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Tartaruga pode ajudar a preservar oceano

FSP, Ciência, p .A15
28 de fev de 2004

Tartaruga pode ajudar a preservar oceano
Animais circulam por todo o planeta e servem como "termômetro" para avaliar saúde dos ecossistemas marinhos

Marcelo Leite
Enviado especial a San José (Costa Rica)

A conclusão do 24o Simpósio da Sociedade Internacional de Tartarugas Marinhas, encerrado ontem na Costa Rica, foi de que esses répteis podem contribuir, com seu inegável carisma, para reverter décadas de atraso na proteção do que já foi chamado de "maior ecossistema do Universo".
Como circulam por todos os mares do planeta, as tartarugas são ao mesmo tempo indicadores sensíveis do estado dos oceanos e os animais marinhos mais conhecidos pela ciência, embora ainda existam lacunas no entendimento de sua história natural.
O Atlântico Sul, por exemplo, é um grande buraco. Segundo Roderic Mast, vice-presidente da organização não-governamental Conservation International (CI) e presidente do simpósio, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) já identificou essa área -sobretudo o oeste da África- como região prioritária para pesquisa básica e aplicada (por exemplo, medidas de mitigação para a pesca de espinhel).
Estima-se que, a cada ano, 40 mil tartarugas marinhas sejam acidentalmente fisgadas ou se enrosquem em linhas de espinhel. Uma das principais vítimas é a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a maior delas, que pode chegar a 700 ou mais quilos na fase madura e é a menos comum no litoral brasileiro. De 1982 para cá, 97% delas desapareceram das praias do Pacifico -somente 3.000 fêmeas ainda voltam, a cada ano, para pôr seus ovos na areia.
A principal iniciativa anunciada no simpósio foi a destinação de US$ 3,1 milhões, pela Fundação das Nações Unidas e pela CI, para estabelecer o Corredor Marinho Pacífico Oriental Tropical. Trata-se de uma iniciativa conjunta de Costa Rica, Panamá, Colômbia e Equador, que abrangerá cerca de 2,1 milhões de quilômetros quadrados e havia sido anunciada em setembro de 2002 pelos presidentes dos quatro países, na Cúpula de Johannesburgo.
O ministro de Energia e Ambiente da Costa Rica, Carlos Manuel Rodríguez, esclareceu que os limites da área marinha de proteção ainda não estão definidos, nem o tipo de restrição e fiscalização. De concreto, por ora, há a decisão de destinar US$ 300 mil daquela dotação para a compra de terras, a fim de ampliar o Parque Nacional Baulas de Guanacaste.
"Baulas" é o nome regional das tartarugas-de-couro. Uma das mais importantes áreas de desova é a localidade de Playa Grande, na Província de Guanacaste. Sabe-se que a D. coriacea circula pelas ilhas da região incluída no corredor, como Cocos (Costa Rica), Galápagos (Equador), Malpelo (Colômbia) e Coiba (Panamá), mas não muito mais do que isso.
"Não podemos proteger o que ainda não conhecemos bem", disse Rodríguez. Ele anunciou também que seu país tem como meta conferir algum tipo de proteção a 25% de sua zona exclusiva de exploração no mar. Mas disse que vai demorar ao menos dez anos.
Hoje, apenas 1% dos oceanos se encontram protegidos, contra cerca de 12% dos ecossistemas terrestres. E só uma pequena parcela desse 1% se encontra no regime de proteção absoluta.
O jornalista Marcelo Leite viajou à Costa Rica a convite da Conservation International

Tamar investiga eficiência de proteção a réptil

Do enviado especial a San José

Embora não tenha feito apresentação alguma nas sessões principais do 24o Simpósio da Sociedade Internacional de Tartarugas Marinhas, o Projeto Tamar também realiza um grande projeto para investigar o impacto de medidas mitigadoras na pesca de espinhel (linhas com milhares de anzóis).
O programa, batizado de Plano Nacional de Redução de Captura Acidental, tem base num convênio entre o Tamar, a Univali (Universidade do Vale do Itajaí) e armadores envolvidos na pesca de espinhel, cujos barcos partem de Santos (SP) e de Itajaí (SC).
Na fase piloto do projeto, iniciada em 2000, participaram três armadores e um barco de pesquisa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O trabalho conta também com a colaboração de pesquisadores do ramo havaiano da Noaa (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA). O primeiro cruzeiro foi realizado há um mês.
Além dos anzóis circulares, que fisgam tartarugas cabeçudas e de couro de forma mais superficial, estão em teste iscas de lula tingidas de azul e repelentes de tartaruga (compostos que provocam aversão).
Segundo Neca Marcovaldi, 45, do Tamar, o tingimento não tem efeito sobre as tartarugas, mas possui eficácia comprovada com o albatroz, ave que também se interessa pelas iscas. Como já está sendo aceito pelos pescadores, incluir o repelente equivaleria a matar dois coelhos com uma só cajadada -ou melhor, a salvar duas espécies com uma só linhada. (ML)

FSP, 28/02/2004, Ciência, p. A15

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