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Seca bandeirante

FSP, Editoriais, p. A2
31 de out de 2014

Seca bandeirante
Diante da dificuldade do governo Alckmin para responder à crise hídrica, sociedade articula Aliança pela Água de São Paulo

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), deixou de simular que não eram eleitoreiros os princípios que vinham guiando sua administração diante da grave crise hídrica que afeta os paulistas.
Três dias depois de Aécio Neves (PSDB) ser derrotado pela presidente Dilma Rousseff (PT), Alckmin indicou que precisa de ajuda: "A eleição já acabou. Não deve haver um terceiro turno. Isso prejudica a população. A nossa disposição é a do diálogo e a da cooperação".
A mudança de tom é notável. Menos porque, durante a campanha, os tucanos tentaram atribuir ao governo federal parte da culpa pela falta de água e mais porque a gestão estadual reconhece um problema que antes procurava negar.
Em público, Alckmin passou os últimos meses afirmando que a situação estava sob controle, como se o planejamento falho ou inexistente, somado à maior estiagem em oito décadas, não tivesse minado a segurança hídrica da população.
Em privado, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, apontava a irresponsabilidade. Em reunião da estatal, a executiva implicou a cúpula do governo de forma direta na tática da omissão.
"Cidadão, economize água. Isso tinha de estar reiteradamente na mídia, mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa", disse Pena, conforme comprova áudio obtido por esta Folha na semana passada. "É um erro."
A falta de água não atinge mais só o Cantareira, que ontem (30) baixou a 12,6% de sua capacidade, já considerada a segunda reserva técnica. O sistema Alto Tietê baixou para 6,8%. O Guarapiranga está em 40,1%; em 28 dias, perdeu 11 pontos percentuais.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação projeta que, se as chuvas seguirem o padrão usual, o Cantareira chegará à próxima estação seca, em julho, no nível alarmante de 10%. Para voltar à situação usual, a precipitação teria de ser 50% a 60% acima do normal --e outubro vai na direção oposta.
Sabesp e governo criaram o bônus para quem economiza, mas se acovardaram com a multa para quem aumenta o consumo. Nem por isso enxergaram o ridículo de uma campanha publicitária apelando para a coragem do paulista, "aquele que nasceu para vencer".
Parte da população, porém, começa a sair da letargia. Três dezenas de organizações lançaram na quarta-feira (29) a Aliança pela Água de São Paulo. Após dois meses de consultas a 280 especialistas em 60 municípios, o grupo elencou centenas de providências para o curto e o médio prazo.
Defende, por exemplo, uma campanha permanente de esclarecimento, com informação detalhada sobre perdas e consumo, por bairro e região. Eis aí um bom começo para o governador e a Sabesp demonstrarem na prática, antes tarde do que nunca, que reconhecem a gravidade da crise.

FSP, 31/10/2014, Editoriais, p. A2

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/193296-seca-bandeirante.shtml

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