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Pegada ecológica

FSP, Mais, p. 9
Autor: LEITE, Marcelo
29 de out de 2006

Pegada ecológica

Marcelo Leite

O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) prestou um novo serviço para o futuro do planeta -se é que ele tem mesmo algum futuro. Na última terça-feira, pôs no ar a versão de 2006 do relatório "Planeta Vivo" (www.footprintnetwork.org/overshoot), que faz mais pelo ambiente global do que muitas exibições de histrionismo verde. Informação, não tanto emoção: a humanidade já retira da Terra 25% mais recursos do que a biosfera pode reciclar.

A ONG pisou fundo no conceito de "pegada ecológica" ("ecological footprint", em inglês). É um indicador simples da pressão exercida sobre o ambiente. Representa a quantidade de hectares necessários para sustentar a vida de cada pessoa no mundo. A média é 2,2 hectares, mas o espaço disponível para regeneração ("biocapacidade") é de apenas 1,8 hectare.

Alguns exemplos: Estados Unidos, 9,6; Reino Unido, 5,6; Japão, 4,4; Brasil, 2,1; China, 1,6; Índia, 0,8. Os três primeiros são devedores; os últimos, credores -usam menos do que a média. Conjuntamente, estão todos sacando a descoberto.

(Antes que alguém venha com o velho argumento condorcetiano/antimalthusiano de que a tecnologia aumenta a produtividade, cabe dizer que isso foi agregado na metodologia do estudo. E que dois pés de soja, por mais produtivos que eles possam ser, não podem ocupar um mesmo pedaço de chão.)

Se nada for feito, é óbvio que vai piorar. Em 2050, a espécie humana estará consumindo o dobro do que deveria. Provavelmente já terá então ocorrido o que se poderia chamar de "crise da dívida ambiental", que vai provocar saudade da crise do petróleo e da crise da dívida externa. Embora haja controvérsias quanto ao bom senso ser de fato a coisa mais bem distribuída do mundo, tudo indica que será preciso recorrer antes disso a ele -por puro pragmatismo.

Seria o caso de começar fazendo com que os inventores do termo "ecochato" engulam a ofensa, inaugurada em 1992, quando se realizou no Rio de Janeiro a Cúpula da Terra.

Sim, a conversa dos verdes sempre foi meio enfadonha, cheia de estimativas catastróficas difíceis de verificar e assimilar. Além disso, tinham e têm uma tendência irritante a insistir. Talvez seja porque têm razão.

Não, a preocupação com o ambiente global não é mero fastio de intelectuais desiludidos com o marxismo, nem último reduto de meia-oitos. Demorou, mas entrou no radar dos economistas, pelo menos dos mais antenados. E até de Al Gore, legítimo produto do establishment americano.

Retrospectivamente, a reviravolta prova que o rótulo de "ecochato", usado para matar a discussão, fazia tanto sentido quanto criticar freqüentadores de estádios de futebol como uns malucos que gostam de ver 22 marmanjos correndo atrás de uma bola. Esse mesmo pessoal com alergia a verde sempre babou por um relatório do Banco Mundial, cujos números apareciam como encarnação da racionalidade. Se o WWF ainda lhes causar urticária, e como a semana foi dos relatórios ambientais, fica aqui a sugestão de outro: "Em desacordo? Expansão Agrícola, Redução da Pobreza e Meio Ambiente nas Florestas Tropicais" (www.worldbank.org/tropicalforestreport).
O autor principal é Ken Chomitz, economista do Banco Mundial. O volume defende que países ricos invistam na preservação de florestas tropicais, pagando para que países como o Brasil continuem a prestar esse serviço ambiental para o planeta. Até o governo brasileiro já concorda. Só os neochatos ainda não entenderam.

Marcelo Leite é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, autor do livro paradidático "Pantanal, Mosaico das Águas" (Editora Ática) e responsável pelo blog Ciência em Dia (www.cienciaemdia.zip.net).
E-mail: cienciaemdia@uol.com.br

FSP, 29/10/2006, Mais, p. 9

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