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Somos a Amazôna

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ilona-szabo
Autor: CARVALHO, Ilona Szabo de
09 de set de 2020

Somos a Amazônia
Setor privado e instituições financeiras podem ser aliados da proteção da Amazônia

Ilona Szabó de Carvalho

O nosso cérebro tem dificuldades de processar e compreender grandes números, áreas geográficas e períodos de tempo. É desafiador materializar o que nos parece intangível e distante. A imensidão da floresta amazônica, com os milhões de quilômetros quadrados de terra (e os 200 mil campos de futebol que ela perdeu nos últimos 10 meses), as bilhões de toneladas de gás carbônico que ela absorve, e as previsões assustadoras do que será dela em 10 ou 20 anos fazem com que a maioria de nós olhe para a região no mapa sem saber muito bem o que fazer para conter a destruição e o desmatamento ilegal.

Como consumidor, credor, investidor, ou mesmo ativista ambiental, o desafio às vezes parece imenso e complexo demais. E pode gerar paralisia ou inação. No passado, faltava informação, capacidade de monitoramento e ação. Com isso, criminosos, grupos de interesse privados, políticos e funcionários públicos corruptos, e políticas públicas equivocadas destruíram quase 20% do nosso bem comum. Mas hoje a realidade é outra. Através de tecnologia de sensoriamento remoto, big data, e inteligência artificial, temos olhos no céu e no solo. A grande imensidão verde está tomando forma de dados -e a não proteção da floresta é uma escolha e não uma impossibilidade.

Hoje, podemos escutar ao vivo recortes da floresta no celular -a mesma tecnologia que permite registrar o som de uma motosserra para alertar a comunidade indígena mais próxima. Avanços de tecnologia genômica abrem a possibilidade de rastrear madeira e soja, por exemplo, por impressão digital do DNA. Os satélites vêm aperfeiçoando a qualidade e os tipos de dados, possibilitando a triangulação de imagens com registros de terras e embargos fundiários.

Essas inovações oferecem capacidades sem precedentes de coleta de dados, monitoramento e ação de todos os setores da sociedade para o combate ao desmatamento ilegal e outros crimes ambientais. Isso é critico, pois tais crimes não apenas impactam a biodiversidade e o clima global, mas também estão associados a atividades muitas vezes legais, e a males sociais que vão da corrupção à escravidão, e à violência.

Para celebrar o Dia da Amazônia, e ajudar em uma melhor compreensão sobre as ameaças e no desenho de soluções concretas para protegê-la, dois estudos foram lançados pelo Instituto Igarapé -"Crime Ambiental na Bacia Amazônica: uma Tipologia para Pesquisa, Politica Publica e Aça~o", e "Soluções Tecnológicas para a Rastreabilidade da Cadeia de Suprimentos na Amazônia Brasileira: Oportunidades para o Setor Financeiro". Essas contribuições chegam em um momento em que a inação do governo federal redobra a necessidade e a urgência de ações ousadas e responsáveis do setor privado e financeiro, governos subnacionais, sociedade civil organizada e cidadãos comuns.

Não podemos deixar que a floresta chegue ao ponto de inflexão no qual sua sobrevivência é inviabilizada e se inicia um ciclo de savanização irreversível.

O setor privado e as instituições financeiras, em especial, precisam se tornar os grandes aliados da proteção da Amazônia, não só pelos compromissos de sustentabilidade assinados, mas pela sua responsabilidade fiduciária perante os seus acionistas. As mudanças climáticas já se traduzem em perdas econômicas. O desmatamento ilegal, com seu alto grau de impacto ambiental, econômico e social, representa riscos econômicos hoje ainda subquantificados. Porém, os riscos reputacionais e os seus efeitos para a economia como um todo já estão óbvios e só aumentarão.

Façamos pela Amazônia o que ela faz por nós. Afinal, somos parte dela.

Ilona Szabó de Carvalho
Empreendedora cívica, mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala (Suécia). É autora de "Segurança Pública para Virar o Jogo".

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