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Tribo do AM causa guerra na lingüística

FSP, Ciência, p. A13
16 de abr de 2007

Tribo do AM causa guerra na lingüística
Americano diz que a língua dos pirahãs, que só contam até três, desafia a teoria mais aceita sobre a linguagem humana
Segundo Daniel Everett, idioma é exceção à chamada Gramática Universal; trio que analisou trabalho, no entanto, critica a hipótese

Claudio Angelo
Editor de Ciência

Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.
Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.
Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos, Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação, não têm tempos verbais, não fazem arte só sabem contar até três.
Em 2005, Everett publicou no periódico "Current Anthropology" um artigo no qual afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer "a canoa de João", "o irmão de João", mas nunca "a canoa do irmão de João". Como vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu pensamento) limitados pela cultura -um caso único.
O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de "órgão da linguagem" no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca dessa faculdade é justamente a recursividade.
Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o arcabouço intelectual chomskiano -sob o qual se formaram gerações de lingüistas- está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.

Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada "experiência imediata" limita a competência lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada "O Intérprete - Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa compreensão da linguagem?" foi publicada na prestigiosa revista americana "The New Yorker" e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.
No entanto, no final do mês passado, antes de a "New Yorker" ir para a banca, um trio de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado Lingbuzz um artigo contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam -com base em trabalhos anteriores do próprio Everett- que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.

Longe de ser "único", pirahã tem traços comuns com o alemão, dizem críticos

Da redação

No trabalho "A Excepcionalidade do Pirahã: uma reavaliação", os lingüistas compararam o pirahã com várias línguas e descobriram que o idioma, longe de ser um "caso excepcional", tem semelhanças com o alemão, o bengali e o chinês.
A suposta matemática única dos pirahãs, afirmam, é compartilhada por outras tribos da Amazônia, como os xetás (até mesmo o tupi tinha um sistema de contagem limitado), que só contam até três. E há, sim, evidências de recursividade.
Além disso, Everett tem despertado a fúria de antropólogos e lingüistas brasileiros, que o acusam veladamente de "monopolizar" os pirahãs, restringindo o acesso de outros às aldeias, e de pesquisar sem autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio) - o que a sede da Funai confirma.
"No cerne disso tudo há uma confusão sobre o que é a Gramática Universal", disse David Pesetsky à Folha. Acho que Everett confundiu a teoria de Chomsky, Hauser e Fitch", afirmou, referindo-se à sua reformulação, que Chomsky publicou em 2003 juntamente com Marc Hauser, de Harvard, e Tecumseh Fitch, da Universidade St. Andrews (Escócia).
"O fato de não se poder dizer em pirahã "A canoa do irmão de João", por exemplo, existe em alemão. Everett diz que esse fato em pirahã se deve à cultura extremamente limitada, mas os alemães não têm essa limitação cultural. Eles navegam na internet. Então, o fato em alemão não se deve à cultura."

Sem elaboração
Rodrigues afirma que Everett "não tem uma teoria e sim uma hipótese", que padece de uma "falta de elaboração teórica". "A experiência imediata, para nós, é uma forma que ele encontrou de colocar todas as observações que ele acha interessantes no mesmo saco. Isso é cientificamente frágil", disparou. "E, se fosse assim, por que a limitação cultural só influencia a linguagem e não outras partes do sistema cognitivo, como a visão?" -questiona.
Everett publicou no mesmo Lingbuzz uma resposta a Rodrigues e colegas, a quem chama de "lingüistas de gabinete". Também os acusa de ter usado seus escritos de 20 anos atrás para refutar sua tese.
"Não há evidência em pirahã de recursividade", disse Everett à Folha, por e-mail, num português perfeito. "Além do mais, o Chomsky nem define bem o que ele quer dizer com isso -muito menos o Fitch, que foi comigo para a aldeia.
Everett, que tem visto de residente permanente no Brasil, diz que sempre pesquisa com autorização "do delegado da Funai de Porto Velho" e que sempre estimula, não impede, que outros visitem a área. "No entanto, os pirahãs quase não falam português e eu sou o único pesquisador secular que já aprendeu a língua deles."
Tecumseh Fitch diz que a questão ainda está aberta. "[Mas] é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra "samba" e escocês tem a palavra "haggis". E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas." Ele continua: "Everett, como muitos críticos de Chomsky, tem uma concepção própria da Gramática Universal, contra a qual ele se bate". Mas seus dados "são tão convincentes quanto a falta de evidência pode ser -ou seja, não muito". (CA)

FSP, 16/04/2007, Ciência, p. A13

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