca de 40% dos 8.500 km da costa do país, diz Dieter Muehe, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador da publicação "Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro". Muehe atribui a degradação não só à ação humana mas também às condições climáticas dos últimos anos, com as sucessivas ressacas que atingiram a região Sul do país.
Desde agosto de 2005, houve quatro ciclones extratropicais -fenômeno climático que causa ressacas- de intensidade extrema no Sul, afirma o meteorologista Eugenio Hackbart, da MetSul Meteorologia.
Foi numa dessas ressacas, no final do ano, que a praia da Enseada, a maior do Guarujá, sofreu prejuízo na ordem de R$ 2 milhões, com a destruição de quiosques, iluminação e parte do calçamento. "O que é do mar é do mar", resume o oceanógrafo Fabrício Gandini.

Guarujá já estuda tirar quiosques da areia
Para secretário municipal de Meio Ambiente, essa é "a única saída honrosa" para evitar diminuição da praia da Enseada
Segundo oceanógrafo, só retirar barracas não resolve problema -é preciso que a urbanização leve em conta as mudanças climáticas

Da reportagem local

A Prefeitura do Guarujá quer transferir os 98 quiosques instalados na praia da Enseada para o calçadão como uma forma de oferecer mais espaço ao banhista. A praia, que tem 7 km de extensão, vem diminuindo de tamanho, mas ainda não existem estudos que indiquem a dimensão do dano.
"O avanço do mar e a ocupação desordenada dos quiosques ao longo dos anos estão acabando com a praia, com o espaço público. A única saída honrosa é retirar os quiosques da areia", diz o secretário municipal de Meio Ambiente, Elson Maceió.
"Freqüento a Enseada há 20 anos e nunca vi uma situação dessa. Cada centímetro de praia está sendo disputado quase que no tapa", diz a publicitária Ludimila Castro, 41.
Mas só a retirada dos quiosques não deve resolver o problema, avalia o oceanógrafo Fabrício Gandini, do Instituto Maramar, que participa de um grupo de trabalho criado pela prefeitura para estudar soluções para a Enseada.
Segundo Gandini, no passado, o planejamento urbanístico não considerou a oscilação das marés. "Foi construída uma avenida onde antes era praia. Além disso, a grande ocupação da areia interfere na dinâmica da praia. Existia um aporte de sedimentos que desapareceu."
Para ele, um projeto de urbanização da Enseada tem que levar em conta as mudanças climáticas. Hoje, o trecho passa por reformas que não estariam levando em conta o fenômeno.
"O trabalho de urbanização da orla não está considerando essa nova dimensão do problema. O mar está chegando e a erosão está avançando. Como você vai fechar a parede da sua casa se amanhã vai ter que quebrar de novo?", questiona.
Além disso, Gandini diz que a reforma do calçadão, em curso, não prevê espaço para os quiosques, que hoje estão na areia.
O secretário Elson Maceió garante que projeto de urbanização está levando em consideração as mudanças climáticas e a necessidade de transferência dos quiosques, mas não entrou em detalhes sobre a obra.

Massaguaçu
A erosão praticamente extinguiu o canto esquerdo da praia de Massaguaçu (Caraguatatuba), avançou no continente e destruiu trechos do acostamento da rodovia Rio-Santos.
Com o risco de deslizamento, o DER (Departamento de Estradas de Rodagem) interditou um trecho de 2 km de acostamento da rodovia, em setembro do ano passado, após tentativas inúteis de conter a erosão.
Agora, o órgão está refazendo estudos para uma solução alternativa. Para a pesquisadora Célia Souza, do Instituto de Geologia, será necessário pensar em mudar o traçado da rodovia naquele trecho.
A Prefeitura de Caraguatatuba, sem condições técnicas para avaliar que medidas podem ser tomadas para conter o processo, pediu auxílio do governo José Serra (PSDB).
O DER tentou realizar uma obra para recuperar a área destruída e impedir que o problema voltasse a ocorrer, mas uma nova ressaca pôs fim à obra, hoje abandonada. (CLÁUDIA COLLUCCI E JOSÉ ERNESTO CREDENDIO)

Aquecimento global e ocupação irregular diminuem praias

Da reportagem local

Aquecimento global, com a elevação do nível dos oceanos, aumento da intensidade e da freqüência das ressacas nos últimos anos, a ocupação irregular da orla e mudanças provocadas pelo homem nos rios que deságuam no mar são apontados por especialistas em climatologia e fenômenos marinhos como causas mais prováveis da redução das praias.
Coordenador do projeto que mapeou o problema em todo o país, Dieter Muehe, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), projeta um cenário sombrio nos próximos anos, mas não se arrisca a falar do futuro mais distante.
""Tivemos no país fenômenos meteorológicos muito severos. A médio prazo, a tendência é que o problema aumente, mas é difícil separar o que é fenômeno do que é tendência", diz.
Um levantamento realizado pelo meteorologista Eugenio Hackbart, da MetSul Meteorologia, referenda as ressacas como uma causa do problema.
Desde agosto de 2005, houve quatro ciclones extratropicais -fenômeno climático que causa ressacas- de intensidade extrema no Sul do país. ""A redução na faixa de areia neste verão em praias gaúchas foi conseqüência de um ciclone excepcionalmente intenso."
Segundo a pesquisadora Célia Regina de Gouveia Souza, do Instituto Geológico, o nível do mar no litoral paulista subiu 30 cm no século 20, contra uma média de 10 cm no resto do mundo, no período. "Quando o nível do mar sobe, as águas empurram a praia para dentro do continente. Se ela encontra uma mureta, um calçadão, entra em desequilíbrio, acaba sumindo", explica Souza.
Barragens que retêm sedimentos que os rios levam para o mar e equilibram as praias são outro motivo da degradação, diz o diretor de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Rudolf de Noronha. ""O contrário também acontece. Quando os rios levam um excesso de areia, o desenho das praias é afetado", diz.

FSP, 04/02/2007, Cotidiano, p. C1, C4

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