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Viagem ao Xingu

FSP, Poder, p. A14-A15
23 de ago de 2015

Viagem ao Xingu
Indígenas do Xingu querem reconhecimento do Quarup como patrimônio nacional e protestam contra o que consideram ameaças da chamada Agenda Brasil

ELEONORA DE LUCENA RODOLFO LUCENA
ENVIADOS ESPECIAIS AO ALTO XINGU

Os índios do Xingu, no coração geográfico do Brasil, estão em festa. É tempo de celebrar mortos e comemorar a vida com o Quarup. Neste domingo (23), encaminham pleito para que o ritual seja reconhecido como patrimônio cultural nacional.
Ao mesmo tempo, índios de todo o país estão apreensivos e revoltados. Protestam contra a Agenda Brasil, levada ao governo pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Consideram que algumas propostas colocam em xeque direitos conquistados.
Em manifesto na semana passada, 150 lideranças indígenas afirmaram que as propostas "só irão agravar as crises hídrica, climática e política. Ou seja, além das catástrofes ambientais, implicarão o aumento dos conflitos e das violências contra os nossos povos".
Eles condenam quatro pontos da agenda. Um deles é o que propõe rever marcos jurídicos de áreas indígenas "como forma de compatibilizá-las com as atividades produtivas". Identificam no texto genérico mais um ataque do Legislativo, onde já tramita a polêmica proposta que confere ao Congresso a prerrogativa de demarcação de terras, atribuições hoje exclusiva do Executivo.
Os índios também protestam contra os itens que pedem revisões do marco jurídico da mineração e da legislação de licenciamentos.
Neste fim de semana, quando assistirá ao Quarup da aldeia Kuikuro, no Xingu, o ministro Juca Ferreira (Cultura) deve receber a solicitação oficial das etnias para que a cerimônia vire patrimônio cultural. Na semana passada, ele ouviu protestos de indígenas.
"Os povos indígenas sofrem o maior ataque sistemático aos seus direitos. Direitos consagrados na Constituição e nos tratados internacionais. Com a chamada Agenda Brasil, querem utilizar nossas terras como moeda de troca para a suposta superação da crise. Isso não iremos admitir".
As palavras foram ditas por Sonia Guajajara, 41, da coordenação executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). A fala ocorreu no encerramento do 2o Fórum Nacional de Políticas Indígenas, em São Paulo, no último dia 15.
Na sala lotada de indígenas, o histórico líder caiapó Raoni Metuktire, 85, também demonstrou preocupação: "Índio precisa de terra para garantir a continuidade da cultura, das tradições. É preciso respeitar as áreas demarcadas. Somos autoridade também, precisamos ser ouvidos e respeitados".
Em seu discurso, Ferreira respondeu: "Não podemos permitir que a barbárie, o que há de pior na sociedade, nos represente junto a vocês, tomando as terras de vocês, agredindo as mulheres de vocês, massacrando aldeias, ameaçando de morte as lideranças. Não é possível. Estão de olho nos conhecimentos que vocês têm sobre a floresta, nos minerais que as terras de vocês por ventura tenham."
Segundo o ministro, "é inadmissível que um governo popular democrático não assuma o compromisso com os povos indígenas".
Ferreira foi aplaudido quando se dispôs a percorrer ministérios com indígenas para tratar de suas demandas. A representante da Funai no evento nada falou.
RITUAL
Na aldeia kamaiurá, no Xingu, a preservação da terra, da cultura, do ambiente e a conquista por melhores condições de saúde estão no centro das prioridades.
Semanas antes da divulgação da Agenda Brasil, o cacique Kotok falou de sua preocupação com a saúde e o agronegócio: "O desmatamento está se aproximando, a queimada está chegando na reserva. Jogam veneno na soja plantada e o veneno está no rio, afeta nossa saúde, dá diarreia", disse.
Kotok, 57, foi o anfitrião do Quarup em homenagem a seu pai, o cacique e pajé Tacumã (1932-2014), figura histórica na luta pela criação do parque do Xingu. Cerca de mil pessoas participaram do ritual fúnebre e da festa no fim de julho.
Com peixe e beiju, indígenas choraram, dançaram e tocaram flautas. A reportagem acompanhou a preparação da festa e o cotidiano da aldeia. O ápice foi no domingo 25 de julho, quando representantes de várias tribos se enfrentaram na huka huka, luta tradicional, de ritmo rápido e feroz.
O embate mais amplo dos indígenas tem outra dinâmica, especialmente a partir da Agenda Brasil. "O cenário não é bom. A certeza é de que continuaremos a fazer o enfrentamento e a resistência", diz Sonia Guajajara.
NA INTERNET
Outras reportagens em
folha.com/viagem-ao-xingu

Nome de romance, o ritual dos mortos celebra a vida
DOS ENVIADOS ESPECIAIS AO XINGU
Foi com "Quarup", romance de Antônio Callado, que o ritual entrou no vocabulário e no imaginário de uma geração. O livro de 1976, em plena ditadura, falava de protestos, revoluções pessoais e políticas, valorização do coletivo.
O individualismo narcisista dava lugar à busca pelo "homem novo", aquele que abraçava a ideia da igualdade inspirado nas tradições dos índios do Xingu. A obra expôs os dilemas de uma época, para além de romantismos utópicos.
Os tempos mudaram, mas o Quarup permanece. Ritual que homenageia mortos, também celebra a vida. Mexe com a dinâmica das aldeias, gera reflexões, amplia laços, expõe disputas, reforça tradições.
Não que esteja tudo igual. O cacique Kotok diz que a festa está diferente, mais colorida. Atento aos números, conta que gastou R$ 4.000 com linhas multicolores. No passado o visual das danças e das lutas tinha um tom mais pastel, só com palhas recolhidas nas redondezas. "A rapaziada quer tudo colorido."
O sábado começa agitado. Os homens pintam, quase secretamente, os troncos que simbolizam os mortos homenageados. Depois, eles são enfeitados com linhas coloridas e penas. Expostos no meio da aldeia, são reverenciados durante todo o dia.
À pé, de moto, barco e caminhão chegam índios de tribos convidadas. Famílias acampam ao redor da aldeia, no mato. Alguns soltam fogos.
À noite, à luz de fogueiras, os que estão de luto choram ao redor dos troncos. É um ritual intenso. Músicos das etnias visitantes fazem cantorias. Ninguém dorme.
Enroscada em um xale, a arqueóloga Jandira Neto assiste a tudo. Depois, relata suas impressões: "Os kamaiurá mantêm o culto a seus mortos como o faziam há 2000 anos. O sentido do ritual, a dor e o luto presentes ainda mostram cenas que poderiam ser descritas por Hans Staden em seu livro 'Duas Viagens ao Brasil' (de 1557). A sensibilidade e a riqueza de detalhes da obra sempre me arrancaram lágrimas e arrepios".
Para ela, do Instituto de Arqueologia Brasileira, o Quarup é uma expressão de "resistência a toda a forma de dominação, violência e espoliação sofrida durante tantos séculos". Ela ressalta a capacidade indígena de se manter fiel às tradições.
No domingo, o luto acaba e só importa vibrar com o torneio de huka huka. Aos poucos, os visitantes pegam o caminho de volta. Antes, trocam presentes e alimentos, no ritual "moitará".
Mais tranquilo, Kotok faz o balanço do Quarup: "Fiquei um pouco envergonhado porque pegamos muito pouco peixe. Mil e pouco [quilos] de peixe. Precisava de dois mil, três mil. Foi bom que passamos a noite toda para finalizar nosso luto, para espiritual ir embora para a aldeia lá no céu. Nos despedimos ontem de meu pai. A luta foi boa. A festa foi boa. Foi muito duro, mas consegui resolver tudo, para todo mundo não sair triste e brabo".

FSP, 23/08/2015, Poder, p. A14-A15

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/230521-viagem-ao-xingu.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/230522-nome-de-romance-o-ritual-…

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