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Proteção parcial já favorece peixe visado

FSP, Ciência, p. A11
13 de fev de 2006

Proteção parcial já favorece peixe visado
Estudo em recifes de coral no Brasil mostra que medidas simples ajudam espécies carnívoras, muito pescadas

Uma das maiores análises já feitas sobre o número e a diversidade de peixes nos recifes de coral do Brasil traz um misto de boas e más notícias. Os pesquisadores descobriram que até medidas simples, como a restrição de algumas formas de pesca, podem trazer de volta algumas das espécies mais visadas economicamente.
Os recifes brasileiros também revelam uma riqueza e abundância surpreendentes de peixes endêmicos (ou seja, que não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo), de certa forma só comparável ao que se vê no Havaí.
Por outro lado, os mesmos problemas que colocam a população dos recifes em perigo planeta afora estão se manifestando de forma clara na costa do Brasil. Vê-se o sumiço das espécies mais cobiçadas em todo lugar onde a pesca não tem freios e, o que é ainda pior, o crescimento da pressão humana sobre o que dá para chamar literalmente de peixe pequeno: os bichos que antes nem chamavam a atenção dos pescadores, mas que agora entraram na lista negra -por pura falta de opção.
Grande escala
Os resultados são fruto de uma comparação detalhada entre locais em que há reservas protegendo total ou parcialmente os recifes e áreas onde a pesca é completamente liberada, ao longo de uma faixa de 2.500 km de litoral. "O nosso trabalho fez essa comparação em escala nunca antes vista no Brasil, com resultados que podem ser, pela primeira vez, generalizados para a nossa costa", diz o biólogo Sergio Floeter, que faz seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Santa Barbara (Estados Unidos).
Ao lado de Ben Halpern, também de Santa Barbara, e Carlos Eduardo Ferreira, da Universidade Federal Fluminense, Floeter é um dos autores do estudo, que estará na edição do mês que vem da publicação especializada "Biological Conservation".
A equipe escolheu três pares de áreas com recifes de coral, do litoral baiano ao carioca. Dois recifes rochosos, no Sul e Sudeste, também foram avaliados para comparação (veja mapa acima, à dir.).
A equipe mergulhou de olho nas populações de 135 espécies de peixe, concentrando a análise sobre três famílias abundantes nos recifes brasileiros, os serranídeos (garoupas e assemelhados), escarídeos (peixes-papagaio) e acanturídeos (peixes-cirurgião).
De régua na mão
Para os três grupos, os pesquisadores também ficaram de olho no tamanho dos indivíduos, uma medida importante da pressão da pesca, uma vez que os espécimes maiores são sempre os preferidos. Uma régua de 1 m de comprimento permitiu que eles medissem os exemplares debaixo d'água.
Os resultados, é claro, mostraram que as áreas protegidas por reservas ganham tanto na abundância quanto no tamanho das espécies de peixe mais visadas. Mas a boa surpresa é que, no caso das garoupas e seus parentes, até áreas com proteção apenas parcial (como a permissão de só usar anzol e linha, por exemplo) já favorecem a presença dos bichos. O mesmo não acontece, porém, com os peixes-papagaio e outros herbívoros, que só parecem prosperar mesmo com proteção total.
O curioso é que as espécies que não são alvo de pesca acabam se tornando mais abundantes nas áreas em que a atividade é totalmente liberada. "Mas haverá sempre um desequilíbrio na estruturação das comunidades de peixe sem os predadores de topo. Fora isso, perdemos a pesca", explica Floeter. Isso acontece porque os peixes mais visados são os equivalentes aquáticos de leões e tigres, e não de zebras ou antílopes, como acontece em terra.
Por falta de opção, os pescadores acabam se voltando para os herbívoros, abrindo mais um buraco na ecologia dos recifes. "Os peixes-cirurgião, por exemplo, nunca tinham sido alvo de pesca no Brasil, mas já começaram a ser capturados no Nordeste", diz ele.
O único jeito inteligente de enfrentar isso é aumentar as reservas. "Esse trabalho contribui num momento importante de construção do Plano Nacional de Áreas Protegidas", avalia Beatrice Padovani Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco. Hoje, menos de 1% das águas nacionais estão em reservas. "É óbvio que não dá para tirar tudo de todos os lugares o tempo todo, e ainda sairmos todos ganhando", afirma ela.

FSP, 13/02/2006, Ciência, p. A11

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